Thursday, May 10, 2012

103 - A Destruição das Catedrais

Ruinas de S. Paulo - Macau
Published 17/05/2012 by "Jornal do Fundão".

   As “Catedrais” onde ainda se guardam a identidade, os conhecimentos, as certezas e os tesouros de cada nação, estão a ser irremediavelmente abertas e por vezes destruídas pelo avanço das marés da globalização. As mudanças trazidas em progressão geométrica pela evolução da ciência, da tecnologia, da integração  económica e das vagas de transformação industrial, acontecem depressa demais para a capacidade de adaptação política dos povos e das suas estruturas sociais.
Os governos dos países mais desenvolvidos, em vez de responderem às causas do declínio com as reformas estruturais adequadas para conseguir manter o patamar de abundância atingido pelas suas populações, são reféns das promessas imediatistas que os elegem e complacentes com a manutenção dos interesses instalados. Os povos tem a memória curta, o que os leva a votar uma vez e outra em quem mais promete e não no melhor projecto político. Normalmente quem mais promete são os mais medíocres, que se deixam arrastar em vez de dirigir.
O resultado das eleições na França e na Grécia não foi surpresa nenhuma. Desde que começou a crise, em todos os países europeus os partidos no governo perdem as eleições. Para definir estas situações bastam um par de parágrafos, porque as análises detalhadas só interessam a quem tem que viver na espuma dos dias.
A França faz a ponte entre a Europa germânica do Norte e a românica do Sul, por isso muita gente se interroga sobre o que vai fazer Hollande e as consequências para outros países. Com a volta dos socialistas ao poder, vamos assistir a uma repetição dos mesmos erros que cometeu Mitterrand no seu tempo e que o levaram a meter rapidamente o seu programa eleitoral na gaveta. Desta vez pode ser mais penoso devido ao momento em que Hollande fez as suas promessas absurdas, esquecendo as fragilidades crescentes do seu país. Quanto a influenciar outros governos europeus, continuará decerto Monti a ser mais credível, com a sua combinação de necessidade das reformas estruturais, cautela na escolha das medidas de crescimento económico e um maior papel para a Comissão.
A Grécia tem o destino traçado desde que a maioria do capital móvel (dos investidores, das empresas que ainda pagavam impostos e até muitas das economias da classe média) fugiram do país. Um pais dividido e ingovernável, que ainda não expurgou os seus demónios da longa ocupação otomana (a divisão em clans e a resistência à autoridade central) e que ainda não adquiriu capacidades de deixar funcionar sequer o simulacro de democracia que existiu desde o fim do regime dos coronéis. Mesmo isso só foi possível pelos estratagemas usados para obter o máximo possível de fundos de coesão e pela corrupção generalizada durante a distribuição dos dinheiros europeus a todos os grupos de interesses. Como a maioria dos votantes está contra as medidas de saneamento económico, deixa de ser possível maquilhar a realidade da bancarrota, o que significa a saída do Euro e por consequência a desordem. A necessidade de por ordem na sociedade passa por uma solução autoritária, o regresso ao passado. A derrocada grega trás, essa sim, contágios perigosos. Mas com todo este tempo para se preparar para a situação, se a Zona Euro não tem já prontas as medidas políticas e fiscais necessárias, é porque não merece existir.
A evolução da crise e dos problemas europeus só pode passar pela compreensão das mudanças da ordem económica mundial e pelas medidas necessárias para a expansão das industrias do conhecimento e todas as outras áreas em que os países desenvolvidos ainda têm vantagens competitivas. Mas mesmo esta nova revolução industrial em marcha, que vai trazer de volta muitas industrias manufactureiras, só vai resolver o problema do desemprego nas áreas mais especializadas que necessitam de cada vez mais conhecimentos e menos pessoal. Fora das altas especializações e dos serviços de qualidade há cada vez menos portas de salvação nas “Catedrais” da Europa.
JSR

Tuesday, May 1, 2012

102 - As Ditaduras Esquizofrénicas

May Day
Neste primeiro de Maio, com tantas tradições ancestrais de celebração dos ritmos da natureza e tantos significados espúrios mais recentes, leio num jornal que a China proibiu a exibição das cenas de nu do filme “Titanic”. Têm razão, a Kate Winslet integral não é oficialmente para os olhos dos proletários, que não a merecem.
Os proletários devem manifestar neste dia a sua satisfação por viverem num “paraíso dos trabalhadores” com marchas militares. Os que ainda são explorados pelo capital devem desfilar com bandeiras exprimindo o desejo de emigrarem para esses paraísos. Boa viagem. Mas lembrem-se que à chegada não poderão ver um filme com uma mulher nua. Entre muitas outras coisas proibidas. A não ser que sejam membros do partido ou os seus agentes empresariais, porque esses têm meios para comprar os CDs clandestinos e tudo o resto. Já que Mao tenha invocado a medicina tradicional para nos seus últimos anos se fazer aquecer por várias jovenzinhas simultaneamente na sua cama, é doutrinariamente perfeitamente ortodoxo...
Mas as ditaduras comunistas não são as únicas a limitar as liberdades individuais e colectivas duma forma esquizofrénica. Em todos os regimes autoritários as definições de moral e os atropelos a essas definições são sempre um catálogo de hipocrisias.
No Irão, os guardas da revolução dos ayatollahs assediam na rua as mulheres que não se tapam suficientemente, mas a venda de cassetes pornográficas é o grande negócio dos bazares. Situações similares acontecem noutros países islâmicos com burcas e niqabs e restrições à educação, ao trabalho e à autonomia.
Nos estados dominados pelas religiões “reveladas” de origem tribal, o patético das tradições obtusas tem-se mostrado pouco permeável ao tempo e à razão. Basta uma consulta à Wikipedia sobre o Ayatollah Khomeini, ou para ler qual o tipo de assuntos em que se especializam os “doutores” da sharia, para ter uma ideia do fosso que separa as democracias seculares desse outro mundo em que ainda vivem esses (e outros) selvagens.
A recordar o que disse Saramago sobre os “manuais de maus costumes”... e a esquecer que nunca foi viver para nenhum dos paraísos proletários tão caros aos seus correligionários. Porque sabia bem a diferença entre a “pose” para bugio ver e a realidade.
As definições de moral mudam com os tempos e com as civilizações. Mas a aplicação das suas leis e eventuais sanções variam sempre de acordo com as classes sociais. Não são só os Maos e as suas idiossincrasias. Porque são sempre os mais fracos que estão na mira dos vigilantes da obediência às práticas dominantes: as mulheres, os deslocados, as minorias religiosas, étnicas ou sexuais, os dependentes de vícios proibidos, os pensadores livres.
As ditaduras dos costumes são sempre esquizofrénicas, seja qual for a sua desculpa doutrinária. As leis iníquas e as repressões são ineficazes porque só servem para dar um estatuto social aos fanáticos ignorantes que as aplicam.
A ignorância pode ser temporária, mas a estupidez é para sempre.
JSR


