Friday, January 27, 2012

88 - Os Limites da Liberdade e da Democracia

O impasse económico actual faz com que apareçam cada vez mais claramente os limites de funcionamento das democracias ocidentais, do capitalismo liberal que as sustenta e do exercício da liberdade individual dos cidadãos na qual se baseiam.
Todos estes conceitos e as suas justificações filosóficas, encontram-se agora diante do ataque frontal de concepções diferentes e competitivas na escala global. Como instrumento de avaliação, ou benchmark, está apenas a eficácia na gestão económica e a sua consequência politica no poder dos estados.
As democracias europeias e norte-americanas atingiram um equilíbrio social e uma prosperidade alargada, ambos devidos ao crescimento económico em todas as áreas produtivas nos anos que se seguiram à segunda grande guerra do século passado. Foi bom enquanto durou, mas chegou ao fim.
A liberalização do comercio mundial, a queda das tarifas protectoras das especificidades de cada estado ou de cada região económica, pôs em competição global directa todas as empresas e todas as classes produtivas. As empresas com vantagens comparativas de qualidade, produtividade ou implantação de mercado, assim como os gestores e profissionais mais bem preparados, podem ver os seus lucros ou remunerações crescer. Mas as empresas e os trabalhadores mais expostos à competição vinda de lugares de mão de obra mais barata, sem ou com menores custos de protecção social, acabam por desaparecer ou perder os postos de trabalho.
Este re-equilibrio mundial favorece os países emergentes e assinala a decadência das antigas potências industriais da Europa e da América do Norte. Com as dificuldades económicas questiona-se tudo o que tem feito a superioridade, ou pelo menos a diferença, das sociedades Ocidentais: a democracia secular, o capitalismo liberal, o estado social.
Pode um despotismo benevolente à la Singapura equilibrar melhor os interesses de diferentes comunidades, juntas num processo acelerado de desenvolvimento? Pode o capitalismo de estado, apropriado por um partido ditatorial, sacrificar a maior parte da população ao enriquecimento e projecção do poder do país, como está a fazer a China? Podem países subdesenvolvidos, mas ricos em recursos naturais, ser representados apenas pelas máfias que se apropriaram do poder e dos despojos, investindo as sobras nos fundos soberanos em seu benefício, como fazem os emires do petróleo, alguns ditadores africanos, ou também a Rússia?
Das respostas a estas perguntas, debatidas com o alarme da preocupação e da urgência  nos meios académicos e políticos, depende o futuro. Tudo o resto são situações conjunturais. 
JSR

Sunday, January 22, 2012

87 - A Crise Chegou ao Paredão de Cascais (Conversas Surrealistas)

"As Banhistas" de Joana Rosa Bragança
Nestes dias que o calendário pretende serem de Inverno, mas onde a temperatura é de Primavera e o Sol é de Verão, a crise chegou insidiosamente ao paredão de Cascais. Realmente nada parece o que é.
São quase duas da tarde e conseguimos mesa num restaurante, estranho, costuma haver fila, mas nas mesas apenas uma família inglesa está a almoçar, nas outras predominam águas e cafés.
Ao sentarmo-nos, devemos ter atravessado uma descontinuidade de espaço/tempo, porque aterramos inadvertidamente num daqueles programas televisivos para sopeiras do tempo da outra senhora.
Extractos do diálogo duma mesa para outra, em diagonal, duas balzaquianas magras com o mesmo cabelo longo, pintado em farripas, ripado:
- Olá, é a Zé-Zé, não é?
- Sou...
- Ah, mas está tão bem! Bem mesmo! Não a via desde o “take” em Oeiras. Nem parece que... Sou a irmã do Chico.
- Tenho andado doente.
- De quê?!
- Da cabeça...
- Isso andamos todas! Todas! Mas... é por causa do Pedro?
- Sempre foi um pai ausente, mas agora que eu tenho um amigo está sempre a telefonar às filhas. 
Chega uma miúda vinda da praia (cópia conforme da mãe, cerca de 12 anos, mini-saia e botas de montanha), interrompendo o diálogo.
- Mãe, estou cheia de fome.
- A menina quer comer aqui ou esperar pelo Pedro? Não sei onde ele quer ir com vocês.
- O pai está com a Nhô-Nhô.
- Falei com ele e disse que vinha mais tarde.
A filha senta-se e a Zé-Zé faz telefonema após telefonema, freneticamente, intercalados apenas com beijos e marradinhas no companheiro, calado, ausente.
Subitamente:
- Mafalda, telefone ao Pedro.
- Quero ir almoçar com a Nhô-Nhô, estou cheia de fome. E a Pilar também.
A Pilar chega da praia, quatro ou cinco anos, vestidinho de Alice no País da Maravilhas, meias altas e sapatos de verniz. Quer ficar de costas para o Sol e arrasta uma cadeira à volta da mesa, encalhando com tudo o que não se afasta tão “presto” como os cães estacionados por ali.
- Quero um hambúrguer.
- Mafalda, tome lá o telefone.
- Não.
Pouco tempo depois chega um tipo baixote e anafado com uma rapariga pós adolescente, beija as miúdas, beija a balzaquiana da outra mesa, diz “Olá” à Zé-Zé, faz um aceno ao tipo sentado na cadeira do lado como uma “potted plant” que inesperadamente sussurra entre os dentes “senhor doutor...”, e voltando-se para as miúdas:
- Já almoçaram?
- A Pilar quer um hambúrguer.
- A Mafalda também.
A Zé-Zé para o empregado:
- Oh, faz favor!
- Queremos duas saladas disto e daquilo, dois hamburguers, um deles com um ovo a cavalo, mais uma dose de batatas fritas e coca-colas e uma super-bock e...
No meio da conversa generalizada de mesa a mesa o tipo anafado acabou por se sentar com a outra balzaquiana, que imediatamente lhe começou a ajeitar o cabelo e a camisa, a encostar-lhe a cabeça ao ombro e a fazer outros tagatés ternurentos.
À mesa do lado chegaram os almoços, todos comeram, as miúdas voltaram à praia, a “potted plant” desapareceu sem que ninguém se tivesse dado conta, a Zé-Zé partiu a caminho da casa de banho. Ficaram as peças de roupa nas cadeiras e a loiça na mesa.
Finalmente, da outra mesa em diagonal o “senhor doutor, pai ausente” pediu a conta, olhou para o papel, olhou à volta para a mesa do lado vazia, pegou na máquina que o empregado lhe estendia e marcou o código.
JSR

