Sunday, May 12, 2013

162 - As Reuniões dos “Antigos”

(Vêm estas considerações a propósito da reunião dos antigos alunos do Liceu de Setúbal, no passado dia 4 de Maio de 2013).
As reuniões de “antigos” qualquer coisa, provocam sempre estranhos sentimentos. Que já não somos aquilo que fomos, alunos de Liceu, colegas de Faculdade, companheiros de armas ou de outra actividade. O que quer que tenha sido, já não é, mas a reunião indica que os participantes conseguiram sobreviver o tempo suficiente para poderem olhar para traz e fazer o balanço.
Reuniões...
De todas estas reuniões, as dos antigos alunos do ensino secundário são certamente as mais comoventes, sobretudo quando juntam colegas que se tinham perdido de vista desde há meio século ou mais. Comparar evoluções e experiências neste caso é sempre fascinante. Os outros tipos de reunião já são por natureza menos inocentes, já estão demasiado contaminados pela competição de interesses profissionais, por hierarquias sociais, ou pela partilha de experiências comuns, exclusivas e em circunstâncias especiais.
Por isso essas reuniões começam com a alegria de nos imaginarmos uns aos outros como fomos, continua com a nostalgia da juventude que passou sem regresso e acaba com a realização que nos resta pouco em comum. Crescemos mentalmente de forma diversa e tornámo-nos em estranhos de nós próprios, que nem sempre se reconhecem no espelho do olhar dos outros nem na imagem que guardamos na memória.
...e tempo de balanço
Ao fazer o balanço do último meio século, é extraordinário o que se passou neste país, no mundo e nas consequências para cada um. A emigração dos camponeses e o exílio dos políticos, a guerra colonial e a revolução começada em 1974. A expansão económica e a influencia cultural americana no rasto das guerras que outros começaram. A guerra fria e o perigo nuclear. O Vietname e Woodstock. Maio de 68 em Paris. Um Russo em órbita terrestre e dois Americanos na Lua.
Chegaram o fim dos impérios coloniais e o fim das ditaduras na Europa do Sul. A queda do muro de Berlim e a desagregação soviética. A progressiva união dos países europeus. A generalização das guerras locais e do terrorismo. Os estertores extremistas do islamismo (a última grande religião a proteger pela violência o seu capital de ignorância diante do avanço da razão e do progresso). As crises do capitalismo global, as grandezas e as misérias dos estados sociais.
A vida que passa...
Na vida de cada um, as diferenças podem parecer grandes mas são realmente superficiais. A mesma luta por um lugar ao sol, para sobreviver aos obstáculos, encontrar o seu caminho, partilhar as experiências, possivelmente criar uma empresa e uma família. Na hora do balanço, olhar para trás com mais ou menos felicidade e medir o tempo percorrido com as marcas deixadas nos outros.
Distinguem-se as pessoas, como os países, entre os que se afogam nos acontecimentos negativos, enquanto outros os ultrapassam e conseguem manter um balanço positivo. São os primeiros que mais tarde se apercebem de quando foram felizes sem darem por isso. Os segundos olham para os desastres passados como provas de sobrevivência que sempre fizeram parte de todos os percursos e que é preciso ultrapassar.
...vale sempre a pena
O sucesso pessoal é sempre relativo às expectativas que se criaram quando se pensava que tudo era possível e à realização posterior de que a vontade pode ser grande mas o tempo é sempre curto. Mesmo que se empurre os limites para além do normal, da média, os limites acabam sempre por ganhar. Cada etapa tem um fim e chega sempre o fim de todas as etapas.
E aqui nos encontramos, a comparar as histórias de cada um, que com mais ou menos cor e movimento neste ou naquele período, chegam sempre ao cinzento que começa por nos invadir o aspecto exterior e acaba por nos devorar o espírito. Para todos, por igual, tudo acaba, subitamente ou aos poucos.
Agradecimentos
Finalmente, uma palavra de agradecimento para quem organiza as reuniões. Todos os que participam ficam em dívida para com estes guardiões da memória, que actualizam os ficheiros, mantêm os contactos, combinam datas, negociam lugares, recebem as participações, pagam as contas, por vezes ficam com os prejuízos e ocasionalmente ainda têm que aturar alguns descontentes...
Porque a reunião poderia ter acontecido num lugar mais tranquilo, porque poderia ter sido à beira-mar, porque... É certo que é sempre possível fazer melhor. Mas quando se tomam decisões, tomam os que lá estão, os que trabalham. Para estes o reconhecimento devido e para os outros um encorajamento para que avancem com as boas ideias a tempo e horas. Para a próxima vez... com os desejos que ainda cá possamos estar todos nessa altura.
JSR

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