Wednesday, April 25, 2012

101 - Os Donos de Portugal

New Age Fat Cat
Folheei o livro nas livrarias e agora vi o documentário do mesmo nome depois de uma catadupa de recomendações. Bom, e então? Para além de alimentar curiosidades, honestas ou perversas, para que é que isto serve?
Que os homens não nascem iguais e vivem e morrem cada vez mais desiguais, toda a gente sabe. Que, seja qual for a organização social, os indivíduos se estratificam inevitavelmente, qualquer um se apercebe bem cedo ou, para os mais obtusos, o mais tardar quando chegam ao mercado de trabalho. Que existem donos de cada país e que isso acontece com todos os países, verifica-se com um pouco de experiência internacional. Que, cada vez mais, a globalização da economia, da tecnologia e da informação, permitem o aparecimento de donos do mundo, apreende-se com um pouco de cosmopolitismo, de atenção e de conhecimento.
Mesmo em suposta democracia, uma classe de privilegiados é sempre “mais igual” do que os outros. Em Portugal, a burguesia dos negócios infiltrou-se, despiu-se, misturou-se e acabou por substituir a aristocracia como classe dominante. Esta nova classe híbrida apropriou-se progressivamente dos poderes do estado e continua a reproduzir-se das relações incestuosas que mantém com os seus sucessivos detentores. Nada de novo, nesta grande família promíscua mudam os mitos das personagens, mas no fundo o teatro é sempre o mesmo. Desapareceram os mitos da nobreza, que embora totalmente bastarda, ainda se pretendia de origem visigótica e herdeira dos direitos adquiridos pela presúria. Vingaram-se os comerciantes anteriormente diminuídos como classe social e por serem ou descenderem de cristãos-novos, que ao meterem-se na cama da nobreza aumentaram o instinto de rapina nos seus genes. Mas continuam todos muito dependentes da religião tradicional e do regime, qualquer que ele seja. Desde que a oligarquia mantenha os seus privilégios, a Igreja mantenha o povo resignado (crente que depois da morte é que vai ser bom...) e que um regime politico mantenha os mais recalcitrantes a manifestarem tanto quanto queiram, mas inofensivos, tudo vai pelo melhor. Tudo muda e tudo fica na mesma.
Podem-se escrever - e escrevem-se - exactamente o mesmo tipo de relatórios acerca de qualquer país do mundo, seja qual for a sua forma de organização política. Nos Estados Unidos, a elite económica e os que lhe estão associados duma forma ou doutra, representam cerca de 1% da população, percentagem que deve ser válida também para as outras democracias. Nos outros regimes, as percentagens dos privilegiados em relação à totalidade da população são ainda menores. As “nomenclaturas” comunistas tornaram-se classes hereditárias, como na antiga URSS e ainda na China, ou mesmo ridículos regimes dinásticos, como na Coreia do Norte. Há também as monarquias tribais dos emires do petróleo do Golfo, as teocracias medievais do Irão e outros, os novos sobas da África, os “robber barons” do Sul da Ásia, as “cliques” da América Latina.
Esta estratificação está na natureza humana e faz parte da evolução. Desde que se constituíram as primeiras comunidades agrícolas que as diferenças de produtividade levaram à noção de propriedade e que das trocas de produtos nasceu a noção de capital. Apareceram então os aproveitadores que, pela força das armas ou pela chantagem da superstição, viviam à custa dos que trabalhavam e em troca protegiam-nos dos outros bandidos e dos medos do desconhecido. Uma simbiose de vantagens desiguais, mas duradoura. Até hoje.
Há alguma coisa a fazer para mudar este estado das coisas? Na realidade não muito, mas o politicamente correcto obriga a inventar umas quantas teorias sociais, para mascarar a realidade aos corações mais sensíveis e não chamar o verdadeiro nome às coisas. 
Por um lado, a globalização nivela presentemente as diferenças dos estratos correspondentes de todos os países. Os mais ricos estão cada vez mais ricos, são mais numerosos e mais bem distribuídos pela face da terra. Aqueles que tem melhores conhecimentos para participarem na revolução tecnológica que transforma a produção agrícola e industrial, os transportes e a distribuição, o consumo e tudo o resto, vêm a sua qualidade de vida aumentar onde quer que estejam. Todos os outros em actividades progressivamente obsoletas, estão também na competição global nos seus sectores respectivos e os seus rendimentos alinham-se pelos mais baixos, independentemente do local. Várias gerações estão a ser sacrificadas neste processo. 
Por outro lado, o avanço da sociedade do conhecimento traz a esperança duma melhoria progressiva da qualidade de vida para todos no longo termo e da sua homogeneização no ainda mais longo termo. Na condição de se controlar a população mundial, de não se dar cabo do clima irremediavelmente, da inteligência e da razão derrotarem a ignorância e o fanatismo. É preciso começar agora, mas quem vier a seguir, verá.
 JSR

Wednesday, April 18, 2012

100 - Portugal, a Europa, e Agora?

Götterdämmerung
Published 3/05/2012 by "Jornal do Fundão".

         Esta pergunta já seria maçadora se não se tratasse dum drama nacional. Até seria de resposta relativamente fácil se este drama não se desenrolasse no meio duma tragédia europeia.
Já foi bem explicado qual é a situação do pais, as causas externas e internas dessa situação, assim como as suas consequências: as inevitáveis (o empobrecimento), as prováveis (a limitação drástica do estado social), as possíveis (o desemprego elevado durante um longo período) e os desastres improváveis mas todavia possíveis (a saída do Euro).
Ainda não foi suficientemente bem explicado (excepto por algumas personalidades mais esclarecidas, mas ainda pouco escutadas), porque é que a economia europeia se está a afundar na competição global. Enquanto algumas economias do Norte, particularmente a Alemanha, conseguirem disfarçar o seu próprio declínio com exportações de alta tecnologia e de grande valor acrescentado, os seus governos tapam os olhos aos próprios eleitores para esconderem os problemas que avançam inexoravelmente das periferias para o centro e que também os atingirão mais cedo do que mais tarde.
Mas a pergunta subsiste, nas assembleias políticas, nos meios de comunicação, nas reuniões públicas e privadas, nas conversas de rua, em todo o lado: Então e agora? Como as crianças numa longa viagem de carro, que perguntam de cinco em cinco minutos aos pais: Então, já chegámos?
A resposta é simples: Não, ainda não chegámos e infelizmente não podemos saber quando vamos chegar, pela razão também simples que não sabemos onde vamos. Quem disser o contrário ilude-se e ilude-nos.
Esta fase da crise começou com a desculpa duns activos tóxicos nos USA (acções que não valiam um caracol, mas que as agências de rating, na sua grande sabedoria corrupta, recomendavam a compra aos investidores) e a falência dum Banco que se julgava acima das leis do mercado. Seguiu-se uma cascada de outras falências, a descoberta de várias falcatruas monumentais e a suspeita de muitas outras, numa hemorragia que foi necessário estancar antes que o sistema financeiro mundial entrasse em colapso.
Outras vítimas (também culpadas) foram os países em várias partes do mundo que sobreviviam da acumulação de dívidas que excediam cada vez mais a sua capacidade de pagamento futuro. Governos preocupados em ganhar eleições e infiltrados por interesses privados que sugam os estados enquanto podem, conscientes da sua capacidade de se pôr ao abrigo dos desastres inevitáveis, em paraísos fiscais e países de refúgio.
Mas o grande problema é que a Europa envelheceu e começou a definhar. Com a baixa natalidade e as políticas falhadas de integração dos imigrantes, não consegue sustentar o estado social. Aberta a todas as importações pelos acordos de comércio internacional (mesmo de países governados por regimes autoritários e exploradores dos seus próprios povos) importa a preços mais baixos aquilo que costumava produzir, aumentando o seu próprio desemprego. Nem todos os seus países membros conseguem compensar com exportações nas áreas em que têm vantagens comparativas. Sem exigir a reciprocidade no acesso a contratos e mercados, arruína-se progressivamente.
A Europa perdeu a alma no século passado com as duas guerras civis e o fim dos impérios coloniais. Perdeu a predominância económica, política, militar e sobretudo o respeito próprio, ao ter que aceitar a tenaz da partição imposta pela “cortina de ferro” soviética por um lado e a tutela Americana por outro. Agora, enquanto constrói penosamente a oportunidade de juntar forças para recuperar o seu lugar no mundo, os egoísmos nacionais mal informados tornam cada vez mais penoso o aprofundamento fiscal e politico, indispensáveis para a consolidação da União.
Em Portugal, país pouco europeu por natureza, a desagregação dos mercados coloniais, a perda da auto-suficiência relativa e o consequente emprego na agricultura, nas pescas e na pequena indústria, deixou o país entregue aos interesses duma oligarquia político-económica, incestuosa e apropriadora em proveito próprio dos recursos do estado, que acabou por esgotar o seu crédito.
Após o acordo para a presente ajuda externa, este governo tem o mandato eleitoral, a capacidade e as características próprias de competência e energia, para implementar as exigências da "troika", que são os verdadeiros regentes do país. O que tem estado a ser feito com um sucesso importante, mas parcial.
Um governo de executivos competentes, mas que infelizmente ainda não conseguiu fazer as reformas estruturais previstas, entre as quais a dos serviços do estado e a renegociação dos contratos leoninos oferecidos por governantes anteriores às empresas para onde migraram depois. Empresas que extraem rendas exorbitantes dum estado que contribuíram para levar à falência. Um governo que não tem, também, nem a visão politica para ser capaz, nem a experiência para saber quando, pode e deve descolar da tutela da "troika". No momento próprio.
Embora tenha ganho a aprovação dos parceiros internacionais, não ganhou ainda o seu respeito, não atingiu a força suficiente para renegociar os termos do acordo, em montantes, em tempo e em juros, de forma a conseguir libertar o investimento nas empresas exportadoras e fomentar o emprego nas áreas mais produtivas.
E esse momento era agora. Antes da confusão das mudanças politicas na França e na Alemanha e das convulsões gregas após as eleições. Audaces fortuna adiuvat...
JSR

