Tuesday, June 21, 2011

50 - O Render da Guarda

The Guardians
Este é um tempo de mudança, chega ao governo uma nova geração. Já vem muito atrasada, devia ter chegado com as eleições de 2009, mas mais vale tarde do que nunca.
Erros de paralaxe
Nas últimas semanas, a actividade política e as notícias têm sido uma verdadeira competição de erros de paralaxe (diz-se que há um erro de paralaxe quando uma observação é deturpada por um desvio óptico, devido ao ângulo de visão do observador; em linguagem mais simples, quando um objecto parece estar num sítio mas na realidade está noutro).
Uma campanha eleitoral onde se falou, discutiu e noticiou tudo, menos o essencial: a implementação das medidas de poupança acordadas com os financiadores externos e a futura recuperação económica do país.
A publicação de sondagens manifestamente absurdas com o único objectivo de manter o suspense. Como se a vida real fosse agora mais um “reality show”, uma evidência da degradação social descrita nos dois livros sobre “L’Etat spectacle” de Roger-Gérard Schwartzenberg.
As encenações televisivas da política, o culto acrítico do chefe, a exibição da vida privada em vez da substância. E no fim da linha, o triunfo da opinião pateta sobre a democracia.
Finalmente, o resultado das eleições veio repor a realidade, que pode não ser a ideal nem mesmo a necessária, mas é a que se pode arranjar nas circunstâncias presentes e com a qual o país vai ter que viver.
Um Governo de “maçaricos”
Ver chegar ao poder uma nova geração é simultaneamente motivo de esperança e de apreensão.
A maioria dos ministros estão na força da vida, são inteligentes, bem informados, com ideias próprias, experiência dos meios internacionais, sem comprometimentos com os grupos de interesses nacionais, e tudo isto é bom. Não estão dependentes dos que vivem de conluios e favores a fim de assegurarem o seu futuro após os anos magros no governo, porque terão sempre oportunidades dentro e fora do país devido apenas aos seus méritos pessoais, e isto é óptimo.
Mas são uns “maçaricos”... e isto é preocupante. Para quem não saiba, e agora que já não há serviço militar obrigatório, muitos não saberão, “maçarico” é o soldado durante a recruta.
É na falta de experiência de gestão e de conhecimento do terreno real, que residem as dúvidas quanto à competência dos ministros nomeados, particularmente para a Economia e para as Finanças. Vai ser preciso implementar as reformas, doa a quem doer e aqui vão pagar igualmente os justos e os pecadores. Nem uns nem outros se vão deixar tosquiar sem protestos e manifestações. Ter experiência de gestão, saber quando mandar, persuadir ou negociar, pode fazer toda a diferença. A sua falta vai ser difícil de compensar num período muito duro e desgastante para todos os intervenientes.
Elefantes e ratos
Os elefantes da política interna, que toda a gente conhece em Portugal devido ao palco permanente das televisões, são quase todos ratos desconhecidos nos meios internacionais. Os mais capazes não aceitaram trocar as suas mordomias actuais por lugares mal pagos num governo em tempo de vacas magras.
Estes dois novos ministros, da Economia e das Finanças, embora sejam estrangeirados quase desconhecidos no país, têm boa credibilidade internacional, um como académico e o outro como especialista, nas áreas que vão ter que gerir. Têm o mérito de aceitarem voltar, sabendo que em breve se encontrarão debaixo do fogo da contestação às medidas impopulares que vão ter que impor.
Além disso, é notável que um pequeno país nesta situação difícil, tenha entre a sua diáspora não só o presidente da Comissão Europeia e o director do Departamento Europeu do FMI, mas também uma reserva de profissionais competentes ligados às actividades económicas e financeiras.
Isto demonstra várias coisas, entre elas que o país dispõe duma profundidade intelectual superior à sua performance como estado, que a rigidez da constituição, das leis e das más práticas vindas do PREC continuam a sufocar o desenvolvimento do país e a afastar os melhores dos seus quadros e da sua força produtiva.
A esperada contestação
Embora toda a gente já saiba que é preciso absolutamente fazer as reformas enumeradas pela chamada “troika” (os três cavalos que foram chamados a puxar a carroça portuguesa em dificuldades...), e mais outras reformas óbvias que não estão nessa lista, alguns grupos políticos e sindicais vivem num universo paralelo,  desligados da realidade do país, numa espécie de umbiguismo esquizofrénico.
Uns não compreendem que o tempo dos direitos adquiridos acabou, porque se acabou também o crédito para pagar os custos excessivos em relação às receitas. Também porque para proteger os privilégios de uns se aumenta o desemprego dos outros.
Outros reconhecem tarde demais que o populismo tem os seus limites, que a maioria das pessoas que os seguiam acabam por se aperceber que não há almoços grátis, que os credores não aceitam que se reestruturem dívidas para ficar tudo como antes, que isso só será possível depois das reformas, quando a previsão do crescimento da economia puder vir a compensar as perdas eventuais.
A reestruturação da dívida acabará por ser necessária, não para evitar as reformas, sem as quais o país não tem futuro, mas como complemento das reformas e em devido tempo, para estancar o pagamento de juros excessivos, permitir primeiro o crescimento da economia e mais tarde o retorno normal ao mercado de capitais.
Votos
Vamos desejar que os novos ministros se aguentem nestes testes de endurance, que nos surpreendam pela positiva, que saibam ter o golpe de rins oportuno para resolver os problemas internos, o golpe de asa necessário para ultrapassar a fraqueza das instituições europeias e a coragem para enfrentar  os grupos de credores e faze-los ceder primeiro.
Vamos também desejar que os portugueses mostrem a capacidade e a paciência de aguentar civilizadamente os anos difíceis que nos esperam, de compreenderem que não é com a gasolina das greves que se apaga o fogo que devasta a economia. Tudo isto sem nunca perderem a esperança que dias melhores acabarão por vir.
JSR