Saturday, January 14, 2012

86 - Os Desastres das SCUT

"The Toll Gate" by Cornelius Krieghoff
Published 2/02/2012 by "Jornal do Fundão".
                                                                    A introdução de portagens electrónicas nas auto estradas Sem Custo para o UTilizador é, além dum contra-senso, um monumento à imprevidência financeira, à ignorância económica e à miopia política.
A intenção original era boa, desencravar o interior do país com uma rede de auto estradas. Mas de boas intenções está o inferno cheio. E então a indispensável concorrência do caminho de ferro? Antes das auto estradas, levava-se sensivelmente o mesmo tempo numa viagem de carro por caminhos de cabras glorificados com o nome de estradas nacionais, ou pelo caminho de ferro lento e desconfortável. Num caso como noutro, de Lisboa às Beiras era um dia de viagem, com paragens frequentes e uma média de 50 a 60 km hora. A rede de transportes era má, atrasada e resultou na desertificação do interior, onde não havia progresso porque ninguém se arriscava a investir.
A solidariedade europeia e nacional custeou o investimento nas infra-estruturas, mas porquê apostar tudo nas estradas e porque não foram melhoradas de forma semelhante as linhas férreas? Como em tudo o que é concessionado, porque não foram imediatamente cobradas portagens, mesmo simbólicas, mas sempre preferíveis porque o custo é reconhecido e amortizado sobre um período mais longo? Mudar agora de ideias é de uma falta de visão política, económica e estratégica de fazer desanimar qualquer um. Quando se faz uma asneira, primeiro assume-se e depois analisa-se bem como corrigi-la sem que a emenda seja pior do que o soneto.
É precisamente isso que está a acontecer. O que em teoria era uma ideia brilhante, na prática revelou-se ser uma forma conveniente para alguns malandros com a responsabilidade de defenderem o interesse público, negociarem contratos leoninos para as empresas e em detrimento do Estado, para depois serem descaradamente recompensados com a saída directa das funções públicas para as empresas que tinham favorecido.
Ainda não foram auditados completamente nem renegociados os contratos das parcerias público-privadas. Mas agora, antes (ou em vez?) de corrigir as asneiras anteriores procurando restabelecer a equidade contratual e financeira através de legislação, auditorias e tribunais, passou-se já à parte mais fácil que é taxar o utente indefeso e prejudicar o investidor crédulo. Estas portagens inesperadas são prejudiciais sobretudo para o interior centro do país onde irão agravar a desertificação, pois destruiram a previsibilidade no planeamento de custos das empresas em geral, não só das que contaram com baixos custos de transporte e vêm agora o tapete a ser-lhes tirado debaixo dos pés, ou das rodas, mas também das que poderiam vir a instalar-se e lhes é lembrado que não podem contar com nada de estável, nem custos, nem impostos, nem legislação.
Parece que estas portagens são as mais caras da Europa e, para juntar insulto à injúria, a cobrança electrónica vem aumentar o elemento de estranheza, confusão e incómodo que afastarão o turismo para outras paragens. Tantas declarações acerca da importância do turismo e agora, nem os estalajadeiros e o seu pessoal escapam. Sucessivas campanhas de publicidade, investimentos públicos e privados estão a ser destruídos pelas notícias na internet onde as redes sociais dão conta da aberração da cobrança electrónica em termos sarcásticos e agressivos. Os resultados estão já a ver-se nos cancelamentos e nos desvios para outras paragens menos complicadas e mais acolhedoras. As campanhas de publicidade e anos de trabalho foram destruídos para sempre, porque os comentários e queixas na internet nunca mais se apagam.
Dizem que parece anedota, mas não tem graça nenhuma que se acabe com o turismo estrangeiro rodoviário no interior, porque só os masoquistas se sujeitam às incongruências da instalação dum sistema complicado para o utilizador pagante, tecnologicamente despropositado em zonas maioritariamente rurais. Cobram-se uns milhões em portagens, mas quanto se perde em receitas de turistas estrangeiros? Turistas que faziam funcionar pequenas e médias empresas que eram o balão de oxigénio para o emprego em localidades onde muitas vezes não há outras ocupações. Hotéis, restaurantes, unidades de turismo de habitação e rural, assim como toda a cadeia de fornecedores que disso dependem.
Analisemos por um momento a perplexidade dos automobilistas estrangeiros que entram desprevenidos em Portugal e se deparam com a multiplicidade de placas indicando que têm que pagar uns quantos  euros  de espaço a espaço. Uma espécie de mealheiro irritante e incompreensível. Muitos esperam até encontrar um stand de portagens, mas só encontram um já de outra auto estrada e esquecem o assunto. Outros percebem a diferença e quererão pagar, mas como? Parar numa estação de serviço só serve para lhes impingirem um dispositivo temporário de três ou cinco dias, que em muitos casos já não cobre a viagem de volta. Pedir explicações é igual a falar com uma parede.
Os visitantes frequentes, entre os quais os portugueses emigrados, telefonam para as entidades indicadas pelos media como responsáveis ou participantes nesta confusão, ou acedem aos sites respectivos na internet. Assim começa uma viagem à terra de ninguém da burocracia no seu esplendor mais malévolo. As informações são, ou incompreensíveis, ou erradas, ou contraditórias, ou incompletas, ou inexistentes. Passes rasteiros entre as Estradas de Portugal, a Via Verde e os CTT.
Para os persistentes com a sorte de encontrar num balcão alguém que vá confirmar com o superior se é possível fazer o que está no site da internet, que o superior chame o perito em informática porque não sabe como aceder a esta possibilidade no computador, que o perito saiba o que fazer para descobrir esta coisa de que nunca ouviu falar apesar das sessões de formação, o aspirante a utilizador tem que mostrar uma vez e outra as regras que imprimiu por precaução para obter o que pretende, e só depois de hora e meia lá consegue obter um dispositivo.
Mas depois, como aceder à conta de visitante frequente para saber o saldo e como recarregar essa conta? Ah, isso... não seria melhor ver mais tarde, terá que haver com certeza uma actualização nos sites dos CTT, da Via Verde, das Estradas de Portugal, ou... (dizem claramente as expressões acabrunhadas dos que se acumularam do outro lado do balcão) do diabo que carregue quem se lembrou deste sistema?
JSR