Wednesday, April 11, 2012

99 - As Coexistências Manhosas (Conversas Surrealistas)

Two Elephant Seals...
Ficou no café do centro comercial enquanto esperava, jornal na mão, chá e torrada sobre uma mesa de canto, numa expectativa razoável de estar a salvo dos carrinhos de compras e em relativo sossego. Engano.
No meio da leitura de mais um artigo sobre o analfabetismo atávico dos compatriotas, ouve sem realmente prestar atenção: “Queres mais um duchesse?”, seguido do barulho duma cadeira a cair. Ao levantar os olhos do jornal, vê avançar na sua direcção uma enorme bola de “jeans” a rebentar pelas costuras, um traseiro de diâmetro maior do que a mesa, pertencente a uma criatura dobrada para apanhar a cadeira. Desviou-se a tempo de ver o bule, chávena e torrada serem sacudidos pelo sismo do encontrão e o copo de água rolar para o chão.
A empregada, solícita, veio mudá-lo de mesa, infelizmente para o outro lado das duas gigantescas criaturas amadoras de “duchesses”. Aquela que estava mais próxima usava a cadeira como uma espécie de “fio dental” entre as nádegas, uma das quais ocupava todo o espaço até ao território dele.
E palravam. Numa rápida observação oblíqua, constatou que deviam ter estado caladas até então porque absorvidas na leitura dumas “revistas do bidé social”. Mas agora tinha chegado a altura da conversa... e em voz suficientemente alta para a plateia, na qual ele tinha o azar de se encontrar na primeira fila.
“- Já estou farta deles todos. Falam das coisas uma vez e outra vez, e lembram isto e que aconteceu mais aquilo. Como se nós já não soubéssemos.
- Estragam tudo. E depois os velhacos afinal não são assim tão velhacos e a Inês que parecia tão boazinha afinal já se tinha deitado com o Raul.
- E a irmã sabia, por isso é que não a quer ver lá em casa.
- Não, isso eram os outros, os do... os que... tu sabes.  
- Mas olha que o Raul matou a sogra para lhe ficar com o dinheiro e ainda não foi apanhado.
- A Policia foi lá a casa e não prendeu ninguém.
- Mas eu vi... e tu também. Foi ele.
- Achas que devíamos ir à Esquadra?
- Nah... não servia de nada, esta gente safa-se sempre e nós é que arranjávamos chatices.”
Como? Elas viram um crime e decidiram não ir à Policia contar o que sabem? Isto é estupidez, ignorância, resignação, falta de civismo... Devo dizer-lhes alguma coisa, meter-me numa conversa alheia? Pensou durante uns segundos, mas entretanto a conversa continuava:
“- Tens razão. Ele já tinha feito o mesmo à Delfina e vai continuar até que o apanhem.
- Vais ver que não apanham. É como os Gorjões, as patifarias que têm feito e andam sempre com o rei na barriga.
- Ainda no outro dia a Joana ameaçou de contar como o pai tinha feito fortuna se não lhe dessem já a parte dela.
- Essa não é a Joana dos Gorjões, é a dos outros, aqueles que... como é que se chamam?
- Não me lembro, às vezes faço confusão com tantos malvados aí à solta.
- E depois com as repetições já não sabemos o que está a acontecer agora e o que se estão a lembrar. É muita confusão e estão só a fazer render o tempo.
- Pois, as repetições dão cabo das novelas.”
Ahhh?!!! Então é isso. Achou-se estúpido, desenquadrado. Levantou-se de súbito (o copo de água voltou a entornar-se) e para retomar a respiração foi esperar no átrio do supermercado, a passear dum lado para o outro, no meio do barulho e da confusão. Colada à sola do sapato andava a copa de papel dum “duchesse”...

JSR

Monday, April 2, 2012

98 - “Geocaching” Com o Meu Neto

Geocashing Logo
Astrolábio
Para os poucos que ainda não saibam, “geocaching” é uma espécie de caça ao tesouro, utilizando o GPS para o localizar. Na realidade, os tesouros são  pequenos contentores (caixas, frascos, bolsas) escondidos nos lugares mais diversos (castelos, monumentos, solares, miradouros, faróis, ruínas, antas, grutas, marcos geodésicos, até no meio de coisa nenhuma) que tenham algum tipo de interesse (histórico, paisagístico, turístico, ambiental, etc.). Os contentores incluem informação sobre o lugar onde se encontram, uma lista para registar quem passa por lá e uma pequena lembrança, que é levada por cada visitante, o qual deve deixar outra em troca para o visitante seguinte. 
O geocaching é um dos interesses do meu neto, que de cada vez que vem a Portugal quer meter o nariz em todo o lado. Para ele, isto é terra de explorações, quer visitar tudo o que há de diferente da sua terra natal, a Califórnia, ou do lugar ande vive agora, a área de Washington. Quando chega ao aeroporto, já vem a perguntar quando é que vamos aos seus sítios preferidos à volta de Cascais e Lisboa (do Oceanário e exposições temporárias nos pavilhões da Expo, ao programa do clube Dom Carlos no Guincho, passando pelo Jardim Zoológico e as viagens de descoberta) e, logo a seguir, quer saber quando vamos para a casa de Castelo Novo.
Se a última visita serve de exemplo, percorremos toda a costa desde o Cabo da Roca até ao Algarve, onde íamos buscar um carro que a minha filha nas suas próprias expedições tinha deixado avariado no concessionário da marca em Faro e que supostamente já estava arranjado. Não estava, tive que o mandar rebocar para Cascais. Entretanto, a partir de Estói, visitámos a região, as praias e claro os parque de diversões, como o ZooMarine, o karting (onde após várias voltas se partiu a direcção e o kart foi em linha recta contra a vedação...) e o bungee.
Voltámos subindo a costa até Tróia, ficámos atolados na areia junto à Comporta (em menos de cinco minutos, três camionetas pararam, com correias de reboque puxaram o carro para o meio da estrada e desapareceram antes que eu lhes pudesse agradecer), atravessámos com o ferryboat para Setúbal. Ao jantar quis santolas (“giant Chesapeake blue crabs”?), mas não o consegui fazer provar um caracol (“those slimy things”...).
Mais tarde, a caminho de Castelo Novo já acompanhado por um primo um ano mais velho, quiseram atravessar de barco para o castelo de Almourol e visitar a Naturtejo. Na aldeia, exploraram todos os becos e escadarias talhadas nas pedras da povoação e castelo,  por vezes desembocando nos pátios das traseiras dos habitantes, lugares que não devem ter mudado nada desde o tempo de D. Sancho. Puseram a casa num alvoroço porque corriam por todos os andares e todas as divisões, às seis da manhã já estavam a jogar basquetebol no pátio e à noite não queriam ir dormir antes de acabarem mais uma partida de snooker. Entretanto, queriam percorrer de jeep os trilhos da serra da Gardunha de manhã e ir à tarde à piscina-praia de Castelo Branco.
Em Cascais, corria o paredão desde a Azarujinha até ao Guincho. No fim das férias, o meu neto partiu “with a spring in his step”, a energia própria da idade e uma caixa com os berloques das geocaches. E deixou-me exausto. 
Estão aí as férias outra vez e, como dizia uma amiga, “o que não é preciso fazer para ser um avô moderno !?”...
JSR