Tuesday, May 31, 2011

49 - Eleições: A Mensagem e os Mensageiros


Falta um...
Published 2/6/2011 by "Jornal do Fundão". 

As próximas eleições não são apenas para escolha dos esbirros que vão fazer subir esta nação ao pelourinho da austeridade. A sentença foi lavrada no acordo que o governo assinou com os representantes dos credores do Estado. Mas não se ouve discutir os termos desta mensagem.
Os partidos fazem uma grande berraria, mas até parece que a escolha entre uns e outros está apenas nos detalhes da aplicação das penas. Um partido prefere cortar primeiro a orelha esquerda. Outro acha que é melhor cortar a orelha direita. O terceiro não tem preferência entre as orelhas, mas quer ajudar a segurar o cabo da faca. Depois, há um quarto que nega que o pelourinho exista. O quinto sugere que se pusermos voluntariamente o nariz no cepo, talvez se possa evitar o corte das orelhas...
As diferenças apregoadas são catálogos de hipocrisias, porque eventualmente tudo terá que ser cortado, mesmo algumas outras excrescências não mencionadas, sob a forma de vendas, privatizações, encerramentos, impostos e reduções de benefícios.
Estas eleições são também acerca de quem terá a capacidade de implementar efectivamente as cláusulas desse acordo e fazer as reformas necessárias, mas impopulares. Por isso não se ouve falar delas nesta espécie de campanha - jogo de escondidas - ninguém quer ser o mensageiro. Porque não vai ser fácil, nem há nenhuma certeza de ser conseguido. Mas sobretudo, sobretudo estas eleições deveriam ser acerca da escolha de quem terá a coragem de, uma vez as reformas feitas e quando chegar o momento, saber renegociar a dívida de forma a pôr a economia a crescer antes que seja tarde demais.
Os políticos
A classe política portuguesa é naturalmente uma mistura de pessoas sinceras e empenhadas, gente de bem e competente, mas também populistas, actores, malandros, aldrabões de feira, aproveitadores, corruptos e ignorantes. As análises correctas e as declarações disparatadas vêm de todos os quadrantes políticos, embora haja especializações... A pressão para se venderem a uma maioria de eleitores politicamente indiferentes, obriga a contorções que fazem os partidos e os seus responsáveis parecerem piores do que realmente são. Acabou a democracia, sem nunca ter realmente começado, e a “partidocracia” está pelas ruas da amargura.
Muitos políticos portugueses podem não ser grande coisa, mas realmente não são piores do que a mesma classe nos outros países (mais ou menos...) desenvolvidos. Porquê? Porque os melhores de cada país raramente aceitam participar directamente em actividades políticas, com a consequente exposição e bisbilhotice mediática sobre eles e as suas famílias. Porque podem ter maiores recompensas e melhor qualidade de vida em actividades privadas, fora ou dentro dos seus países de origem.
Porque os que ficam, podem sempre apoiar políticos promissores e ambiciosos, que lançam e financiam como num estábulo de cavalos de corrida, apostando em que algum ficará eventualmente bem colocado para favorecer os seus interesses. Porque assim evitam de se sujar directamente com a lama da pista. Mais tarde, se o “cavalo” tiver sido suficientemente rentável, acaba os seus dias nas verdes pastagens dos conselhos de administração das empresas para as quais correu...
Os eleitores