Saturday, January 7, 2012

85 - Portugal no Ano do Dragão

A China é tradicionalmente representada por um dragão, como a Grã-Bretanha por um buldogue ou a Rússia por um urso. Lembro-me de em criança ter tido um mapa da Europa onde cada país era representado por um animal.
Depois de séculos duma presença residual em Macau, são os chineses que têm chegado paulatinamente a Portugal. Primeiro, invadiram o pais com lojas de produtos a preços que destroem toda a concorrência. Agora, com a compra das acções do estado na EDP, abrem o caminho a outras participações importantes na economia nacional, no acesso aos mercados europeus e aos países de língua portuguesa.
O dinheiro não tem cheiro e raramente tem nacionalidade. Acontece que esta é uma das ocasiões em que tem. Os investimentos dum país governado por uma ditadura de partido único, onde a nomenclatura é efectivamente uma classe oligárquica acima do povo, são mais do que investimentos de capital, são instrumentos de politica internacional.
A 23 de Janeiro começa também o ano do dragão no calendário da astrologia  chinesa. A sabedoria de Confúcio e a precaução negocial dos mandarins que se confrontaram com os bárbaros que chegavam ao Império do Meio, recomendavam que mesmo não acreditando nas crenças dos outros é necessário conhecê-las. Ou seja: estar a par do que acredita quem acredita, a fim de compreender como pensa e como decide quem decide. Parece uma chinesice mas não é, talvez seja útil ler a frase outra vez. Por crenças não se referiam à astrologia, na qual os chineses acreditavam e acreditam, mas aplicaram o termo às novas ideias e religião trazidas para a China pelos portugueses e outros europeus.     
Embora o conselho seja sempre útil, chegou agora a altura em que se torna uma questão de sobrevivência para Portugal tomar as devidas precauções e as medidas de contenção necessárias. A China é uma máquina de produção para a exportação, que manipula o cambio da sua moeda a fim de manter as importações o mais caras possíveis e as exportações subsidiadas. Com custos mínimos de mão de obra e sem preocupações de solidariedade social, pode investir os lucros da economia no poder do estado dentro e fora das fronteiras, na perpetuação do regime e na qualidade de vida dos membros do partido e das forças armadas. O povo, tanto invocado pelas utopias comunistas, não tem nem voz, nem voto, nem benefícios sociais, e só partilha pouco e muito lentamente da prosperidade do pais.
Duma forma pragmática, todo o investimento é bem vindo. Vale a pena recordar que os xeques árabes enriquecidos pelas nacionalizações das companhias petrolíferas, investiram o seu dinheiro nos países dessas mesmas companhias, em Londres, em Paris, em Nova York. Beneficiaram todas as partes envolvidas. Mais tarde, a venda das torres de La Défense em Paris ajudou o Kuwait a pagar o esforço de guerra americano para derrotar a invasão pelo Iraque. Da mesma forma, a compra da dívida americana coloca vendedores e compradores com interesse igual na defesa do dólar.
É preciso que fique claro que a invasão pacífica pela China tem consequências importantes para Portugal, não só na economia onde até podem ser benéficas, mas também nas relações internacionais, onde o seu peso vai mudar as teias de interesses existentes, constituídos na Europa como no resto do mundo. Essas consequências têm que ser antecipadas e bem analisadas, para que a dinâmica desta nova situação possa ser usada em proveito nacional e não apenas para satisfazer ambições pouco recomendáveis.
JSR

Tuesday, January 3, 2012

84 - Um Blog em Eclipse Parcial

Monk-Scribe Astride a Dragon - mid 12th cent.
NY's Met.MA
Passou um ano e é tempo de avaliação. Este blog começou como uma experiência, uma contribuição para as conversas entre amigos próximos, ou a continuação dessas conversas, de acordo com a evolução da actualidade nacional e internacional. Começou por ser um blog privado, ou seja, aberto apenas a um grupo restrito que conhecia o título e fechado às pesquisas em série ou aleatórias.
Após várias hesitações, foi sendo aberto apenas parcialmente, devido a quem foi passando o endereço a um e a outros e se foram estabelecendo links com pessoas com quem é interessante dialogar, cada qual à sua maneira. Mais difícil é estabelecer o tipo de tertúlia que aparece naturalmente quando há vários contribuidores a escreverem posts.
Alguns comentadores têm a self-assurance de o fazerem na zona própria do blog. Outros, temendo a exposição, mesmo num blogue discreto como este, preferem faze-lo por e-mail, sms ou telefone, o que quase sempre é uma pena, pois aparecem comentários com interesse e humor que deviam ser partilhados. Por exemplo, alguém escreveu com grande verve, que entrou no primeiro blog por curiosidade, passou aos blogs associados e se perdeu no labirinto. Este ainda mandou um e-mail, outros provavelmente nunca mais ninguém os viu. Como reassurance, devo acrescentar que este não é o labirinto do Minotauro… É certo que este blogue foi dividido bastante cedo em quatro blogues interligados, pois alguns leitores comunicaram que o progresso de quatro linhas diferentes de textos lhes estava a criar confusão.
Outro comentário recorrente é a eventual publicação em livro de uma ou outra das linhas de histórias, por livro significando o suporte em papel, fora do qual nada parece ter seriedade ou permanência. Não sei se ainda assim é. Aproveitando a resposta a um outro comentário,  penso que os blogs são o seu próprio género. Podem ser um exercício em futilidade ou uma caixa de Pandora para quem escreve. Agrupam quem lê por áreas de interesse. Nunca são inocentes e ao entrar na net obtêm o que mais se aproxima da intemporalidade. Como os livros, têm a sua própria difusão, mais do que os livros, nunca desaparecem.
Deve ser aparente a quem siga o blogue com um pouco de assiduidade, que ultimamente este tem atravessado uma espécie de eclipse parcial. A razão é óbvia para quem siga a evolução dos temas dos posts, os quais frequentemente indicam o que vai acontecer se... e que depois efectivamente aconteceu porque...
Repetem-se na Europa problemas cuja solução tem precedentes, repete-se em Portugal uma história que já foi satisfatoriamente resolvida noutros países, repetem-se com as pessoas situações evitáveis, que embora atinjam cada um de forma diferente, acabam por ser deprimentes para todos. Será que a incapacidade de aprender com as experiências passadas se propaga como uma epidemia mortal?
Felizmente, todos os eclipses são por natureza temporários.
JSR