Monday, March 26, 2012

97 - A Cada Geração a Sua Crise

Beavis and ButtHead - Generation in Crisis
Nestes tempos de crises diversas, tem estado na moda perorar sobre o estado do país e as características das recentes gerações que o habitam. Têm-lhes chamado sucessivamente: geração “rasca” por falta de qualidade e de espírito critico, geração “à rasca” por falta de emprego ou de trabalho; geração “indignada” por falta de dinheiro e de rumo; “geração parva” porque julga ter só direitos e não deveres; geração “mal formada” porque acredita nos vendedores de ilusões; e geração “piegas” porque se queixa de tudo e de todos, sem ver a necessidade de esforço próprio. Significativamente, fala-se mais do que se escreve, porque a reflexão necessária à escrita funciona como um travão à enunciação do disparate mal pensado.
Cada geração, seja duma família, duma tribo ou duma nação, recebe uma mistura diferente dos genes comuns. Como um baralho de cartas, de cada vez que é misturado e distribuído, as “mãos” são diferentes embora as cartas originais sejam as mesmas (na realidade, os genes também vão evoluindo, mas este não é um artigo científico). Cada indivíduo recebe as características físicas e de inteligência, as qualidades e os defeitos que são comuns ao seu grupo, mas em proporções que lhe são próprias. A auto-avaliação realista e o espírito critico em relação à cultura social, são das características mais mal distribuídas.
As pessoas têm diferentes formas de inteligência, de astúcia, de perseverança e de motivação, para serem bem sucedidos na sua esfera privada, no seu trabalho e na sociedade. Uns mais depressa do que outros. Uns duma forma mais gregária e outros de forma mais solitária. No “baralha e volta a dar” da vida, cada qual acaba por encontrar o seu lugar e a sua forma de contribuir para o bem comum. Sobram sempre uns quantos inadaptados que não se encaixam na sociedade tal qual ela é (e não como cada um acha que ela devia ser). São, do lado positivo, os inventores, os artistas, os críticos; mas também, do lado negativo os malfeitores e os parasitas. É preciso de tudo para fazer um  mundo.
Em condições de stress, como são as crises económicas e sociais, a quantidade de “desafinados” que não encontram o seu lugar aumenta e não só por culpa própria. Não encontram saída para desempenhar na comunidade os papeis para os quais se prepararam (ou não se prepararam, e esse é o maior problema), nem outra função qualquer que lhes permita dar um sentido às suas vidas e ganhar a independência económica. Para esses, o mundo está profundamente errado. Quando se juntam todos os que se encontram nessas situações, aparece uma quantidade de gente indignada na rua.
São as vítimas de todos os predadores, nacionais e internacionais. Fazem lembrar o legionário romano dos livros do Astérix, que resmunga “Engagez-vous, rengagez-vous, qu’ils disaient”, depois de levar uma sova do Astérix (Sarkozy) e do Obelix (Merkel), porque antes de se alistar (endividar, com o “compre agora e pague depois”), não leu as letras pequenas dos contratos (indicando juros que mais tarde não consegue pagar) e é depois obrigado a lutar contra insurrectos fortalecidos com a poção mágica (as flutuações dos mercados, informatizados com algoritmos indexados aos “ratings” das agências, num círculo totalmente viciado a favor dos interesses que as sustentam). Quem não pertence a esses interesses, nem os conhece, não pode saber o que fazer e torna-se uma vítima indefesa.
Até aos anos sessenta do século passado, a educação, a instrução e os meios de comunicação social, correspondiam a um país em evolução desigual. Em geral, a educação em casa consistia em aprender o que as classes da média burguesia, sempre “en retard d’une guerre”, consideravam como os bons costumes e as boas maneiras. A instrução dependia da localização e da qualidade das escolas primárias, das possibilidades das famílias enviarem os filhos para o secundário e também das classificações para entrar no ensino superior. O acesso ao mercado do trabalho fazia-se primeiro pelos conhecimentos, as influências e as cunhas, só depois vinham as competências,  as capacidades e a motivação de cada um.
Nos anos setenta chegaram os “baby boomers”, filhos dos que tinham passado pelas privações das guerras mundiais e civis, que não tinham quase nenhuns apoios sociais, nem para a saúde, nem para a reforma e com pouca ou nenhuma influência na condução dos destinos do país em que viviam. Esta geração, decidida a ter melhor qualidade de vida que os seus pais, mudou a situação e criou o mundo em que hoje vivemos. Um mundo em que tem havido liberdade política, apoios sociais, progresso económico. Que tudo isto esteja presentemente em risco por causa duma crise exterior, assim como de excessos e erros de gestão nacionais, é outra história. Esta qualidade de vida nunca tinha sido atingida antes, nela nasceram e cresceram os que chegam ao mercado do trabalho neste princípio do novo milénio e que constituem certamente a geração mais protegida e com mais oportunidades, desde sempre. E ainda se queixam.
A geração piegas deve aos pais a sua condição. Pais que não souberam como os educar. Professores que não podiam fazer o trabalho dos pais na educação e integração social e que muitas vezes se desmotivaram no seu próprio trabalho de instrução escolar e académica. Muitos não aprenderam a socialização nem em casa nem na escola. Não conhecem a disciplina, nem hábitos de trabalho, nem a responsabilidade pessoal, nem a competição individual. Alguns seguiram o caminho do menor esforço e tiraram “cursos de aviário” sem qualquer saída profissional. Não conhecem as boas práticas de vida pessoal, nem as profissionais. Fazem estágios, mas depois ninguém os quer contratar. Porque não há trabalho ou porque têm pouco a oferecer?
Agora esperam que alguém tome conta deles, como crianças serôdias que saem tarde da dependência dos pais e esperam ficar dependentes duma entidade mítica superior, seja o Estado ou o Governo. Embalados por demagogos e iluminados, muitos nem se apercebem realmente que o Estado são os impostos dos outros e que o Governo gere o dinheiro recebido dos que trabalham.
“Queremos um bom emprego com um bom salário”, dizia uma mulher nesta última greve, provavelmente uma sindicalista da esfera comunista reaccionária. Daqueles comunistas que destruíram o socialismo utópico do “cada um contribui de acordo com as suas capacidades e recebe de acordo com as suas necessidades”, porque contribuem o menos possível e recebem o máximo que conseguem extorquir. Se fosse uma sindicalista representativa dos verdadeiros interesses dos trabalhadores, teria dito mais realisticamente: “queremos um trabalho correctamente pago” de acordo com as qualificações e a contribuição de cada um.
Está na moda encontrar novos nomes para velhas coisas e novas definições para velhos conceitos. Como em todas as gerações, em todos os lados, há certamente os parvos e os mal formados, mas porque hão-de ser esses a definir a geração a que pertencem? Depois dos “baby boomers” tudo é bom para tentar definir tendências que vendam jornais, livros, música, televisão, o que quer que seja. O “marketing” reduz a vida a um jogo de espelhos sem substância. Porém, na realidade, os que estudam, inovam e trabalham com motivação e inteligência, são esses que definem a geração presente e o futuro do país.
JSR