A julgar pelas sondagens, parece que muitos eleitores portugueses são menos exigentes do que a média dos eleitores dos tais países com os quais nos comparamos. Avaliam a política com os mesmos critérios com que assistem na televisão a concursos, telenovelas e outros programas igualmente imbecilizantes. São  pessoas crédulas que se deixam levar por contos do vigário. Por essas e por outras é que o país está falido.
Usando a metáfora estafada do futebol, se o clube teve uma época desgraçada e desceu de divisão, qual é a primeira coisa que acontece? Muda-se o treinador. Pois, mas parece que neste canto da Europa uma parte da tribo ainda acredita em milagres, que um mau treinador pode de repente começar a ganhar jogos.
Noutros países com maior percentagem de eleitores já mais alerta, quando a economia não funciona os governos são postos na rua sem dó nem piedade. “É a economia, estúpido!”, lembram-se?
“Born again”
Como é possível que o governo e um partido que arruinaram o país, por haver uma crise é certo, mas também por incompetência, por porem os interessem dos seus apaniguados acima dos interesses da colectividade, consigam apresentar-se diante dos eleitores como virgens ofendidas?
Torna-se possível quando os conselheiros eleitorais sabem vender o seu produto. São os mesmos que trabalham a imagem, a narrativa e o marketing, não só de empresas legítimas que querem aumentar os seus lucros, mas também de malandros que querem escapar à justiça e, mais importante para este argumento, de seitas religiosas que sugam o tutano aos crédulos de muitos países. Uma das técnicas é o “renascimento”, através do qual desaparecem todos os pecados e crimes passados. O indivíduo toma um banho ritual e pronto, “nasce” de novo, “is born again”... sem remorsos e sem vergonha.
Democracias
O grande desafio das democracias é a sua sobrevivência, desde o momento em que é inscrito na Constituição que o governo é eleito por maioria popular e até que a maioria dos cidadãos votantes saibam realmente o que fazem. Após uma mudança de regime, que é sempre provocada por uma minoria de esclarecidos ou iluminados, a maioria acaba por levar ao poder grupos extremistas, utópicos ou reaccionários, que contradizem os objectivos iniciais e levam a grandes desilusões, a desastres e finalmente a mudanças radicais.
Demora muito tempo esta evolução difícil, até que a educação chegue a todos, até que a necessidade do equilíbrio dos deveres e dos direitos da cidadania seja compreendida pelas grandes massas populares. Até esse momento de desenvolvimento nacional, as eleições são ganhas pelas melhores campanhas publicitárias, as que vendem candidatos como sabões para lavar a roupa.
O papel dos “media”
Este estado de barbárie mantém-se também com a cultura de massas nivelada pelo mais baixo, a coscuvilhice em vez de informação, a leviandade em vez da substância, a “fama” gratuita em vez do esforço individual e do reconhecimento do mérito.
Os responsáveis dos “media” de referência, sobretudo em tempo de campanha eleitoral, deveriam ter como critério de selecção daquilo que transmitem aos espectadores ou leitores, uma célebre citação de Eleanor Roosevelt: “As grandes mentes discutem ideias, as mentes médias discutem factos, as pequenas mentes discutem pessoas”. (Great minds discuss ideas, average minds discuss events, small minds discuss people).
Uma excelente forma também, para os eleitores avaliarem os candidatos a lugares políticos.
JSR



