Thursday, April 25, 2013

160 - A 25 de Abril de 1974, aconteceu o quê?

No voo de Nova York para Paris, o comandante informou os passageiros que tinha havido um golpe de estado em Portugal. Havia tropa nas ruas, o aeroporto estava fechado e não se sabia bem o que se passava porque a informação era escassa.


O golpe militar
Horas mais tarde, em Paris a informação era abundante em detalhes dos acontecimentos ligados ao golpe militar e contraditória quanto aos seus objectivos. Jornais e televisão começavam uma cobertura noticiosa compulsiva, ao ponto de durante dois ou três anos se estar mais bem informado em Paris do que em Lisboa.
Para a França em vésperas de eleições, Portugal foi usado como exemplo de esperança das esquerdas primeiro e como vacina contra os seus excessos românticos, depois. Giscard ganhou as eleições à custa do medo de contágio do perigo comunista português.
A revolta dos capitães
Um movimento classista de oficiais das forças armadas queria a abrogação dum decreto-lei que os prejudicava. Depressa se aperceberam que não se negocia com fantoches. Assim se transformou uma demonstração de descontentamento em revolução.
No que diz respeito a revoluções, a Abrilada não começou assim tão mal, com muita confusão, algumas confrontações e poucas mortes. Podia ter sido muito pior, se considerarmos que os militares que souberem planear profissionalmente o golpe de estado, não tinham a mínima ideia do que se ia passar a seguir. Mais uma vez se demonstrou que a guerra é demasiado importante para ser deixada aos generais, como disse Clemenceau.
O fim do Ramadão
Ou da Quaresma, ou de qualquer outro período de restrições e penitência, como foi a ditadura após a segunda grande guerra. Enquanto o resto da Europa seguia os Estados Unidos na expansão da economia e dos direitos civis, em Portugal as finanças tinham melhorado, mas ao preço duma paz social obrigatória e duramente imposta.
Após o 25 de Abril, hippies, anarquistas, esquerdistas e libertários de todas as cores, começaram imediatamente a sua migração para Portugal. Encheram-se os aviões, os comboios, as boleias dos carros e camiões, os parques de campismo, as praias e as casas da malta. Foi uma festa. “Avril au Portugal” tornou-se num longo Woodstock.
A revolução dos perdigotos
Vir a Portugal logo a seguir ao 25 de Abril e mesmo nos meses seguintes, era sempre uma prova de resistência. Aos micróbios transmitidos pelos perdigotos dos palradores incansáveis com ideias novas, novas para eles. Às agulhas que voavam das mãos das costureirinhas, apressadas a virar casacas mais depressa do que conseguiam pensar. À pressa de estar na última moda política e de viver no ar do tempo.
Simultaneamente, veio a revolução dos costumes. Se havia liberdade, era para tudo. Não se reconheciam os amigos, tinham um ar diferente, diziam coisas disparatadas, tinham novos cônjuges ou companheiros, viviam noutros lugares. Ao incómodo dos perdigotos, juntava-se o perigo de contágio dos piolhos, das pulgas e dos chatos mal lavados, com cabelos por cortar e barbas por fazer, a confundir liberdade com libertinagem. Bons tempos, porque o pior estava para vir.
Das extremas esquerdas ao extremo centro...
Os democratas seculares e liberais, que no “tempo da outra senhora” eram objecto de perseguições e conselhos de prudência por exprimirem ideias perigosas, tornaram-se em poucas semanas, nas palavras dos anteriores “calados e arrumadinhos”, em burgueses reaccionários.
Os novos “barulhentos e desarrumados”, atropelavam-se em comícios, marchas e greves, na pressa de ficar à esquerda da extrema esquerda. O partido comunista, a única força de oposição organizada ao anterior regime, tornou-se para os apressados mais um partido burguês, estalinista e burguês, nesse tempo não havia contradições. Nesse tempo ninguém ia além da esquerda até mais ao centro... da esquerda.
As mós do tempo
A revolução chutou o pêndulo, da repressão até à exaltação, e depois, das liberdades populares à definição escrita dos seus direitos e desejos na Constituição. O país mudou, em geral para melhor. A maioria dos cidadãos pode escolher os seus representantes políticos e eleger quem os governa. Há menos pobreza e mais educação. O estado social chega à quase totalidade da população, que vive melhor, de melhor saúde e por mais tempo.
Mas a realidade tem o dom de triturar as ilusões entre as mós do tempo. Desconjuntaram-se o império colonial e a economia, o país perdeu a credibilidade e o crédito, foi preciso chamar o FMI por duas vezes para evitar a bancarrota total. O progresso foi  conseguido à custa de empréstimos para cobrir deficits orçamentais, da colusão de políticos, de financeiros e de empresários para se apropriarem dos recursos do estado, da corrupção generalizada, da implosão da justiça.
O preço da palha
Quase quarenta anos após o 25 de Abril, haverá em Portugal burros suficientes para comerem toda a palha produzida pelos demagogos actuais e que lhes é servida pelos meios de comunicação? Mais uma crise, mais uma bancarrota a necessitar a terceira vinda do FMI, agora parte duma troika onde os outros dois cavalos são europeus, representantes da Comissão e do Banco Central da União.
Os salvadores da pátria aparecem em todas as conversas, todos os programas e jornais, são citados vezes sem conta em todos os noticiários, são os “crowd pleasers”, os que dizem e repetem os chavões e fantasias que as cabeças ocas querem ouvir nestes tempos de crise: política acima da economia, mandar embora a troika, não pagar as dívidas, redistribuir a riqueza, fazer pagar os países do norte, aumentar os salários, aumentar os apoios sociais, uma nova aparição da Nossa Senhora de Fátima, o milagre da multiplicação dos pães, o maná a cair do céu nesta travessia do deserto...
Os factos e os argumentos 
Há neste país uma quantidade suficiente de gente competente e esclarecida que descreve a situação actual com factos e números indiscutíveis, que usa a razão para indicar as alternativas possíveis e os caminhos que podem ser seguidos. Na sua maioria, esses passam discretamente na televisão ou escrevem artigos em jornais que depois têm uma repercussão limitada.
Mas são esses também quem critica de forma realista. Em vez de chavões patetas, exigem que o governo faça as reformas estruturais indispensáveis, corte as rendas dos monopólios da energia, dos transportes, das estradas, corte os abusos nas empresas estatais para poderem melhorar a produtividade. Em vez de disputas e manifestações de partidos nos quais já ninguém acredita, exigem a revisão da Constituição, da legislação que manieta a justiça, do número de deputados e da sua representatividade, exigem a optimização das divisões administrativas e a redução da burocracia.
O todo e as partes
Portugal não está a funcionar como estado, porque os cidadãos têm concepções diferentes dos seus direitos e deveres, assimilam a democracia à prosperidade, pensaram que a Europa era a nova árvore das patacas ou outra mina de ouro do Brasil. Tudo isto com o mínimo de maçadas possível.
A União Europeia não está a funcionar, porque cada país que a compõe tem concepções diferentes do que a União significa e de como o seu progresso se deve fazer. Há membros sérios e outros que não o são. O palhaço que foi o terceiro candidato mais votado nas eleições italianas, acaba de pedir que os alemães tomem conta do país para que este possa ser governado com honestidade e competência.
A globalização foi iniciada pela Europa e agora são os europeus quem sofre mais das suas consequências. Por falta de competência e excesso de diversidade.
É altura de avaliar seriamente a proposta de Obama para uma união atlântica. A OTAN/NATO tem funcionado satisfatoriamente.
JSR