Tuesday, March 20, 2012

96 - O Equinócio da Primavera e os Seus Ritos

Afghanistan Spring
Estas considerações são provocadas pela transição de estação do ano e pela coincidência de ter recebido hoje umas notas de viagem dum amigo e antigo colega, que está a dar assistência técnica ao Afeganistão, entre outros países em dificuldades.
O novo ano romano começava nos idos de Março, ou seja, a meio do mês dedicado ao deus Marte. Esta já era uma adaptação das celebrações anteriores realizadas pelas religiões da natureza, dedicadas ao despertar das plantas e alguns animais, depois do sono invernal. A altura em que os dias e as noites são iguais e a duração diária da luz começa a superar a duração das trevas.
Estes simples factos vieram depois a ser recuperados pelas chamadas religiões reveladas, que não são mais do que compilações de tradições acumuladas ao longo dos tempos por diversas tribos humanas. Com a invenção da escrita chamaram a essas compilações “bíblias”, conjuntos de livros, ou resumos como o Corão, ou outras coisas que os povos consideraram “sagradas”, o que no sentido original de “venerandas” não traz mal ao mundo, mas que consideradas como “a palavra definitiva, infalível, única e completa” dos deuses respectivos, é uma perfeita aberração histórica e um atentado à inteligência.
Esses mitos sobre a transição destas estações do ano, que passaram de mão em mão, incluem coisas como: a adoração da deusa mãe que tem tido muitos nomes (Ísis, Afrodite, Maria), que desperta a vida, protege as sementeiras e faz surgir os rebentos das flores, das folhas e dos cereais; a tradição dos vários filhos de deuses e de mulheres mortais que salvam os seus povos através do seu próprio sacrifício e morte, para depois renascerem com a Primavera (Osíris. Adónis, Dionísio, Cristo); e muitas outras tradições, como as ligadas aos ovos numa simbologia da vida em embrião.
Conta aquele meu amigo nestas mais recentes crónicas de viagem, como no Afeganistão se estão a preparar leis de acordo com as decisões dos “ulemas”, um grupo de fundamentalistas islâmicos que querem impor a “sharia” na sua forma mais retrógrada, com a qual os muçulmanos mais civilizados não estão evidentemente de acordo. Entre essas leis está por exemplo o retorno das mulheres a uma condição inferior de menoridade social. Não vão poder sair de casa para estudar, trabalhar, fazer compras, viajar ou qualquer outra actividade, sem serem acompanhadas por um membro masculino da família.
Estão os Estados Unidos e os seus aliados, a sacrificar as vidas dos seus soldados e rios de dinheiro, em países cuja evolução civilizacional está ainda em plena Idade Média. É certo que é preciso defender os interesses geoestratégicos da parte da humanidade mais desenvolvida ou em vias de desenvolvimento, que partilham os mesmos valores humanistas, sejam religiosos ou seculares. Mas é muito difícil aceitar que tanto esforço serve de muito pouco. As consequências da globalização tornam impossível isolar completamente estes e outros “parques jurássicos”, em várias partes do mundo. Neste ponto, nem a chegada da Primavera traz algum optimismo.
JSR

Monday, March 12, 2012

95 - Miss Minnie Goes To Macao

O título deste post é inspirado pela activista americana dos direitos civis imortalizada em “Miss Minnie goes to Washington”.
Uma Miss Minnie, portuguesa e contemporânea, partiu para oriente em vez do ocidente, para fazer um doutoramento em vez de participar em movimentos democráticos. Bem, espero que não se meta nisso, não vale a pena, o dragão já tem a sarna capitalista... Partiu mais precisamente para Macau, que não é só o inferno do jogo. Para quem não saiba, é também a sede de uma Universidade muito razoável e dum bom Instituto da Universidade das Nações Unidas (UNU).
Em tempos idos, Macau foi um porto importante na primeira rota comercial da carreira das Índias portuguesas, que levava anualmente os “barcos negros” de Lisboa a Goa, a Macau e ao Japão. Depois de vicissitudes seculares, um dia o hino nacional foi tocado pela última vez, o governador meteu a bandeira dobrada debaixo do braço e toda a administração portuguesa do Território partiu de volta a Lisboa.
Nos últimos anos antes da devolução à China, houve uma actividade frenética para consolidar o legado português de arquitectura religiosa e colonial, cultura, língua e sistema administrativo. Fizeram muita coisa, aumentaram a superfície através de aterros, construíram uma cidade nova e modernizaram  a economia para além do racket do jogo. Abanaram também o mais possível a tradicional árvore das patacas, para os vários projectos, para financiamento partidário na metrópole e para enriquecimento pessoal.
No meio dessa actividade, uma certa quantidade das patacas do jogo serviram para financiar projectos culturais e de educação. Já existia uma espécie de universidade mercantil, com poucos alunos mas muitos diplomas vendidos por correspondência. Foi comprada pelo governo do território, mudou de nome, de corpo docente e de gestão, e transformou-se numa instituição respeitável. Como cereja no bolo, foi também criado de raiz um Instituto internacional, parte da UNU.
Passados estes anos todos, o que é que a Miss Minnie foi encontrar? A maior concentração de Casinos do mundo, largas teias de negócios em todos os tons de cinzento a negro, como seria de esperar num porto franco com estatuto especial, e um parque histórico com os vestígios da presença portuguesa, para turista ver enquanto descansa o cotovelo de tanto puxar as manivelas das máquinas de jogo.
Macaenses de raiz, a mistura dos locais com portugueses e todos os aventureiros e piratas dos mares do Sul da China, são poucos e com eles extingue-se a última comunidade que ainda fala português. A cidade e ilhas foram invadidas nos últimos anos pela massa dos migrantes chineses. Resta a comunidade académica na Ilha de Taipa e alguns profissionais dispersos com partida adiada. Depois, há a Casa Silva Mendes, a vivenda colonial dum antigo comerciante rico, escritor e coleccionador, na colina da Guia, o lugar menos poluído de Macau. Da vivenda restam as paredes exteriores, o interior foi totalmente reconstruído para nele funcionar o Instituto Internacional de Tecnologia de Software.
É difícil a cultura e a ciência florescerem numa atmosfera onde resta pouco oxigénio, mas é possível. Desde que se faça entrar ar novo de vez em quando e se saia frequentemente para arejar as ideias. Para além dos dias de trabalho académico, a Miss Minnie vai encontrar depressa a claustrofobia dos lugares pequenos, das comunidades fechadas onde se entra devagar, de conceitos diferentes de cooperação, liberdade e segurança em sociedade. Aconselho-a a não ler ou reler Kafka quando encontrar problemas com as chinesices burocráticas, mas antes a fugir do calor e humidade, refugiando-se no ar condicionado a ler um dos livros de Pamela Kyle sobre a China, particularmente “A Translucent Mirror”.
Ah, e que aproveite a oportunidade de viver em Macau para aprender mandarim...
JSR