Saturday, December 31, 2011

83 - Voltar a Portugal

Return 1 - Zahi Khamis
Ditoso Camões, que amava a Pátria à qual voltava, apesar desta lhe ser madrasta. O lugar onde se nasce completa a programação dos genes que nos fazem, depois vem a educação e finalmente, se tudo correr pelo melhor, o sentido da responsabilidade individual. Mal vai o país onde os cidadãos não entrem na idade adulta sabendo que têm que o fazer pelo seu pé e viverem a sua vida sem depender das benesses de ninguém.
Estes foram alguns dos pensamentos que preencheram uma noite sem sono durante o último voo de travessia do Atlântico, lendo relatórios sobre as crises internacional e nacional, assim como notícias sobre diversas manifestações e movimentos de “indignados” aqui e acolá. Indignados porque já ninguém aceita levá-los ao colo como crianças dependentes, nem as famílias, nem as empresas, nem os Estados.
Depois de ausências de meses, anos ou décadas, os regressos a esta “ditosa pátria minha amada” são sempre experiências traumáticas, de alguma forma. Voltar primeiro para as reuniões familiares alargadas do Natal ou para umas semanas de férias, representou de cada vez a surpresa e a descoberta duma realidade desconhecida. Voltar depois por uns anos, constituiu uma sucessão de choques contra as paredes de vidro do conformismo com a tradição, da resignação com as superstições, da passividade com as estrituras impostas por um regime autoritário.
A idade adulta trouxe finalmente as asas para voltar a voar para fora e bem acima da cerca. Partir por muito tempo, mas sem nunca perder o contacto. Quem não está contente com a situação em que se encontra, ou muda a situação ou muda-se a si próprio para onde se encontre melhor. Tudo o que pára, estagna e morre. Ao longo de tantos séculos de história, Portugal viu partir os mais descontentes e os mais empreendedores, à custa dos quais viveu os seus raros períodos de prosperidade. Construíram-se impérios comerciais e vieram escravos, especiarias e ouro. Os que ficaram souberam sobretudo esbanjar tudo o que receberam em monumentos à sua vaidade, luxos de importação, conventos onde sobreviveu alguma sabedoria e muita inutilidade, sem nunca serem capazes de fazer frutificar o capital numa economia sustentável.  
Voltar desta vez, talvez a última, tem sido um reencontro progressivo e uma adaptação difícil, onde ainda continua a doer a estranheza de tudo. O principal choque, ao voltar a este pequeno país europeu, é uma confusão mental e física maior do que é aparente em visitas curtas. A confusão mental manifesta-se pela frequente irracionalidade na definição, na avaliação e na resposta às situações, na falta de rigor das alternativas propostas, na má execução dos projectos, na incapacidade de aprender com os erros passados para evitar repeti-los. A confusão física manifesta-se naquilo que aparece como uma casa desarrumada. Leio num jornal que um gestor conhecido e boçal partiu o vidro duma janela do carro ao tentar atirar uma garrafa para a estrada, enquanto conduzia e falava ao telefone... Quantos atentados às leis e quanta falta de educação e civismo se concentram neste gesto.
Por outro lado, este país é um dos raros lugares relativamente civilizados do mundo, onde se pode viver em paz, liberdade e com alguma qualidade de vida, mesmo limitada. Uma democracia razoavelmente funcional, assente numa burguesia minoritária, mas inteligente e instruída, alguns mesmo brilhantes, outros palradores e quezilentos, enquanto que a maioria popular está ainda em vias de desenvolvimento escolar, social e de cidadania. Uma economia liberal, embora a maioria dos empresários continuem dependentes do Estado e dos favores políticos, haja relações incestuosas entre as funções públicas e privadas, a maioria dos empresários e  trabalhadores sejam pouco qualificados, pouco produtivos e em servidão contratual com bancos e programas de subsídios. Um estado providência tentacular, que é a salvação da população mais carenciada, mas com uma burocracia excedentária, com hábitos de favores e corrupção, além de lenta e pouco eficaz.
Um país de pequenos contrastes, que vistos localmente parecem enganadoramente grandes. A crise financeira internacional, a falta de clarividência dos principais responsáveis Europeus e nacionais, a crise da dívida de vários países da zona Euro e particularmente deste, estão a afectar profundamente a cultura do país. A Terceira República começada em Abril de 1974 deu predominância política ao progresso social e de infra-estrutura, sobre a sustentabilidade económica. O consequente desmoronar sob o peso das dívidas, traz agora um recuo significativo de nível de vida para toda a população, que terá que alinhar as suas necessidades bem reais com a reduzida capacidade económica de que o país é capaz.
O principal prazer de voltar a Portugal, é sempre o reencontro com a cultura no seu sentido lato, aquilo que a tradição chama “a alma nacional”. Em Lisboa, na província e mesmo nos que estão no estrangeiro, há uma transversalidade dessa cultura abrangente que transporta consigo cada Português, que é quase sempre reconfortante, mesmo que por vezes possa irritar profundamente. Fado, Fátima e futebol, já mantinham as massas populares numa apatia suficientemente imbecilizante, agora junta-se o triunfo da frivolidade nos media em geral e na televisão em particular, onde concursos, telenovelas, astrologias e outro lixo, são debitados até ao estado de coma intelectual.
A cultura é decerto ainda maioritariamente conservadora, mas com excepções importantes na literatura, nas artes e nas ciências. Notáveis excepções de mérito individual. A dependência dos subsídios do estado impede a clarificação da qualidade pela sobrevivência dos mais aptos. Como os subsídios dependem do gosto (ou falta dele) de quem toma as decisões, de compadrios e de politiquices, a cultura não vai a lado nenhum que valha a pena por esse caminho. Os artistas dependem historicamente de patronos oficiais ou privados que asseguram a sua sobrevivência, raros são os que dependem apenas do público que aprecia, compra ou assiste à representação das suas obras. A dependência traz sempre compromissos, mas a dependência sem exigência é desmotivadora e aviltante. Considerar a cultura como fazendo parte dos preconceitos ideológicos de redistribuição social, provoca inevitavelmente o abastardamento da qualidade, como se prova uma e outra vez.
Com os novos meios de comunicação dá-se um acesso cada vez maior à informação em qualquer lugar e de onde quer que nos encontremos. A porta da internet permite saber instantaneamente o que se passa do outro lado do mundo, aceder, ver, participar ou comentar. Os acontecimentos são em directo. Vê-se muito melhor um jogo de futebol ou uma Ópera no conforto de casa do que no estádio ou no auditório. Falta a interacção com os outros, os que estão na assistência ou os que estão no terreno ou no palco, mas o calor humano e as multidões tornam-se cada vez mais e para um número cada vez maior de pessoas, inconvenientes e desnecessários.
De tribos de homo sapiens sapiens, a parte da humanidade mais inteligente e cientificamente avançada transforma-se progressivamente em associações de interesses desencarnados num mundo cada vez mais robotizado e mais virtual. Contactamos com a terra, o mar e os animais donde extraímos os alimentos através de máquinas. Deslocamo-nos através doutras máquinas. A saúde depende de sistemas cada vez mais automáticos. Os computadores servem de intermediários para com o governo, a administração, as empresas e os amigos. Até a guerra necessária para nos defendermos dos bárbaros que atacam a nossa civilização racional e frágil, se torna progressivamente dependente do controle das comunicações, da vigilância por satélite, de robots e de drones comandados à distância. Combatemos os bandidos das nove às cinco, diante dum écran de onde se comanda o bombardeamento dos terroristas e o ataque aos extremistas.
Voltar a Portugal e continuar ligado ao mundo exterior já não é uma singularidade ou um desafio, é um estado comum para muitos, mas não para todos. Esta divisão acontece em cada povoação, cada cidade, cada país, cada continente. Pode ser maior a distância de interesses e conhecimentos entre dois vizinhos da mesma rua do que entra dois amigos no Facebook situados nos antípodas um do outro. É neste mundo desconstruído que vivemos. Esbate-se a solidariedade social, ignoram-se os interesses comuns, desaparece a democracia onde tenha conseguido florescer, aumenta a insegurança. Cresce o tribalismo nacional, a criminalidade transnacional, as máfias em simbiose com regimes autoritários, a mediocridade política nacional e internacional.
“Não me tapes o Sol”, conta a lenda que disse Diógenes a Alexandre. Não nos tapem o Sol com uma peneira, dizemos nós aos aprendizes de feiticeiro que não ousam atacar os problemas de frente, as sucessivas crises políticas, económicas e sociais dos lugares onde vivemos. Na realidade, tanto o fracasso como o sucesso resultam da acção e podem sempre ser revertidos. A verdadeira derrota é a irrelevância, o navio parado no meio do oceano sem velas e sem motor. O acumular de incompetências e desvarios a que ninguém presta a devida atenção durante muito tempo e que de repente se pode revelar um buraco negro onde tudo desaparece.
Aqui estamos neste fim do ano de 2011, à beira do abismo financeiro, económico, social e político. Em Portugal, como em outros países, ouvem-se as vozes irresponsáveis vindas da Europa e da América, insistindo em que é preciso e urgente dar um passo em frente. É preciso resistir, mas para resistir é preciso saber como, o que obviamente nem todos sabem.
Este é o último post deste ano, com desejos sinceros que 2012 seja um ano melhor.
JSR

