Friday, July 12, 2013

168 - Telefonaram de Casa...

De Lisboa...
Nos últimos dias em Lisboa, os meios de comunicação, os políticos e comentadores, as associações e sindicatos, todos (ou quase) pareciam de acordo com o facto que o Presidente ia aceitar a proposta de remodelação do governo apresentada pelo Primeiro-Ministro. Em consequência, cada qual continuava a debitar a sua cassete favorita, de acordo com os seus interesses e sem se preocupar com a situação desesperada do país. Estranha surdez ou voluntária ignorância.
Quando o Presidente fala, parece que as velhas estatísticas da OCDE indicando que os portugueses estão entre os europeus que têm mais dificuldade em compreender a informação que lhes é transmitida, continuam válidas.
No entanto, se há personalidades coerentes e previsíveis na política portuguesa, Cavaco Silva tem sido uma delas durante toda a sua carreira. Só diz o que quer e quando quer, mas faz o que diz. Não esquece os factos, não perdoa as ofensas e serve fria a vingança, a receita básica para uma longa vida política onde quer que seja. O que tem dito e feito ultimamente aponta sempre na mesma direcção: estabilidade política que garanta o cumprimento do programa assinado com os credores e a sustentabilidade do Estado após a partida da troika.
Esperar que o Presidente aceitasse uma qualquer remodelação da coligação governamental depois do ataque de hormonas de Portas (decidindo em solitário uma demissão irrevogável), ou acedesse aos pedidos igualmente egoístas das esquerdas para eleições antecipadas, é duma falta de atenção mais que surpreendente, realmente estúpida. Era perfeitamente espectável que mandasse os partidos que passam por responsáveis, os que assinaram o Memorando de Entendimento com a troika, resolverem as birras entre si e encontrarem uma solução no interesse do país e sem se preocuparem apenas com jogadas tácticas individuais.
Esperemos que seja possível, embora as probabilidades sejam pequenas. Temos que concordar, os partidos não prestam, os políticos bons são poucos, mal acompanhados e mal amados. Ou mantêm uma distância higiénica ou vão-se embora assim que podem.
...para Nova York
Visto deste lado do Atlântico, o que se passa em Portugal é o equivalente a receber uma chamada do gerente do condomínio a dizer que, mais uma vez,  um desarvorado deixou uma torneira aberta e o prédio ficou inundado.
Os bombeiros (os mercados) fecharam outra vez a água (o crédito), mas os canalizadores (os partidos) continuam a discutir se o problema foi a torneira aberta demasiado tempo (os gastos superiores ao rendimento), resultando na inundação (endividamento excessivo) ou o entupimento do escoamento (a economia em recessão não absorve os deficits). Sempre o mesmo disco rachado.
Entretanto, é preciso que os homens dos seguros (a troika) voltem a avaliar os novos estragos (queda da Bolsa, subida dos juros da dívida), para continuar a limpar e secar o prédio (fazer as reformas) e aprovem o apoio financeiro necessário (mais tempo, juros menores, mais dinheiro) para fazer reparações e melhorias (na retoma do crescimento económico). Ou então que denunciem a apólice (cortem as amarras e deixem o país ir à deriva, já chegava uma Grécia, para uma Europa sem coluna vertebral). Pequenas coisas, grandes aborrecimentos.
Só porque se trata duma chamada de casa, durante uns minutos dura a tristeza de constatar que, como todos os regimes em decadência, esta terceira república portuguesa tem sobrevivido com alguns bons profissionais aguentando uma maioria de políticos muito rafeiros.
Como se não houvesse crises mais graves a acontecer no mundo.
JSR
   

No comments:

Post a Comment