Sunday, May 29, 2011

48 - A Casa das Histórias

Fry's Electronics - Phoenix, Arizona
Da volta a Cascais aqui há uns tempos, apareceu um ersatz de templo Asteca no meio da vila. 
Aquelas reproduções de templos em cor-de-rosa ou tons de vermelho-terra, são comuns no México e nas zonas fronteiriças dos USA, onde normalmente albergam lojas e restaurantes. Será isto uma tentativa degenerada de aliança de civilizações?
Era preciso visitar. Afinal chama-se Casa das Histórias Paula Rego. A arquitectura da coisa já causa ligeiros ataques de urticária a quem passa perto. O conteúdo, por sua vez, recorda Jerónimo Bosch ou os pesadelos causados pelas bandas desenhadas dos anos setenta do século passado, particularmente as que contavam as aventuras dum geneticista louco que cruzava humanos com animais. A grande arte da BD transcrita para a grande arte da pintura...
Porém, de repente fez-se luz neste espírito obtuso para as coerências das grandes artes contemporâneas na arquitectura e na pintura. Claro que a construção tinha que reproduzir a arquitectura dum  mausoléu Azteca, pois se os quadros no seu interior reproduzem as figuras e inscrições que se encontram nos templos dessa mesma civilização...
Tochtli - Calendário Asteca
Os templos antigos inspiram a arquitectura, os seus hieróglifos e ideogramas inspiram a banda desenhada e a banda desenhada inspira a pintura. As bibliotecas estão cheias de tratados sobre a inter-fertilização das artes primitivas com as artes modernas. Dá que pensar, de preferência pouco, para não haver tentações de ler mais um livro dogmático sobre interpretações da linguagem artística... 