Tuesday, December 27, 2011

82 - Letters to my American Grandson (2)

Giotto's Nativity
2 - Christmas and the Winter Solstice

Family reunions are not easy when we are dispersed over such long distances. Sometimes we cannot get together at the traditional occasions, as this year unfortunately, happened for Christmas. With all the development and ease of transportation of our age, it is due to the unchangeable part of human nature that we cannot always be masters of our time. The individual constraints and professional commitments can intrude today, like they always did, in personal choices.
When I had your age, travel required considerable preparation, time and expense. However, we still managed to go back as often as possible to our roots, the place to which the oldest living generation had always returned to reside. At the center of things there were my grand parents, then bound to carry the hereditary responsibility for caring and providing the venue for family reunions. Air travel was still scarce and ocean liners could take weeks to reach destination, but that was the price to pay to have several generations meet, exchange their memories, experiences and views of the world, thus strengthening the extended family ties.
To your grandmother and I, it has now fallen that responsibility. It is with sadness that we spend this period without our children and grandchild, after all those years where we got used to being together. After reaching a certain age, when we look into the future we wonder how many more opportunities will be there to get together, but we know they will be fewer and fewer, thus the sadness.
On the other hand, all this is also normal. As the years go by, in time the children create their own little families and other obligations. As generations follow each other and such patterns are repeated, the important is for each one to find equilibrium, peace and happiness in life.
Since we could not get together, let me tell you in writing instead of in person, about how Christmas was made to coincide with the traditional celebrations of the winter solstice.
The natural rhythms are the only things certain and of which we are aware: the succession of days, the lunar months, the seasons of the year, life and death. At the winter solstice we celebrate the shortest day of the annual cycle and by consequence the longest night. It's the end of the agony of autumn, when the temperature drops, the flora falls asleep and the fauna enters the slow pace of survival in times of scarcity.
The solstices and equinoxes are significant milestones since mankind became conscious of the seasons’ regular return. As they change, so change the sources of food and all the other needs to adapt and survive. Since then, stones have been engraved, the interior of caves painted up, megaliths rose, pyramids, temples and space observatories have been erected. In common, they have the desire to understand what affects us and to conjure up the unknown.
The recognition of being dependent of nature’s rhythms is as inevitable as the appearance of all the myths and superstitions connected to these significant events. The need to think, to understand, also entails finding the limits of our rationality. It is in reaching these limits that are established the fundamental differences in the capabilities of each person to deal with the reality that is beyond our immediate understanding. Some people accept that nature’s unknown is conquered step after step; others indulge in fantasies of inevitable submission to supernatural entities.
Every civilization that overlaps the previous ones, adds its own layer of beliefs, traditions and legends. Christmas marks a special birth among those that frequently occur nine months after the celebrations of the spring equinox, when nature awakens, many animal species mate and a new annual cycle truly begins.
This special birth happened about two thousand years ago and had a negligible impact on his contemporaries. But after his execution, Jesus’ ideas had the best viral public relations that the world has ever known, for which were mainly responsible some of the Greeks absorbed by the Roman Empire, Greeks already known at the time as independent minded and obstinate radicals...
These myths, legends and their different versions, have accumulated civilization after civilization, colouring the immutable natural realities and thus providing the opportunities to produce both some of the best spiritual and artistic creations of humanity, and also the worst tragedies and aberrations.
For those who are lucky enough to live in peace and have at least the bare minimum of material possessions, the winter solstice is a time of hope. The families get together to strengthen the ties among its members, share common traditions and keep the memory of their roots. It does not matter if the decorated tree coexists with the nativity scene, Santa with the child Jesus, the pagan bonfire burns during the midnight mass and the nights are frigid.
This year, the days still bring a blue sky, the sun is warm and we are alive. Next year, despite the world’s many difficulties, the spring season is definitely coming again.
JSR

Thursday, December 22, 2011

81 - Solstício de Inverno

Madeiro do Natal
Os ritmos naturais são as únicas coisas certas de que temos consciência. A sucessão dos dias, dos meses lunares, das estações do ano. A vida e a morte. Neste solstício de Inverno celebra-se o dia mais curto do ciclo anual e consequentemente a noite mais longa. É o fim da agonia do Outono em que a temperatura desce, a flora adormece e a fauna entra no ritmo lento da sobrevivência em período de escassez.
Os solstícios e equinócios são marcos significativos desde que a espécie humana teve consciência da forma repetitiva como mudam as estações, assim mudavam as suas fontes de alimentação e todas as outras necessidades de adaptação para sobreviver. Desde então gravaram-se pedras, pintaram-se caves, ergueram-se megalitos, pirâmides, templos e observatórios espaciais. Sempre com o objectivo de compreender o que nos afecta e conjurar o desconhecido.
O reconhecimento da dependência dos ritmos da natureza é tão inevitável como o nascimento de todos os mitos e superstições que se ligam a estes acontecimentos significativos. A necessidade de pensar, de reflectir, obriga também a encontrar os limites da racionalidade. É nestes limites que se estabelecem as diferenças fundamentais nas capacidades de cada um lidar com a realidade que nos ultrapassa. Uns aceitam que o desconhecido natural se conquista pouco a pouco, outros entregam-se a fantasias de sujeição inevitável a entidades sobrenaturais.
Cada civilização que se sobrepõe às anteriores acrescenta a sua própria camada de crenças, lendas e tradições. No calendário gregoriano ocidental que se tornou o standard de facto em todo o mundo, o Natal foi feito coincidir com as celebrações tradicionais do solstício de inverno. Natal, um nascimento entre os que frequentemente acontecem nove meses depois dos festejos do equinócio da Primavera, quando a natureza desperta, muitas espécies animais acasalam e um novo ciclo anual começa verdadeiramente.
Esse nascimento especial aconteceu há cerca de dois mil anos e teve um impacto insignificante nos seus contemporâneos. Mas depois da sua execução, esse judeu reformista teve uma das melhores public relations virais que o mundo já conheceu, feita sobretudo por Gregos dominados pelo Império Romano, já conhecidos na época como de espírito independente e radicais obstinados... 
 Mensageiros e cartas transportaram histórias que, como diz o provérbio “quem conta um conto, acrescenta um ponto”, com o tempo se foram tornando cada vez mais fantasiosas, irracionais e destruidoras dos valores imperiais. Exactamente o que conquistou a imaginação dos crédulos, dos ignorantes, dos pobres e dos excluídos, nessa altura como em todas as épocas e em várias partes do mundo.
As diferentes versões de todos estes mitos e lendas acumulados durante civilização após civilização, foram colorindo as realidades naturais imutáveis e assim produziram as ocasiões para algumas das melhores criações espirituais e artísticas da humanidade, mas também as piores tragédias e aberrações.
Para quem viva em paz e tenha o mínimo indispensável, o solstício de inverno é um tempo de esperança. Reúnem-se as famílias para reforçar os laços entre os seus membros, partilhar e transmitir as tradições comuns, manter a memória das raízes. Que importa que a árvore decorada coexista com o presépio, o pai natal com o menino Jesus, o madeiro arda durante a missa do galo, as noites sejam gélidas.
Este ano, os dias trazem ainda um céu azul, o Sol está quente e estamos vivos. No próximo ano, apesar das dificuldades, vem aí a Primavera.
JSR

