Wednesday, July 3, 2013

167 - A “Choldra”

A última crónica neste blog, chamada “A Náusea”, terminava assim: “Cuidado com os desejos que repetem sem parar os recalcitrantes. Imaginem que se realizam”.
O Tempo das Carpideiras
Do que aconteceria ou acontecerá se esses desejos se realizarem, foi dada uma primeira demonstração com a demissão do ministro das Finanças. Foi também possível ter imediatamente uma ideia do desastre que esse facto apenas, significa para a (falta de) credibilidade dum país que tenta reconquistar penosamente a sua alforria financeira. Os juros da dívida começaram a subir e a bolsa de Lisboa a cair.
Ontem, a tomada de posse da nova ministra das Finanças, a quem foram confiadas responsabilidades de rigor normalmente associadas à racionalidade masculina, contrasta com a demissão de Paulo Portas, num amuo mais próprio da emotividade feminina, ou, como disse Congreve: Hell hath no fury like a woman scorned”.
A demissão de Portas é duma irresponsabilidade absoluta, sem nenhum atenuante ou desculpa. Com a possibilidade da queda da coligação, os juros da dívida dispararam de tal forma que se perdeu o resultado dos sacrifícios feitos durante dois anos. A Bolsa de Lisboa caiu em crash, com os investidores a livrarem-se de todos os activos portugueses a qualquer preço. Num só golpe, aos olhos que contam no estrangeiro, Portugal juntou-se ao clube da Grécia e de Chipre, eurolixo.
Nas circunstâncias presentes, não é fácil para nenhum primeiro ministro encontrar alguém competente (e suicida) para as Finanças. Por um lado, é preciso manter a credibilidade junto de credores e representantes da União, do Banco Central e de outras instituições internacionais. Por outro, tentar ao mesmo tempo satisfazer as sensibilidades (ia escrever “hormonas”...) de prima dona do parceiro de coligação, torna a tarefa quase impossível.
A Falta de Rigor
Pior mesmo, só eleições antecipadas e a possível chegada ao governo dos socialistas. Vale a pena lembrar o que aconteceu muito recentemente em França com a eleição de Hollande. Uma pequena esperança em França (porque já conheciam o personagem) e um embandeirar em arco do PS em Portugal. Foi tudo por água abaixo em poucos meses, não conseguiu nada, ninguém lhe liga nenhuma, os franceses mostram nas sondagens (e eleições locais) que até lhe preferem a extrema direita. E ainda há “anjinhos” que acreditam que a chegada do PS ao governo seria diferente no nosso país.
Portugal gasta mais do que produz, está falido e endividado, portanto tem que reduzir despesas nos serviços do estado e pagar as dívidas, para poder viver dentro dos seus meios. Qualquer governo tem e terá que resolver estes problemas. “Muito claramente”, sr. Seguro, “qual é a pressa” em saltar neste caldeirão, sem ideias, sem programa, sem competência?
Dos muitos problemas de que sofre a sociedade portuguesa, a falta de rigor é certamente o pior. Nunca é fácil governar este país, porque quando tem dinheiro esbanja em vez de investir, e quando não tem, o que acontece a maior parte do tempo, ninguém se entende.   
A “Choldra”
Não é verdade que o rei D. Carlos tenha usado esta expressão para se referir ao povo ou à classe política do seu reino. Foi mais uma calúnia, entre tantas outras, inventada por gente que, esses sim, efectivamente mereciam o epíteto.
Pesquisa-se para trás na história, tanto quanto se queira, lê-se o que escreveram os cronistas, historiadores e escritores de cada época e encontram-se descrições, sérias ou sarcásticas, da mesma “tropa fandanga” de açambarcadores da coisa pública, sugadores de benesses de reis e governos pródigos, abusadores de privilégios de classe sobre a generalidade da população. A regra constante tem sido sempre tentar viver à custa do Estado e dos poucos que produzem riqueza, por apropriação de bens ou obtenção de rendas ou empregos.
Em relação à totalidade da população, houve na história poucos chefes com visão e estratégia, poucos exploradores, poucos conquistadores, poucos empreendedores e poucos colonizadores. Mas encontram-se muitos parasitas, muitos esbanjadores, a tentar ultrapassar complexos de inferioridade atávicos com ostentações de novos ricos ignorantes cujo ridículo ainda hoje não foi esquecido na Europa.
Nos dias que correm, a “choldra” aplica-se como uma luva a muitos políticos, jornalistas, comentadores e sindicalistas, que mentem como respiram, com a aparente convicção de quem passou a acreditar nas próprias mentiras.
Salve-se quem puder
O presente governo começou com uma única vantagem: a de não ser o despesista governo anterior. Ganhou uns pontos ao conseguir convencer portugueses competentes e desinteressados a deixarem o conforto dos seus lugares no estrangeiro para ajudarem a salvar um país falido e (mal) habituado a viver a crédito.
Tentaram durante dois anos. Travaram a queda financeira, ganharam alguma credibilidade no estrangeiro e obtiverem juros menores e mais tempo para pagar as dívidas. Mas não conseguiram vencer os interesses instalados, dos donos da economia do país aos manipuladores das massas ignorantes.
O país vai sobreviver, mas o seu lugar na Europa e na zona euro, mudaram definitivamente. A democracia coxa da terceira república e a sociedade de falsa abundância, acabaram. Portugal voltou ao terceiro mundo. Como dizia António Vitorino  a propósito do governo de Sócrates: habituem-se.
JSR

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