Sunday, July 17, 2011

51 - Sabemos Onde Estes Rios Nos Levam

O rio Tejo e o castelo de Almourol
Sabemos para onde correm os grandes rios da política, da economia, da sociedade. Basta tomar um pouco de altitude, observar os factos na perspectiva do tempo e do espaço. As grandes linhas aparecem desenhadas numa continuação natural e histórica, os detalhes dependem das circunstâncias locais. Como aqueles zooms que começam com o planeta Terra visto de tão longe que aparece como um pequeno ponto, se vão aproximando progressivamente, até que se focam num continente, num país, numa cidade, ou em qualquer detalhe que se queira mostrar, digamos Portugal neste Verão de 2011, a sua envolvente e os seus componentes.
O destino inevitável dos rios portugueses, cujos principais começam quase todos noutro estado europeu, depois atravessam o país, é finalmente desaguarem no mar, pelo qual nos ligam ao mundo. É do maior interesse nacional saber o que acontece aos rios antes de passarem a fronteira, a qualidade, a quantidade e a previsibilidade do caudal. Do que se faz depois com a sua água, elemento essencial da vida, assim como do que sai e entra dos portos na foz desses rios, depende o progresso, a estagnação ou o empobrecimento dos povos que habitam os seus cursos. Mas sabemos que os nossos rios têm que desaguar inevitavelmente no mar e quanto a isso não há nada a fazer.
Apesar de toda a excitação que percorre nesta altura a sociedade portuguesa, com políticos, académicos, profissionais diversos, assim como ignorantes variados a pronunciarem-se nos media, a dizerem tudo e o seu contrário, será útil distinguir a realidade da fantasia, separar aquilo que é susceptível de acção do que é inevitável.
É possível - e absolutamente necessário - agir rapidamente sobre os defeitos estruturais da organização política, económica e social do país. Ainda está na memória dos mais velhos o tempo em que a ênfase política era posta nos deveres de cada um para com a nação. Um tempo em que nem o Estado, nem as empresas, nem os cidadãos, investiam ou gastavam sem ter amealhado primeiro, não recorriam ao crédito a não ser com garantias sólidas da capacidade de reembolsar. Um tempo em que a mobilidade social se fazia com o esforço concertado de várias gerações, com seriedade no estudo e no trabalho, ou com o arrojo individual e a emigração. Mas também um tempo e um regime em que era difícil sair da pobreza, porque a ideologia e a religião se aliavam para manter o povo controlado, com a alienação da coisa pública e a resignação da fé numa vida melhor. Depois da morte, claro.   
A liberdade política veio acompanhada da deriva económica e da utopia social financiadas no crédito irresponsável. Vai ser agora preciso relançar a economia exportadora que é possível sustentar com os meios humanos e materiais do país. Quando Napoleão citava Adam Smith, dizendo que a Inglaterra era uma nação de comerciantes, não era um insulto, era inveja, e naturalmente acabou por perder a guerra. Um país é uma empresa, se não vender ao exterior mais do que compra, se não tiver lucros, vai à bancarrota.
Não é possível diminuir o desemprego sem reconhecer que nem todos podem trabalhar nos serviços da administração pública ou na economia do conhecimento. A administração tem que ser cada vez mais informatizada e cada vez menos cara em recursos utilizados. A maior parte da população tem que continuar, ou voltar a dedicar-se aos trabalhos da terra, do mar, dos serviços, do comércio, da indústria. Alguns dos que emigraram para as cidades e vivem agora de subsídios em casas sociais, vão ser encorajados pela necessidade a voltar às terras de origem e às actividades produtivas de que são capazes.
Vai ser difícil reduzir o estado social à parte dos impostos que o governo pode utilizar para esse efeito. Isso significa o fim da utopia de que todos os alunos são iguais, de a que a escola não necessita de esforço individual, disciplina e respeito por professores e colegas. O fim da utopia de que o sistema de saúde pode utilizar todos os meios, para todos e gratuitamente. O fim da utopia de que os cidadãos dum país que tem um rendimento pobre, podem viver como os cidadãos dum país rico.   
Tal como não se pode evitar o destino da corrente dos rios, não se pode evitar a evolução normal da crise da dívida soberana para uma reestruturação. Portugal tem que por a casa em ordem, com o auxílio do FMI, do Banco Central e dos fundos europeus. Não vale a pena procurar, porque não há alternativas viáveis. Mas no fim do processo os credores vão ter que aceitar os instrumentos financeiros necessários para receberem apenas aquilo que o país pode pagar e quando puder pagar. É isto que é previsível, considerando os países que estiveram antes em situações semelhantes. Embora os actores mudem, a peça é a mesma.
É isto que sabem os analistas das agências de avaliação (rating). Podem não ter sabido antecipar as crises, podem enganar regularmente os pequenos investidores em favor dos grandes fundos que lhes pagam para manipular os mercados, podem ser o diabo, mas são os diabos que existem como referência no sistema financeiro actual. Só a grande custo começam a aparecer “diabos” concorrentes. Na China pois claro, cujo comércio com todos os diabos faz parte da sua antiga civilização e do seu sistema totalitário actual, de exploração dos indivíduos para enriquecer o estado e as suas cliques dirigentes. Na Europa não faltam propostas, mas sabemos bem que um “diabo” europeu só será diferente dos diabos americanos na classificação que der à dívida dos EUA, e francamente isso não interessa a ninguém.  
Pode-se pouco - mas é preciso lutar energicamente - para acelerar o processo de unificação europeia, a fim de assegurar a sobrevivência da União. Só uma união financeira e fiscal pode resolver os problemas causados pelas discrepâncias entre os países da zona Euro, entre o Norte e o Sul, entre os diferentes países periféricos que já sofrem todos do sindroma grego e que continua a alastrar. Que agora já chegou à Itália. A Grécia está há muito numa bancarrota desorganizada, muito por culpa própria, mas também por falta de liderança europeia. Sempre foi óbvio que os gregos esperavam que a Europa impusesse regras de governação e de controle, de que eles próprios são incapazes. A Europa de Bruxelas falhou porque considera, estupidamente, que todos os países são iguais. Não são. Assim como tudo o que resta na Grécia da sua época clássica são ruínas magníficas, o mesmo acontece com a Itália. Outro país que não se sabe governar e que necessita, mais do que qualquer outro, dum governo europeu. Sem a Itália não há Europa e sem a Europa a Itália vai continuar a fragmentar-se em regiões e “máfias” diversas.
Para Portugal, esta estupidez institucional de Bruxelas deixa o país exposto, porque oito séculos de história demonstram que é capaz de se governar, embora só o saiba fazer bem quando a espada o encosta à parede. Como agora.
JSR

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