JSR

Monday, May 23, 2011

47 - Observatório da Língua Portuguesa

A língua portuguesa é mais do que isto
Vale a pena seguir e participar nas actividades desta organização. Há algum tempo, foi publicado no seu site um artigo sobre “Os Adamastores da Língua Portuguesa”. Um título bem encontrado para um artigo bem pensado.
Todavia, dependendo do ponto de vista onde cada um se encontra, assim muda a forma como se entende a defesa da língua, a definição do que é importante e daquilo com o qual já não vale a pena perder-se tempo.
Os idiomas foram e são ainda hoje (com a excepção das línguas francas de verdadeira mistura), expressões de particularismos culturais e mecanismos de defesa contra competidores e inimigos. Instrumentos também de domínios imperiais, ou de resistência a esses imperialismos. São hoje a última barreira contra a homogeneização, que será a longo termo uma consequência triste da globalização, em contraste com outras que são positivas. Os idiomas são fontes de enriquecimento na diversidade, mas também de incompreensões e conflitos.
Quanto aos Adamastores, Camões tinha razão no seu tempo, Mia Couto já não tem no nosso: “O mar foi ontem o que o idioma pode ser hoje, falta vencer alguns Adamastores”. A frase é atraente, mas inexacta, uma liberdade poética que acaricia o ego no sentido do pelo, mas uma falta de realismo.
O mar foi ontem a melhor e por vezes única forma de ligação, um meio de comunicação, o veículo para esclarecer as incertezas sobre o que havia do outro lado. Historicamente, isso foi sendo feito em zonas geográficas cada vez maiores até que coube aos portugueses o privilégio de tornar global essa descoberta.
O mar é sempre uma ponte entre sociedades diferentes para trocas comerciais, interpenetração cultural e competição. De acordo com a evolução natural, favorece o sucesso do dinamismo contra a estagnação.
Já não há Adamastores na superfície da Terra (resta a exploração espacial), no sentido épico de enfrentar o grande desconhecido, o perigo supersticioso, os obstáculos físicos inultrapassáveis. Há pequenos Adamastores conhecidos, mas são políticos, económicos, financeiros, comerciais, religiosos, burocráticos, etc.  Todas as formas por que se traduz a competição pelos recursos.
Também já não há Adamastores linguísticos. Os idiomas são instrumentos de comunicação primeiro e culturais depois. Na comunicação, as traduções e interpretações automáticas dão uma ideia cada vez precisa dos conteúdos, embora ainda muito recheados de frases incompreensíveis. Dentro de pouco tempo, de importante restará o espaço cultural.
Os últimos Adamastores são os da estandardização, sobretudo no mundo digital. Que meio se usa para comunicar verbalmente e por escrito, como se regista, guarda  e transmite informação, quais os instrumentos acordados para compatibilidades no desenvolvimento e utilização das ciências e das tecnologias. A pressão comercial e popular faz com que estas guerras acabem cada vez mais depressa.
O domínio político e económico dos Estados Unidos a seguir à última guerra mundial, impôs o inglês como língua dominante. A expansão da internet como instrumento de comunicação global e instantânea, consolidou esse facto para o futuro previsível. Mesmo os media que transmitem para o mundo as sensibilidades regionais e nacionais, exprimem-se em inglês (XinHua, Al Jazeera, France 24, etc.).
As línguas multi-nacionais como o português  têm que se impor em igualdade com o inglês em todos os fora onde ainda subsiste o pluri-linguismo oficial, resistir como instrumento de comunicação e educação nos países em que é língua oficial, e sobretudo investir no seu florescimento e reconhecimento como veículo cultural.
Para se obter resultados, é preciso separar o que é realista do que não é. Focar esforços e recursos no essencial e deixar o secundário ao seu destino. Cada coisa no seu lugar. Mais do que referencias históricas, há medidas concretas a tomar, baseadas no bom senso e dignidade próprios, e guerras a ganhar no interesse mútuo, em relação aos outros países lusófonos.
Todos os representantes institucionais da República Portuguesa no desempenho das suas funções devem exprimir-se exclusivamente na língua portuguesa, mesmo que falem fluentemente outras línguas. Em caso nenhum, absolutamente nunca, se podem expor ao ridículo de palrarem “portinhol”, “français de petit nègre” ou “pidgin english”. Nunca ceder a tentações parolas, ou tentar mostrar cosmopolitismo quando se é representante oficial de um país e duma cultura.
Em todos as organizações internacionais que tenham vários idiomas como línguas oficiais, todos os meios são bons para que a língua portuguesa não seja injustamente descriminada. Mesmo sabendo que a evolução normal, por razões de eficácia e de economia, tende para o mono-linguismo.
Para os países de língua portuguesa é indispensável que a educação transmita o conhecimento da língua, da história, da geografia e da literatura de todos, em graus diferenciados de acordo com as suas particularidades individuais.
Mas em zonas lusófonas periféricas há batalhas perdidas, como Goa e Macau. Outras  que se podem perder por falta de investimento e vontade mútua, por não se aperceberem dos riscos que correm em não manterem um máximo de diferenciação em relação aos vizinhos mais poderosos, como na Guiné e em Timor.
Sobre tudo isto há excesso de informação, mas incapacidade de transformar essa informação em conhecimento geral e implementação. Tudo se encontra, mas com o preço de dispersão da atenção, excesso de alternativas e mesmo por vezes um  facilitismo estéril. Isto é um trabalho de todos. Sem desculpas.