3 comments:

  1. Gostei particularmente desta realista passagem: "são os “crowd pleasers”, os que dizem e repetem os chavões e fantasias que as cabeças ocas querem ouvir nestes tempos de crise: política acima da economia, mandar embora a troika, não pagar as dívidas, redistribuir a riqueza, fazer pagar os países do norte, aumentar os salários, aumentar os apoios sociais, uma nova aparição da Nossa Senhora de Fátima, o milagre da multiplicação dos pães, o maná a cair do céu nesta travessia do deserto..."

    Só que eu não lhes chamo os "crowd pleasers", chamo-lhes os "clown leaders"... no fundo, é quase a mesma coisa! ;)

    Um abraço ao meu analista politico preferido! As suas pequenas crónicas são um delicia, é pena estarem aqui "enjauladas" e não terem direito a uma divulgação muito maior. Portugal merecia!

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  2. Agradeço o comentário e as considerações, sempre simpáticas.

    É muito interessante e estranhamente oportuna a ideia dos "clowns", porque “Send in the clowns” era o título duma canção dum musical que passava por volta de 1974 na Broadway, e que acabava assim:

    “Isn't it rich?
    Isn't it queer?
    Losing my timing this late in my career.
    And where are the clowns?
    There ought to be clowns...
    Well, maybe next year.”

    Sem mais comentários...
    Um abraço.

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