Saturday, December 17, 2011

80 - "Fog in Channel, Continent Cut Off”, Mr. Cameron

Cameron Pis ?
“Há nevoeiro no canal, o continente está isolado”... Conta-se que entre as duas grandes guerras europeias do século XX, a expressão era corrente nos boletins meteorológicos ingleses e assim devidamente noticiada pelos jornais.
Mais do que o chauvinismo tradicional e um estado de espírito, isto significa uma auto confiança com raízes testadas pelos factos. Uma sociedade profundamente conservadora precisa de tempo para evoluir e para ser convencida das vantagens de qualquer mudança.
A Inglaterra esteve contra este ultimo conselho europeu e não concordou com as suas decisões. Não são só os interesses da City of London. É a forma e é o conteúdo do acordo. Não hesitou em ficar só contra todos e se há um país ao qual se deve prestar atenção quando isso acontece, esse país é a Inglaterra. Há suficientes razões históricas, antigas e recentes, para justificar essa precaução.
Quando o Marquês de Pombal escreveu a célebre carta ao governo inglês por causa do incêndio de barcos comerciais franceses que saiam dos portos algarvios, pela armada britânica, começou por lembrar que Portugal podia mudar de alianças. Era o tratado de aliança entre os dois países que permitia excepcionalmente aos barcos comerciais ingleses não serem revistados nas alfandegas ao partirem. Assim, podiam sair com o ouro do Brasil que recebiam em pagamento dos bens manufacturados que traziam, ouro que permitiu a construção dessa mesma armada que assegurava o seu poderio naval no mundo.
Nessa altura, a Inglaterra enviou rapidamente um embaixador carregado de explicações e referências a uma "amizade" tão antiga. O risco de perder um bom negocio valia bem um pedido de desculpas. Mas quando Portugal quis reivindicar o "mapa cor de rosa" em África, já não havia ouro a ganhar, por isso recebeu um ultimato em vez de apoio nas negociações de Berlim. Na última guerra, a Inglaterra resistiu absolutamente só até conseguir arrastar os Americanos para o seu lado. O que não era óbvio e que o resto da Europa esqueceu depressa demais.
O pragmatismo inglês nunca deve ser subestimado, nem a capacidade de defender os seus interesses contra tudo e contra todos. Vale sempre a pena fazer uma pausa para perceber porque o "buldogue" inglês se recusa a avançar, em vez de sucumbir a reacções epidérmicas. Pode ser que, afinal, os nossos interessem coincidam. Pode ser que não.
Nesta ultima cimeira europeia, seguir as elucubrações a dois do Directório germano-francês, necessitava um "leap of faith", uma fé cega que as meias-medidas apresentadas seriam suficientes desta vez para restaurar a credibilidade na zona Euro. Não eram, como os mercados e as agências de rating se apressaram a mostrar logo a seguir. Porém, a maioria dos representantes políticos dos estados membros deixaram-se levar pelo sindroma do rebanho e seguiram quem se apresentou a liderar. As propostas da Comissão eram bem mais racionais, mas foram ignoradas.  
Parece que ao menos um, pelas boas e más razões que evocou ou que lhe atribuíram, foi capaz de dizer "não".

JSR

Friday, December 16, 2011

79 - Es ist spät und wir sind müde, Frau Merkel

Gothic Angels...
Está a ficar tarde e estamos cansados das hesitações da Alemanha. A ultima cimeira europeia é mais um exemplo de temporização, do mínimo avanço possível para salvar o Euro e a União, arrancado pelas circunstâncias, um avanço táctico mas não estratégico.
Desde a reunificação, levou tempo até que a Alemanha assumisse as consequências da sua nova entidade no funcionamento da Europa. Os acordos e tratados davam artificialmente o mesmo peso nas instituições da União aos quatro maiores países, apesar da Alemanha se ter tornado muito maior do que os outros três. Hesitou em aceitar as responsabilidades que vêm naturalmente com o facto de ser o país com maior população, ter a maior economia e ser o maior contribuidor para o orçamento comunitário.
As novas gerações perderam os complexos ligados aos conflitos do século passado, mas os dirigentes políticos continuam a privilegiar o veludo da luva que cobre a mão de ferro. Uma precaução útil, não fosse o facto de agora o fazerem com uma mistura de incompetência e voluntarismo maladroit. Até há pouco tempo, insistiam em passar pelas instituições comuns e criar os consensos possíveis, o que não impediu a persistência em seguir um caminho que leve a modelar uma Europa economicamente germanizada. Agora, passam por cima das instituições para estabelecer acordos políticos inter-estados.
Ao mesmo tempo, a França quis contrabalançar a área de influência germânica com uma área latina, sem ter para isso os meios, sem perder de vista os seus próprios interesses e com uma noção inflacionada da sua importância. Esta suposta direcção bicéfala não engana ninguém e compete com as instituições comunitárias. Serve apenas de relações publicas até às próximas eleições nos dois países que, a não ser que alguma coisa inesperada aconteça, devem ser perdidas em ambos os casos.
Quando um navio perde velocidade no mar, fica sujeito a todos os ventos, todas as correntes, o balançar em todas as ondas. Os problemas acima descritos e muitos outros que naturalmente aparecem, podem ser mais facilmente ultrapassados quando em velocidade de cruzeiro, de preferência para um rumo definido. Neste momento há demasiados capitães num navio em perda de velocidade. O resultado é que as grandes decisões estratégicas para a crise presente e para o futuro, ficam subordinadas às tácticas do pequeno eleitoralismo imediato.
JSR