Tuesday, March 6, 2012

94 - O Deslumbramento da Frivolidade

The limelight...
Veio num jornal (pelo menos) a notícia que mais uma actriz de telenovelas (aparentemente chamam-lhes “estrelinhas”) se tentou suicidar por ter deixado de receber ofertas de trabalho. Parece que abriu o gás do fogão, mas uma faísca provocou uma explosão que destruiu o apartamento e ia deitando o prédio abaixo. Safou-se à justa, apesar das queimaduras graves.
Ninguém sabe é se vai conseguir voltar a fazer aquilo de que gosta, num meio que é por natureza superficial e volúvel. Se não conseguir, ninguém sabe se vai habituar-se a viver sem a droga dos holofotes e da atenção, ou se sabe ou quer fazer outra coisa que possa dar um sentido à sua vida.
Esta é obviamente uma história triste e paradigmática. Não sei se é o caso, mas muitos jovens deixam-se encandear pelas luzes da ribalta, seja nas artes ou no desporto, onde apenas uma ínfima percentagem consegue sair da mediocridade. Por cada sucesso, quantos sonhos desfeitos.
Se há tanta gente a correr atrás de ilusões (“prendre des vessies pour des lanternes” dizem os franceses), é porque a sociedade aprecia a sorte acima do esforço, a coscuvilhice em vez da informação, a leviandade mais do que a substância, os “15 minutos de fama” brilham mais que a perseverança. A barbárie chega quando a cultura de massas é nivelada pelo mais baixo, quando a frivolidade é mais valorizada do que o mérito.
Tudo isto é potenciado pelas tecnologias da comunicação instantânea e fugaz, que deslumbra os mais crédulos e os deixa entregues aos predadores, sem as barreiras de protecção dos mais fracos erguidas ao longo do tempo pela evolução humana ao criar comunidades de entreajuda.
No limite, esta situação é uma traição das sociedades liberais que se manifesta pela degenerescência de alguns dos seus próprios filhos, espúrios, frívolos e confusos, que nem se apercebem que vendem o seu futuro às crescentes ditaduras económicas, mediáticas e do entretenimento. Quando deixam de servir, são descartados como lenços de papel usados.
Felizmente não são todos, nem sequer a maioria, mas mesmo assim as consequências são significativas e preocupantes.
JSR

Tuesday, February 28, 2012

93 - Desemprego e Desatino

Zé Povinho
de Rafael Bordalo Pinheiro
Diz o filósofo: A liberdade social assume que cada um seja capaz de assegurar os meios essenciais da sua própria subsistência, sem os quais não há liberdade, mas apenas dependência ou exclusão. Liberdade e democracia são conceitos diferentes, mas o primeiro é indispensável ao segundo.
Diz o sociólogo: Poucos conseguem subsistir fora do trabalho profissional, artesanal ou por conta de outrem. A capacidade empresarial raramente se manifesta em Portugal sem a muleta do estado e das influências.
Diz o historiador: Isto tem acontecido desde os tempos em que a Coroa se apropriou do todo o comércio importante, nacional e de além-mar, arruinando ou expulsando a burguesia do país. Foi assim que definhou a capacidade empresarial e se tornaram atávicos os defeitos de dependência, resignação, credulidade e pobreza endémica.
Diz o professor: O compacto democrático entre dirigentes e dirigidos baseia-se na mentira aceite da igualdade utópica dos cidadãos, igualdade que nunca existiu nem pode existir, pois os indivíduos não nascem iguais em capacidades, nem encontram igualdade de oportunidades.
Diz o banqueiro: Ouve-se um coro de imbecis a clamar contra os bancos, contra os ricos e contra as empresas que fazem o que têm que fazer para assegurar a sua sobrevivência. Mas se para se tornar e se manter rico é necessário um mínimo de esperteza, os pobres não têm que ser necessariamente estúpidos. Ninguém os obrigou a acreditar nas propostas de crédito fácil e a empenhar-se até às orelhas. Todos têm que compreender uma regra simples de causa a efeito: só sobrevivem os mais capazes.
Diz o economista: O problema dum país não são os ricos, quanto mais ricos houver por consequência haverá menos pobres e mais impostos são cobrados. O problema não são as empresas, mesmo as que transferem a sua sede para fora do país, porque são as empresas que criam e mantêm empregos. O problema são os pobres que não pagam impostos, ou aqueles que custam mais à sociedade do que contribuem. O problema são os se aproveitam do estado, do dinheiro das contribuições, com esquemas e manigâncias para obter para si próprios mais do que a sua justa parte.
Diz o jornalista: Uma crónica, um artigo, uma entrevista, a expressão de pontos de vista mais assertivos ou de factos mais desconfortáveis, e o jornalista ou o cidadão interventivo responsáveis pela desafinação, desaparecem no limbo dos espaços de opinião que lhes são retirados. Sobram os intocáveis e os bobos da corte, uns são tolerados porque necessários como pára-raios dos descontentamentos, outros porque são inofensivos.
Diz o radical: A Maçonaria, a Opus Dei e outras sociedades secretas, quando existem em democracia só podem ser associações de malfeitores. Não é possível que pessoas adultas ainda acreditem no Pai Natal, que gente racional alinhe nessas baboseiras doutrinárias e que quem tenha um mínimo de inteligência participe em cerimónias exotéricas de aventalinho. Portanto, a única explicação para fazer parte dessas organizações é a constituição de grupos de predação sobre a sociedade, o que é característico de todas as máfias.
Diz o político no governo: Se não empreendem nem conseguem emprego, para os mais audazes resta sempre partir. Nos anos sessenta do século passado partiram para o estrangeiro à procura duma vida melhor, sobretudo os camponeses e outros trabalhadores pouco especializados, que eram explorados aqui e que continuaram a ser explorados nos países para onde partiram. Mas que mandavam as economias para casa... Cinquenta anos depois, são agora os melhores e mais bem preparados que estão a partir, deixando para trás os acomodados, os velhos e os subsidiados. O país só pode sobreviver com a exportação, seja ela qual for...
Diz o político da oposição: Esta diminuição da vitalidade do país tem como consequência a degradação da prática da liberdade em democracia. Quando eu estiver no governo acabo com a austeridade, com o desemprego, com a inflação, com tudo aquilo com que os eleitores estão descontentes. Não sei como vou cumprir estas promessas, não sei onde vou buscar o dinheiro, depois logo se vê, a culpa será sempre do governo anterior, o importante é que estes saiam do poleiro para eu ir para lá. 
Diz o comunista: O estado tem que garantir trabalho a todos os trabalhadores, não se admite que o desemprego continue a subir. O estado tem que controlar todas as empresas públicas e não pode privatizar nada daquilo que pertence a todos os portugueses, os bancos, a energia, a água, os transportes e outras coisas de que não me estou a lembrar agora. De qualquer forma, é tudo culpa do governo.
Diz o sindicalista: O estado tem que subir o salário mínimo, assim como as pensões. Os patrões têm que garantir salários decentes e não podem despedir trabalhadores que precisam de segurança no trabalho. Se há crise é culpa dos ricos que devem pagar a crise. O governo diz que não há dinheiro, mas há sempre dinheiro para os bancos. Queremos justiça social e para isso é preciso que todos os portugueses participem na próxima greve geral, a maior que alguma vez houve em Portugal.
Diz o “bloquista de esquerda”: Este governo não sabe o que anda a fazer e o anterior também não. O país está em crise, a dívida externa é insuportável, a austeridade é insuportável, a troika é insuportável, o desemprego é insuportável, a pobreza é insuportável. A propósito, o governo anterior ao anterior também era insuportável e não sabia o que andava a fazer. E nunca me vou calar porque é preciso que alguém diga a verdade aos portugueses.
Diz o cidadão português: Eles são todos insuportáveis e não sabem o que dizem. Se soubessem estavam calados...
JSR