JSR

Friday, May 20, 2011

46 - Mais um “Bonfire of the Vanities”

The Bonfire of Vanities - Dick Watkins 
O Managing Director do Fundo Monetário Internacional demitiu-se. Pelas razões indicadas no comunicado e por várias outras. Independentemente de outras considerações, o chefe duma organização internacional com a importância e reputação do FMI não deve ter relações sexuais com a criada de quarto dum hotel. Não interessa se foram consentidas ou não, não interessa se foi uma cilada ou não. Interessa que esse simples facto demonstra “poor judgement” e falta de auto-controle, o que o desqualifica para o lugar que desempenhava.
Uma das outras perguntas que se colocam, é como foi possível tal erro de casting, quando as tendências do homem eram conhecidas e bem documentadas. Foi possível porque é sempre extremamente difícil encontrar a pessoa certa para este lugar em particular. Candidatos há muitos e noutras organizações internacionais vêm-se os desastres frequentes que são resultado de dar preferência às considerações de baixa política, sobre a competência e capacidade.
O grupo dentro do qual é possível a escolha é extremamente limitado e, sendo humanos, são todos imperfeitos. Os homens e mulheres sem história não têm carisma, essa qualidade difícil de definir mas imediatamente aparente. Os machos e fêmeas Alpha, vêm acompanhados dos defeitos correspondentes às suas qualidades e, de entre esses defeitos, as tendências sexuais exacerbadas são as mais comuns e geralmente as menos perigosas.
 O poder é um grande afrodisíaco e geralmente funciona em ambos os sentidos, por isso é controlado por códigos de conduta que são quase sempre eficazes, na prevenção e na repressão. Piores defeitos são a incapacidade de tomar decisões, a falta de imaginação, astúcia ou autoridade, a corruptibilidade, a incompetência.
O resto tem a ver com importantes questões pessoais e gerais, o respeito pelos direitos dos indivíduos, o bom funcionamento da justiça e suas consequências políticas. Questões secundárias são as hipocrisias morais, os diferentes ambientes culturais, a predação pelos media na procura dos detalhes escabrosos.
Este triste “caso” tem muitos dos ingredientes do célebre “The Bonfire of the Vanities”, no funcionamento das sociedades ocidentais em geral e da americana em particular. As enormes desigualdades sociais que levam ao sentimento de impunidade de alguns, nos dois extremos da escala, aliás. O tratamento diferenciado pela polícia e pela justiça, sempre preocupadas com a percepção mediática em relação a certo tipo de pessoas, de comportamentos, de sensibilidades, de minorias, etc. 

As diferenças de culturas são também interessantes de observar nos media: a procura do rigor dos factos pelos órgãos de referência ingleses, a politização imediata dos americanos, a emoção embaraçada dos franceses e a coscuvilhice inexacta dos portugueses. As diferenças dos sistemas de justiça são também grandes mas mais simples: uns funcionam, outros não.
Há um provérbio russo que, traduzido sem o vernacular, diz mais ou menos o seguinte:  “Não se admire a raposa do que lhe acontece, quando fica presa ao entrar na toca do coelho...” 
JSR  