Tuesday, December 13, 2011

78 - L’Europe en a eu assez de Directoires, Monsieur Sarkozy

Membre du Directoire Exécutif
- James Gillray
A Europa já teve uma história suficiente de Directórios. No caso presente, quando dois grandes países conseguem negociar uma convergência de interesses, a política e a democracia acabam subordinadas a teorias económicas já bolorentas. A França cede em quase toda a linha aos fantasmas alemães dos períodos de hiperinflação, em troca duma representação teatral de co-liderança para tentar esconder as suas próprias fragilidades.
A irritação provocada pelos parcos resultados deste último Conselho Europeu encontra uma possível escapatória na reflexão sobre os mitos fundadores da União, entre eles a suposta igualdade dos cidadãos em democracia e entre os estados no direito internacional. Uma falácia em ambos os casos.
Igualdade traduz-se, para os membros duma comunidade, pela posse e exercício dos mesmos direitos e deveres, sociais e políticos, numa democracia, o governo do povo pelo povo (ou através dos seus representantes, por ele eleitos). Porém, a experiência mostra que, mesmo partindo dum nivelamento revolucionário e compulsivo, acaba sempre por se desenvolver uma pequena classe de cidadãos “mais iguais” do que todos os outros.
Para os estados a igualdade é uma ficção baseada no respeito que devem merecer todas as soberanias na sua auto-determinação (supostamente sem interferências exteriores) e na participação voluntária em alianças e tratados. Todavia, o nível de desenvolvimento, a acumulação de riqueza, o peso da população e outros factores, entre os quais a firmeza e capacidade na gestão do estado, torna o peso das nações profundamente desigual nas suas relações.
Neste momento de necessidade e crise europeia, só o avanço rápido para o reforço ou criação de instituições federais, pode salvar do colapso o projecto de união progressiva de países tão desiguais. Também, só assim será possível preservar o exercício democrático dos cidadãos nos destinos da União, através de decisões tomadas pelos seus representantes eleitos para essas instituições e não por Directórios de circunstância.
JSR

Saturday, December 10, 2011

77 - Geo-estratégia, o xadrez dos reis

Life Chess - Shigolev Oleg
A União Europeia está sem rei nem roque. O directório ad-hoc germano-francês duplica, interfere e sobrepõe-se às responsabilidades executivas da Comissão e legislativas do Parlamento.
Apesar de todos os protestos em contrário, a União já avança a velocidades diferentes. Tem-se progressivamente dividido em grupos, união aduaneira para todos, directivas comunitárias com excepções para alguns, união monetária para 17, espaço de livre movimento para além das fronteiras da União. Tem sido incapaz de progredir de forma significativa no estabelecimento de políticas comuns nas áreas financeiras, fiscais, económicas e de relações internacionais.
Vários dos seus membros pretendem e por vezes conseguem, conduzir políticas de protecção dos seus interesses individuais acima dos interesses da União. Acontece em todas as áreas e para obter consensos, e também por falta de alternativas, ocasionalmente arrastam a maioria dos outros em acordos mal equilibrados.
Para resolver a crise presente, é obvio que é necessário estabelecer imediatamente o suporte das dívidas soberanas nos mercados pelo Banco Central Europeu e a termo uma união fiscal e eurobonds. Estes últimos  conselhos europeus, com muita parra e pouca uva, têm a eficácia duma dança da chuva tribal. Porquê?
Porque ninguém quer assumir as verdadeiras razões da desconfiança dos países do Norte em relação ao Sul. Não são tanto os desequilíbrios orçamentais e o aumento galopante das dívidas, mas o que está por detrás disso, a corrupção nos contratos com o estado, as máfias subvertendo a economia de regiões inteiras, a Grécia, Chipre, o Sul e ilhas da Itália, da França, da Espanha e de Portugal. Basta ler os jornais e os relatórios dos Tribunais de Contas. Basta assistir à ineficácia da justiça e às complacências dos que fazem da política trampolim para o outro lado da barricada.
Os países “virtuosos”, e é preciso perceber as razões desta auto-denominação nem sempre merecida, querem ter a certeza que os outros se “reformam”, antes de aceitarem ser seus fiadores. E assim o tempo vai passando, de pequenos passos e grandes promessas, até que um dia destes não resta nada para reformar.
Sem uma estratégia de desenvolvimento comum que se veja, a tentação é sempre grande para os “aprendizes de feiticeiro” europeus de jogar o xadrez dos reis para disfarçar as profundas deficiências internas. Quando a estratégia é confusa, as decisões nunca são suficientes para resolver os problemas que ocorrem, quanto mais uma crise financeira de confiança. Sem um Presidente eleito por todos os europeus e sem um governo federal eleito pelo Parlamento, a Europa não terá nunca um peso geo-estratégico que valha, nem nas decisões internas, nem nas relações internacionais, sejam financeiras, económicas ou políticas.
A União Europeia tem o peso económico dum gigante, mas uma capacidade de projectar poder militar apenas média e um protagonismo político atrofiado. O total é muito inferior à soma das partes. Pior que tudo, está a ficar cada vez menos democrática.
JSR

Thursday, December 1, 2011

76 - O Rapto da Europa

Polonia Restituta
 (Odrodzenia Polski)
A Europa (o que significa hoje, por ordem de importância: a zona euro, a União Europeia e todos os países que constituem esta civilização coerente), está nesta altura entregue a uma geração política medíocre. Mais de meio século de progresso conquistado com inteligência, perseverança e trabalho árduo estão em risco grave de se perder.
A necessidade aguça o engenho, tanto como a facilidade provoca a complacência.
As provações da última guerra criaram uma geração motivada para o pragmatismo e dirigentes políticos tendencialmente escolhidos pelo mérito. As instituições nacionais e supranacionais que criaram desde então asseguraram um longo período de prosperidade e progresso.
A geração seguinte habituou-se ao aumento progressivo do nível de vida como um direito adquirido e a escolher dirigentes que se assemelham cada vez mais à maioria dos cidadãos que os elegem, políticos sem capacidade de liderar, preocupados em reflectir os sentimentos de populações cada vez mais frívolas e egoístas, mas ainda assustadoramente crédulas. Chega-se assim aos limites de eficiência da democracia e à beira do abismo.
No meio desta competição de... incompetências, detectam-se algumas vozes racionais e corajosas. Vale a pena salientar o discurso feito em Berlim a 28 de Novembro, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radoslaw Sikorski, e ao qual não foi dada toda a importância que merece.
Sikorski, com o peso histórico dum país várias vezes esmagado entre os expansionismos da Alemanha e da Rússia, foi a Berlim dizer claramente verdades como punhos, incluindo o facto de que neste momento teme mais a inactividade da Alemanha, que pode causar uma crise de proporções apocalípticas, do que a sua “actividade” passada.
Começou por lembrar as causas e os culpados do desmembramento da antiga Jugoslávia e da guerra que se seguiu, como exemplo do que pode acontecer à Europa se esta crise da união monetária não for resolvida rapidamente e bem.
Citou Kant para sublinhar a importância moral do dinheiro nas relações entre os indivíduos e entre as nações, a honestidade e a responsabilidade nas suas transacções como fundações de qualquer ordem moral. Para a União Europeia, a responsabilidade e a solidariedade são imperativos categóricos, a responsabilidade pelas decisões e a solidariedade nas dificuldades.
Num ataque frontal às responsabilidade da Alemanha nesta crise, uma crise de confiança, lembrou que o Pacto de Estabilidade já foi quebrado 60 vezes e não só pelos países pequenos em dificuldades, começou logo pelos países fundadores, incluindo a Alemanha.
A escolha agora é entre uma integração mais profunda ou o colapso. A integração significa estabelecer imediatamente um verdadeiro Banco Central e uma federação fiscal, assim como aceitar futuramente a eleição directa dum Presidente Europeu e de listas pan-europeias para o Parlamento.
Nem a Inglaterra escapou a um puxão de orelhas: Se não se querem juntar a nós, saiam do caminho. E comecem por explicar ao povo que as decisões europeias não são diktats de Bruxelas, mas o resultado de acordos nos quais participam livremente.
Lembrou aos seus anfitriões que a Alemanha é o maior beneficiário dos presentes acordos e portanto quem tem a maior obrigação de os apoiar. Que o maior perigo para a segurança e prosperidade da Polónia (como para o resto da Europa) não são as ameaças exteriores (terrorismo, mísseis russos, etc.), mas o colapso da zona euro à qual o seu país se espera juntar em breve, um sinal de confiança.
Concluiu dizendo que estamos à beira dum precipício e a Alemanha é a nação indispensável para liderar, mas não dominar, a Europa. Uma missão histórica para a reforma e a salvação da zona euro, na qual não pode falhar. Tal como ele é o primeiro membro dum governo na história da Polónia, a afirmar que teme menos o poder alemão do que a sua inactividade.
As gerações futuras julgar-nos-ão pela nossa responsabilidade no que fizermos agora, ou deixarmos de fazer.
JSR