Tuesday, February 21, 2012

92 - El Corte Inglés

Pelourinho...
Aquela grande loja perto do Parque Eduardo VII em Lisboa, só pode ter sido concebida como chafarica de bairro, onde se vai a pé comprar um molho de brócolos ou um par de peúgas, quando se mora perto. Para os outros, para os que vêm de mais longe, é preciso uma boa dose de masoquismo para a frequentar, porque o acesso ao parque de estacionamento é um verdadeiro atentado contra os utilizadores, assim como um desrespeito das boas práticas de arquitectura, engenharia e urbanismo.
Quem foi apanhado na armadilha uma vez, nunca mais lá quer voltar: uma rampa em caracol projectada por anões para mini-carros, estreitíssima, longa, estonteante, necessariamente lenta, de enfurecer o mais calmo. Deve ser repintada frequentemente, mas estão bem visíveis os sulcos deixados pelos carros que raspam as paredes. Mas então não há normas para a construção e segurança destas coisas? Porque é que não foram cumpridas? Quem foram os membros da quadrilha que tornou possível esta aberração?
Os culpados deviam ser castigados por incompetência, incúria ou corrupção: o arquitecto que desenhou o projecto, o promotor que o aceitou e o responsável pelo urbanismo da Câmara que o aprovou; o engenheiro que construiu e o fiscal que aprovou a obra concluída. Todos deviam ser condenados a ter que utilizar a rampa num carro de tamanho médio, descer até ao andar mais baixo e voltar a subir, todos os dias e até ao fim das suas vidas. Que seriam decerto curtas, pois dentro de pouco tempo se suicidariam de desespero e de remorsos.
JSR

Wednesday, February 15, 2012

91 - A Dança da Chuva

"Tar and Feather" flower
Poucos a viram praticar ao vivo, mas faz parte do imaginário colectivo: as tribos primitivas que dançam em círculos, pedindo aos deuses que do céu caia a água da vida. Mas, na realidade, apesar das missas, das velas e das procissões, a nossa tribo continua em seca múltipla: falta de chuva, de razão, de desenvolvimento e de futuro.
Falta de chuva: O aquecimento climático aumenta os excessos meteorológicos, sejam eles secas, inundações ou tempestades. Diminuem as zonas temperadas de habitação humana e com elas a fiabilidade do calendário de sucessão das estações, do acesso à água e da produção agrícola. Depois dum Inverno seco, metade do país está em situação de desastre ambiental.
Falta de razão: As deficiências do sistema de educação e a indigência de muitas famílias, são responsáveis pela falta de educação científica e de capacidade de raciocínio lógico da maioria da população. “Oxalá”, “se Deus quiser”, “a culpa é do governo”, substituem a análise racional dos problemas seguida de decisões oportunas, sejam individuais ou colectivas. Os meios de comunicação (mesmo os estatais!) estão cheios de fala-barato, cartomantes, astrólogos, pastores de passa-para-cá-o-pouco-dinheiro-que-tens-idiota e outros aldrabões, que nos antigos filmes de cowboys apareciam a fugir das cidades do Far West cobertos de alcatrão e de penas...
Falta de desenvolvimento: A globalização do comércio aumenta as disparidades de produção, de distribuição e acesso, de consumo, de rendimento de pessoas e empresas. A competição favorece os mais capazes, desprotege os menos preparados e equaliza oportunidades. Os rendimentos dos indivíduos, das empresas e dos países, sobem ou descem nesta competição darwiniana, sem consideração de fronteiras, níveis de desenvolvimento ou de solidariedade social. The survival of the fittest.
        Falta de futuro: Portugal é um país com uma percentagem de gente inteligente e capaz igual à dos países mais desenvolvidos, mas continua a ser dominado por cliques sem qualidade. Revolucionários de pacotilha, políticos criados nos serralhos das igrejas ou das sociedades maçónicas, escritores cujos “homens mais sábios que conheceram não sabiam ler nem escrever”, empresários pendurados nas benesses do estado, consumidores deslumbrados com o crédito fácil. Como em outros países europeus, os rendeiros serôdios de comunismos e fascismos que ultrapassaram o prazo de validade na prateleira do supermercado das ideias, têm a pesada responsabilidade de enviar uma geração inteira para o caixote do lixo da história. 
Sem crescimento um país pára e parar é morrer.
JSR

Wednesday, February 8, 2012

90 - O Blog (Conversas Surrealistas)

Trrrim... Trrrim... Trrrim...
- Estou (“blocked”? who may this be?).
- Olá. Porque é que nunca comentaste o meu novo blog?
- Olá... (ah... good morning to you too... well, better let sleeping dogs lie...).
  Qual blog? (these days everybody has blogs, writes articles and chronicles for newspapers, posts on newspapers blogs, lives on facebook... impossible to follow it all... an endless nuisance).
- Já o fechei.
- Porquê? (oops... now, what did I miss?).
- Não respondeste à minha pergunta.
- Qual pergunta? (this sounds serious, the floodgates are going to burst open).
- Não repito.
- Hum... bom (here it comes, start running to the hills, you idiot!).
  Então adeus.
- Isso, desliga...
- Mas... (too late to run away, I’m as good as dead...).
- Não me ligas nenhuma!  Ploc.
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz...

JSR

Thursday, February 2, 2012

89 - Os Cavalos de Tróia

"Léonidas aux Thermopyles" de J.-L. David
(Musée du Louvre)
De dentro do “cavalo de Tróia” que a União Europeia primeiro e a Zona Euro a seguir, trouxeram para dentro das suas muralhas, saiu a Grécia inteira. Como os Troianos, a União puxou para o seu seio o cavalo de madeira. Mas sem ter aprendido nada com o que aconteceu aos Troianos, a Zona Euro reboca essas estruturas uma vez e outra e outra, todas as vezes que os Gregos constroem uma diante das portas. Porque? Porque estão condicionados assim.
Embora descendam apenas remotamente daqueles que construíram uma parte importante dos alicerces da civilização ocidental, os Gregos modernos não perderam nenhuma das características da sua história real e mitológica da época clássica. Cidades-estado que nunca constituíram um país unido. Democracias de vária ordem, autoritárias ou paralisadas por divisões internas, que nunca incluíam os comerciantes, os servos e ainda menos os escravos. Durante todos estes séculos que entretanto passaram, contaminaram a Europa em profundidade. Primeiro Roma, que ao conquistar as cidades gregas integrou os seus deuses, ou seja, a sua filosofia de vida. Depois os próprios Romanos disseminaram essa civilização por todo o seu mundo até chegar a grande noite da barbárie e da superstição medievais.
Estes Gregos… por quem se realizam os oráculos dos desastres europeus, que testam os limites da paciência  dos amigos e dos inimigos. Que dizem uma coisa e fazem outra, ou não fazem nada. Que fazem promessas que não cumprem. Que vendem gato por lebre. Que se dividem uns contra os outros. Que se contradizem e se batem entre eles e contra o exterior. Que se comportam como os seus antigos deuses. Que afinal são… gregos, de quem todos os europeus têm uma costela biológica e parte da estrutura mental.
Para cada um dos capítulos da tragédia que tem sido a sua participação nos projectos europeus, pode-se sempre encontrar uma analogia, uma citação da sua própria mitologia. As cidades-estado, com todas as suas qualidades e defeitos, com todas as suas forças e fraquezas, resistiram aos Persas mas foram absorvidas pelos Romanos. Se compararmos as nações europeias às antigas cidades gregas, e a União como uma necessidade de sobrevivência igual à das antigas coligações, será necessário identificar sem confusão quem são os novos Persas e quem são os novos Romanos. Quem é preciso enfrentar e com quem é preciso colaborar. Porque somos todos gregos.
Afinal, desde a época clássica que estas histórias se têm repetido sob diversas formas, sem que as sucessivas gerações tenham aprendido grande coisa. Atavismos, como se vê.
JSR