Monday, May 16, 2011

45 - Dominique... nique... nique...*

St Dominique
peint par Fra Angelico...
Chega de e-mails surpreendidos e mensagens humorísticas ou sarcásticas. 
Pronto, pronto... é preciso comentar a prisão de Dominique Strauss-Kahn (DSK) em Nova York, por uma alegada tentativa de passade com... uma criada de quarto dum Sofitel?! O Managing Director do FMI...
Das duas uma, ou o homem foi vítima dum guet-hapens ou mais provavelmente precisa de tratamento psiquiátrico. Vejamos, pela devida ordem:
DSK é um Francês tipicamente parisiense, da chamada gauche caviar. Como Mitterrand e muitos outros, estão habituados a que os media locais ignorem deliberadamente este tipos de assuntos, considerados com sendo do foro exclusivamente pessoal. Tem uma bagagem considerável e conhecida, de todo o tipo de histórias com mulheres, suficientes para encher um livro de crónicas escritas por alguém com o talento dum Manuel Maria Barbosa du Bocage...
Quando chegou ao Fundo e para o caso de estar esquecido, os advogados da instituição avisaram-no com toda a formalidade de que já não estava em Paris. Mesmo assim aproveitou logo de seguida uma ida a Davos para se envolver com uma economista da sua delegação. Por muito menos foi-se embora um Presidente do Banco Mundial. O Board do Fundo só lhe puxou as orelhas por ter mostrado poor judgement e não o pôs logo fora, pois havia razões fortes de expediência política para evitar ter que escolher um substituto. Mas ficou claro que DSK é certificadamente chanfrado.
Não podia haver maior mismatch com uma organização eminentemente straight laced, formal, ciosa da sua reputação de decorum, qualidade técnica e incorruptibilidade. Por vezes mesmo opaca. As pessoas que a compõem não são nem melhores nem piores do que as outras, mas são definitivamente mais discretas. Até nos títulos profissionais. O Banco Mundial tem um Presidente e uma chusma de Vice-Presidentes. O Fundo tem um Managing Director com os seus Deputies e Directores de Departamento e Chefes de Divisão. Dois outros Franceses foram já Managing Directors e tudo correu bem.
Todavia, a história que aparece agora nos media parece muito mal contada. DSK é um baixote com mais de sessenta anos e estava desarmado. A probabilidade de ter obrigado uma mulher de trinta, com a robustez física suficiente para trabalhar como criada de quartos, a fazer-lhe sexo oral é francamente difícil de... sorry pela alusão directa... engolir. Será assim tão difícil para a rapariga manter a boca fechada... ou morder?
Alguma coisa mais se passou. É aqui que levantam voo as teorias da conspiração. As sondagens eram-lhe favoráveis num eventual confronto com Sarkozy nas próximas presidenciais em França. Já durante as últimas eleições, que Sarkozy ganhou contra Dominique (esse não nicava nada que se soubesse...) de Villepin, passou-se entre os dois uma história obscura de difamação, um enredo policial que ainda se arrasta pelos tribunais.
Os serviços secretos franceses são conhecidos pelas suas audácias, sobretudo desde que foram apanhados a afundar o “Rainbow Warrior” na Nova Zelândia, o navio da Greenpeace no qual morreu um fotógrafo português. Poderá esta imbecilidade de Strauss-Kahn ser também an affair of entrapment ?
Certo é que este é um mau momento para tais desventuras pessoais. DSK estava a desempenhar um papel importante na evolução do Fundo para uma maior preocupação com a sustentabilidade económica dos programas de estabilização financeira, na ajuda aos países da zona Euro e futuramente, no caso de ganhar as eleições francesas, era um dos raros estadistas com standing e visão para guiar positivamente a evolução da União Europeia. C'est dommage.

JSR
-----
*Nota: Título duma canção popular em francês. Niquer = nicar, copular.