Thursday, November 24, 2011

75 - Clamando Contra os Deuses Desconhecidos

Calçada Portuguesa

Dia de greve geral
Longe de ser apenas uma perda de tempo e de dinheiro (o que também é), esta greve é útil internamente e necessária para uso externo. Internamente, permite descarregar as tensões acumuladas por medidas duras de redução do nível de vida da população. Externamente, é bom que os parceiros europeus recebam a mensagem de que os portugueses, apesar da consciência cívica que muitos possam ter, atingiram os limites da paciência. Sem abrandar as reformas indispensáveis ao futuro do país, são necessárias medidas europeias para garantir a credibilidade do euro e a retoma do crescimento económico dos países mais endividados, particularmente através duma maior integração política e da emissão de obrigações comuns.
Mentalidade de súbditos
Em tempos de crise, desde sempre os povos se voltam para quem julgam ter os poderes necessários para os ajudar, sejam os deuses em quem acreditam ou as autoridades temporais que se conduzem como seus intérpretes. Milénios de submissão a senhores temporais e religiosos impôs  nos indivíduos uma mentalidade de súbditos: desde que eu obedeça ao senhor, o senhor protege-me; mesmo que eu esteja numa situação desesperada, o Senhor fará um milagre. “Eles” sabem e podem tudo, persiste em muitas mentalidades mesmo após as revoluções políticas e científicas do Iluminismo ou Era da Razão. Continuam a confiar a forças exteriores o que deve ser o domínio do livre arbítrio e da responsabilidade individual. Esta confusão leva a que os cidadãos mal ensinados a pensar, não façam a distinção entre as crenças supersticiosas em entidades todo-poderosas e os governos democráticos cujos poderes são limitados pelo mandato dos eleitores e pela realidade nacional e supranacional.
Consciência social
Mas há alguém que não pretenda, por convicção ética ou fingimento estridente, estar a favor das boas causas? É fácil descrever tudo o que vai mal, propor tudo o que o povo quer ouvir, é assim que prosperam os políticos populistas... As diferenças começam a aparecer quando é preciso passar das declarações piedosas à acção sustentada: nas urgências sociais, na equidade na distribuição dos recursos, no desenvolvimento económico, na representatividade política. As diferenças tornam-se fundamentais quando a sobrevivência duma comunidade depende da capacidade de distinguir entre as pregações demagógicas baseadas na fé cega dos dogmas e as análises racionais sobre a eficácia das medidas, sejam elas políticas, económicas ou sociais.
Manifestos e Encíclicas
Vous n’avez pas le monopole du coeur”, respondeu Giscard a Mitterrand na campanha presidencial francesa de 1974. Afagar “as massas” no sentido do pelo é uma prática corrente e que atrai sempre a simpatia dos pobres de espírito. O tema socialista que deu origem àquela réplica “C'est une affaire de cœur et non pas seulement d'intelligence”, tem sido glosado em Portugal desde então e em todos os tons, um dos quais o célebre “Há mais vida para além do Orçamento” de Sampaio em 2003, que inspirou os anos de desgoverno e irresponsabilidade que se seguiram, ou o manifesto de Soares agora. Citando o manifesto: “Os obscuros jogos do capital podem fazer desaparecer a própria democracia, como reconheceu a Igreja.” Strange bedfellows... Pois, por muitas qualidades que se queira atribuir à Igreja, a democracia não está, nunca esteve, entre elas. “O recente recurso a governos tecnocratas na Grécia e na Itália exemplifica os perigos que alguns regimes democráticos podem correr na actual emergência.” Certo, correm perigo os regimes incompetentes e é bom que esses desapareçam, mas felizmente democracia e incompetência não são sinónimos.
Era só o que faltava
Até agora, os partidos e movimentos “de esquerda”  juntavam-se regularmente às diversas “igrejas” (no sentido próprio e no figurado), para a organização de manifestações em defesa de causas sociais, dos trabalhadores, dos pobres e dos oprimidos. Neste momento, os diáconos das capelas socialistas, burguesas e seculares, invocam a bênção da Igreja para se juntar às outras esquerdas, aos sindicatos e descontentes de todos os quadrantes, no facilitismo da contestação contra a “grande conspiração” dos mercados de capitais, contra os Bancos onde o dinheiro devia estar e não está, contra as organizações que avançam créditos mas só em troca de medidas de austeridade. Uma contestação geral contra os “deuses desconhecidos".
Marchas e Procissões
Acima de tudo, uma greve é uma tentativa de intimidação contra a autoridade, contra o poder instituído. Há muitos tipos de marchas, manifestações e procissões. Cada região do mundo e cada zona cultural apresenta as suas características. Em comum têm uma súplica misturada de ameaça  aos deuses e aos seus pontífices, os que fazem a ponte com o comum dos mortais, para que ouçam as suas reivindicações. Quando essa ponte de confiança se quebra, a história mostra que o povo acaba por se revoltar e destruir uns e outros.
         Cada país tem as elites que merece e as greves de que é capaz.
JSR