Friday, May 20, 2011

46 - Mais um “Bonfire of the Vanities”

The Bonfire of Vanities - Dick Watkins 
O Managing Director do Fundo Monetário Internacional demitiu-se. Pelas razões indicadas no comunicado e por várias outras. Independentemente de outras considerações, o chefe duma organização internacional com a importância e reputação do FMI não deve ter relações sexuais com a criada de quarto dum hotel. Não interessa se foram consentidas ou não, não interessa se foi uma cilada ou não. Interessa que esse simples facto demonstra “poor judgement” e falta de auto-controle, o que o desqualifica para o lugar que desempenhava.
Uma das outras perguntas que se colocam, é como foi possível tal erro de casting, quando as tendências do homem eram conhecidas e bem documentadas. Foi possível porque é sempre extremamente difícil encontrar a pessoa certa para este lugar em particular. Candidatos há muitos e noutras organizações internacionais vêm-se os desastres frequentes que são resultado de dar preferência às considerações de baixa política, sobre a competência e capacidade.
O grupo dentro do qual é possível a escolha é extremamente limitado e, sendo humanos, são todos imperfeitos. Os homens e mulheres sem história não têm carisma, essa qualidade difícil de definir mas imediatamente aparente. Os machos e fêmeas Alpha, vêm acompanhados dos defeitos correspondentes às suas qualidades e, de entre esses defeitos, as tendências sexuais exacerbadas são as mais comuns e geralmente as menos perigosas.
 O poder é um grande afrodisíaco e geralmente funciona em ambos os sentidos, por isso é controlado por códigos de conduta que são quase sempre eficazes, na prevenção e na repressão. Piores defeitos são a incapacidade de tomar decisões, a falta de imaginação, astúcia ou autoridade, a corruptibilidade, a incompetência.
O resto tem a ver com importantes questões pessoais e gerais, o respeito pelos direitos dos indivíduos, o bom funcionamento da justiça e suas consequências políticas. Questões secundárias são as hipocrisias morais, os diferentes ambientes culturais, a predação pelos media na procura dos detalhes escabrosos.
Este triste “caso” tem muitos dos ingredientes do célebre “The Bonfire of the Vanities”, no funcionamento das sociedades ocidentais em geral e da americana em particular. As enormes desigualdades sociais que levam ao sentimento de impunidade de alguns, nos dois extremos da escala, aliás. O tratamento diferenciado pela polícia e pela justiça, sempre preocupadas com a percepção mediática em relação a certo tipo de pessoas, de comportamentos, de sensibilidades, de minorias, etc. 

As diferenças de culturas são também interessantes de observar nos media: a procura do rigor dos factos pelos órgãos de referência ingleses, a politização imediata dos americanos, a emoção embaraçada dos franceses e a coscuvilhice inexacta dos portugueses. As diferenças dos sistemas de justiça são também grandes mas mais simples: uns funcionam, outros não.
Há um provérbio russo que, traduzido sem o vernacular, diz mais ou menos o seguinte:  “Não se admire a raposa do que lhe acontece, quando fica presa ao entrar na toca do coelho...” 
JSR  

4 comments:

  1. Hesitei em comentar, sobretudo porque reconheço sem dificuldade o dilema de quem admira o profissional e respeita a instituição. Porém, não creio que a instituição esteja minimamente em causa, uma vez que, neste caso, a actuação pessoal em nada se confundiu com a actuação no campo profissional. Nem a defesa da instituição pode justificar que se protegesse o homem, nem o eventual crime do homem deve ser punido em nome do estrago que fez à instituição. Separemos, pois, as águas, sob pena de tudo se turvar ainda mais. É o homem que deve ser julgado, não o Director, embora a inteligência e a capacidade de exercer cargos de grande exigência intelectual possam ser uma agravante. Discordo que “o chefe duma organização internacional com a importância e reputação do FMI não deve ter relações sexuais com a criada de quarto dum hotel”, trata-se de uma questão do foro estritamente pessoal, o que seria criticável seria se o fizesse com alarde, comprometendo uma imagem pública de decoro que lhe era exigível. Fora disso, ainda que se soubesse, ninguém tinha nada com o assunto. Outra coisa substancialmente diferente é o facto concreto que está em causa, que, a ter sido praticado tal como o acusam, é pura e simplesmente criminoso, tão criminoso como matar uma pessoa num acto de cólera, roubar num acto de desespero, usar da força contra quem não consegue defender-se porque se tem uma relação de domínio. Não há, de resto, ou não se conhecem, quaisquer sinais de arrependimento, apenas uma fúria gélida por ter sido apanhado e exposto. Os antecedentes não ajudam, confirmando que, se tem um problema, devia já ter-se tratado, pelos vistos não o incomodaram nada outros assomos semelhantes.
    É difícil encontrar pessoas para ocupar determinados cargos, sem dúvida, por isso são pessoas de excepção e não qualquer uma, por isso merecem respeito e admiração, porque são raras.

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  2. Suzana, felizmente que a hesitação foi ultrapassada, porque este comentário nos permite ir ao cerne da questão.
    Com todo e respeito que se deva ter pela vida privada de cada um, a aceitação de certas responsabilidades profissionais (empresariais, políticas ou outras) impõe limitações aos direitos de livre arbítrio pessoal. A pessoa e o cargo tornam-se na realidade indissociáveis.
    Uma ilustração:
    Quando certas empresas multinacionais (ou organizações internacionais), lançam pela primeira vez os seus executivos em negociações (ou missões), em (ou com) países de culturas (ou regimes políticos) diferentes, dão-lhes uma preparação adequada.
    Essa preparação inclui, entre muitas outras coisas, um código de conduta destinado a precavê-los contra comportamentos e situações que os possam pôr em perigo pessoal ou que constituam um risco para e entidade que os envia e para a qual trabalham.
    De entre esses comportamentos estão os cuidados a ter com todos e quaisquer desconhecidos com quem entrem em contacto e que possam levar a situações duvidosas ou relações intimas. Devem ter sempre em mente a necessidade de evitar tudo o que possa vir a ser utilizado como meio de obter informação confidencial ou como forma de chantagem.
    DSK, apesar de toda a sua inteligência e valor, falhou este teste elementar em vários graus de gravidade.
    As ciladas usadas para a espionagem industrial, comercial, militar e política têm decidido competições em todas estas áreas desde a antiguidade. Têm também feito a felicidade de contadores de histórias, epopeias, escrituras diversas, odisseias... and modern thrillers of all stripes...

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  3. Caro Cagedalbatross, sem dúvida que há muitos cargos que têm especiais exigências de contenção e, em muitos casos, até mais do que isso, não só por razões de segurança mas por causa da imagem da instituição que se serve, a imagem do exemplo e da referência que se pretende dar á sociedade que integra. A política é um caso típico, ao ponto de se pretender muitas vezes confundir moralismo com moral e atitudes como parte do jogo entre adversários. Mas, ainda assim, um erro é um erro, uma fraqueza é isso mesmo, um desvio ao que era exigível e esperado, se não soubermos distinguir o que é desculpável do que não é estamos a legitimar perseguições absurdas e a desperdiçar quem pode exercer esses cargos com competência. Errar é humano e, como bem refere o post, há qualidades que podem justificar que se perdoe uma fraqueza, de tal maneira são raras as pessoas que conseguem levar uma vida imune ao escrutínio por vezes doentio e gratuito a que certos cargos estão sujeitos. Por isso mesmo não podemos reconduzir a uma simples má conduta de um profissional o que foi (a ter sido) uma conduta intolerável a qualquer nível de convivência de que se fale.
    Obrigada pela paciência :)

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  4. Cara Suzana, a vida é complicada. Porém, se não fosse, era um aborrecimento. Obrigado pelos comentários.

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