Friday, January 27, 2012

88 - Os Limites da Liberdade e da Democracia

O impasse económico actual faz com que apareçam cada vez mais claramente os limites de funcionamento das democracias ocidentais, do capitalismo liberal que as sustenta e do exercício da liberdade individual dos cidadãos na qual se baseiam.
Todos estes conceitos e as suas justificações filosóficas, encontram-se agora diante do ataque frontal de concepções diferentes e competitivas na escala global. Como instrumento de avaliação, ou benchmark, está apenas a eficácia na gestão económica e a sua consequência politica no poder dos estados.
As democracias europeias e norte-americanas atingiram um equilíbrio social e uma prosperidade alargada, ambos devidos ao crescimento económico em todas as áreas produtivas nos anos que se seguiram à segunda grande guerra do século passado. Foi bom enquanto durou, mas chegou ao fim.
A liberalização do comercio mundial, a queda das tarifas protectoras das especificidades de cada estado ou de cada região económica, pôs em competição global directa todas as empresas e todas as classes produtivas. As empresas com vantagens comparativas de qualidade, produtividade ou implantação de mercado, assim como os gestores e profissionais mais bem preparados, podem ver os seus lucros ou remunerações crescer. Mas as empresas e os trabalhadores mais expostos à competição vinda de lugares de mão de obra mais barata, sem ou com menores custos de protecção social, acabam por desaparecer ou perder os postos de trabalho.
Este re-equilibrio mundial favorece os países emergentes e assinala a decadência das antigas potências industriais da Europa e da América do Norte. Com as dificuldades económicas questiona-se tudo o que tem feito a superioridade, ou pelo menos a diferença, das sociedades Ocidentais: a democracia secular, o capitalismo liberal, o estado social.
Pode um despotismo benevolente à la Singapura equilibrar melhor os interesses de diferentes comunidades, juntas num processo acelerado de desenvolvimento? Pode o capitalismo de estado, apropriado por um partido ditatorial, sacrificar a maior parte da população ao enriquecimento e projecção do poder do país, como está a fazer a China? Podem países subdesenvolvidos, mas ricos em recursos naturais, ser representados apenas pelas máfias que se apropriaram do poder e dos despojos, investindo as sobras nos fundos soberanos em seu benefício, como fazem os emires do petróleo, alguns ditadores africanos, ou também a Rússia?
Das respostas a estas perguntas, debatidas com o alarme da preocupação e da urgência  nos meios académicos e políticos, depende o futuro. Tudo o resto são situações conjunturais. 
JSR

Sunday, January 22, 2012

87 - A Crise Chegou ao Paredão de Cascais (Conversas Surrealistas)

"As Banhistas" de Joana Rosa Bragança
Nestes dias que o calendário pretende serem de Inverno, mas onde a temperatura é de Primavera e o Sol é de Verão, a crise chegou insidiosamente ao paredão de Cascais. Realmente nada parece o que é.
São quase duas da tarde e conseguimos mesa num restaurante, estranho, costuma haver fila, mas nas mesas apenas uma família inglesa está a almoçar, nas outras predominam águas e cafés.
Ao sentarmo-nos, devemos ter atravessado uma descontinuidade de espaço/tempo, porque aterramos inadvertidamente num daqueles programas televisivos para sopeiras do tempo da outra senhora.
Extractos do diálogo duma mesa para outra, em diagonal, duas balzaquianas magras com o mesmo cabelo longo, pintado em farripas, ripado:
- Olá, é a Zé-Zé, não é?
- Sou...
- Ah, mas está tão bem! Bem mesmo! Não a via desde o “take” em Oeiras. Nem parece que... Sou a irmã do Chico.
- Tenho andado doente.
- De quê?!
- Da cabeça...
- Isso andamos todas! Todas! Mas... é por causa do Pedro?
- Sempre foi um pai ausente, mas agora que eu tenho um amigo está sempre a telefonar às filhas. 
Chega uma miúda vinda da praia (cópia conforme da mãe, cerca de 12 anos, mini-saia e botas de montanha), interrompendo o diálogo.
- Mãe, estou cheia de fome.
- A menina quer comer aqui ou esperar pelo Pedro? Não sei onde ele quer ir com vocês.
- O pai está com a Nhô-Nhô.
- Falei com ele e disse que vinha mais tarde.
A filha senta-se e a Zé-Zé faz telefonema após telefonema, freneticamente, intercalados apenas com beijos e marradinhas no companheiro, calado, ausente.
Subitamente:
- Mafalda, telefone ao Pedro.
- Quero ir almoçar com a Nhô-Nhô, estou cheia de fome. E a Pilar também.
A Pilar chega da praia, quatro ou cinco anos, vestidinho de Alice no País da Maravilhas, meias altas e sapatos de verniz. Quer ficar de costas para o Sol e arrasta uma cadeira à volta da mesa, encalhando com tudo o que não se afasta tão “presto” como os cães estacionados por ali.
- Quero um hambúrguer.
- Mafalda, tome lá o telefone.
- Não.
Pouco tempo depois chega um tipo baixote e anafado com uma rapariga pós adolescente, beija as miúdas, beija a balzaquiana da outra mesa, diz “Olá” à Zé-Zé, faz um aceno ao tipo sentado na cadeira do lado como uma “potted plant” que inesperadamente sussurra entre os dentes “senhor doutor...”, e voltando-se para as miúdas:
- Já almoçaram?
- A Pilar quer um hambúrguer.
- A Mafalda também.
A Zé-Zé para o empregado:
- Oh, faz favor!
- Queremos duas saladas disto e daquilo, dois hamburguers, um deles com um ovo a cavalo, mais uma dose de batatas fritas e coca-colas e uma super-bock e...
No meio da conversa generalizada de mesa a mesa o tipo anafado acabou por se sentar com a outra balzaquiana, que imediatamente lhe começou a ajeitar o cabelo e a camisa, a encostar-lhe a cabeça ao ombro e a fazer outros tagatés ternurentos.
À mesa do lado chegaram os almoços, todos comeram, as miúdas voltaram à praia, a “potted plant” desapareceu sem que ninguém se tivesse dado conta, a Zé-Zé partiu a caminho da casa de banho. Ficaram as peças de roupa nas cadeiras e a loiça na mesa.
Finalmente, da outra mesa em diagonal o “senhor doutor, pai ausente” pediu a conta, olhou para o papel, olhou à volta para a mesa do lado vazia, pegou na máquina que o empregado lhe estendia e marcou o código.
JSR