Wednesday, May 11, 2011

44 - O Monstro - A Kindergarten on Drugs

Kindergarten
Architecture Creativity Prize
Ao voltar ao seu poiso de Cascais e abrir a janela do escritório, o Albatroz deu de caras com o monstro da Legoland.
Uma construção que parece o pesadelo duma criança de infantário, que vê uma brincadeira com peças do Lego transformar-se num enorme monstro negro junto ao mar. Vem à memória o livro “All I really need to know I learned in  kindergarten”, de Robert Fulghum, cuja influência chegou também, obviamente, à arquitectura...
O edifício do hotel Estoril Sol que lá estava antes também não tinha sido concebido por um arquitecto em dia de inspiração, mesmo para a época, mas isto ultrapassa todas as agressões paisagísticas na baía.
Até há pouco tempo, o monstro estava tapado da vista das janelas do poiso do Albatroz, pelas árvores do jardim duma vivenda de telhado verde. Habitada primeiro por pessoas que mantinham o jardim impecavelmente tratado. De súbito, apareceu a entrar e sair um grupo de esgrouviados, com ar de “apanhados” por alguma dessas seitas que enriquecem a explorar os pobres, com preços tabelados para milagres. Bon, on s’égare...  
O certo é que a vivenda se tornou numa espécie de comuna e agora o jardim está abandonado, buxos e ervas crescem selvagens, deitaram abaixo as árvores e o telhado está “ratado” nos beirais.
Raios os partam. Havia uma vista para o mar e para as árvores. Agora, no lugar das árvores está uma savana e logo a seguir avista-se a demência dum “kindergarten on drugs”...

JSR

Monday, May 9, 2011

43 - The Assassins - Os Assassinos

An agent of the Order of Assassins fatally stabs Nizam al-Mulk, 
a Seljuk vizier (Topkapi Palace Museum)

Osama bin Laden was disposed of. Good riddance, at long last, of an infamous murderer. Ensconced where everybody knew he would be, one of the deviously pious countries where the rule of law is merely a secular wish. Religious banditry is nothing new, but with him it went global.
The sect of the “Assassins” existed during the Dark Ages, from the 11th to the 13th centuries, when the Persians dominated the Middle East. They inhabited mountain fortresses and were trained killers, “users of hashish”, responsible for the elimination of any authorities opposing their leader, "the old man of the mountain” and the sect’s beliefs. Sounds familiar?
Nothing much changed since then, in that awkward region of the world. 
--- 
Osama bin Laden foi eliminado. Até que enfim o mundo se vê livre de um famigerado assassino. Escondido onde todos sabiam que ele estaria, um dos países de religiosidade tortuosa, nos quais o respeito pela lei é apenas um desejo secular. O banditismo religioso não é nada de novo, mas com ele tornou-se global.
A seita dos "Assassinos" existiu durante a Idade das Trevas, dos séculos 11 a 13, quando os Persas dominavam o Médio Oriente. Habitavam fortalezas nas montanhas e foram assassinos treinados, "os drogados com haxixe", responsáveis pela eliminação de quaisquer autoridades que se opusessem ao seu líder, "o velho homem da montanha" e às crenças da seita. Soa familiar?
Pouca coisa mudou desde então, naquela estranha região do mundo.
  
JSR

Sunday, May 1, 2011

42 - O novo auto da “Floresta d’Enganos”

Gil Vicente ?
“Quién será que no se enoje y todo mal se le antoje de una necedad tamaña. Yo no sé quién sofrirá y a quién no enhadará los desvaríos que aquí van.”
O auto de Gil Vicente está, cerca de cinco séculos depois de escrito,  a ser de novo representado.
Desta vez, diante duma corte diferente, descreve-se o mesmo suplício. O Filósofo quer ocupar-se das coisas sérias, pois pressagia os tempos sombrios que estão para vir, quer que todos saibam a verdade e se comportem em homens livres.  Porém, o Parvo, um bobo impertinente que trás amarrado ao pé, está sempre a interrompê-lo com perguntas e comentários… parvos. Não só na época, como sobretudo agora, filósofos e parvos são a declinar no plural...
No tempo de D. João III , beato e néscio, os problemas foram a introdução da Inquisição, que provocou a fuga dos mercadores judeus e cristãos novos, a descapitalização do reino e a necessidade de recorrer a empréstimos externos.
Seguiu-se a decadência económica, a perda das rotas comerciais mais rentáveis e, alguns anos depois, a perda efectiva da soberania nacional.
Faz lembrar alguns aspectos da situação actual ? Pergunta retórica, claro que faz. Com governantes néscios e uma grande parte do eleitorado “parvo”, é evidente que o pais tem que sofrer, e com ele todos os “filósofos” que se preocupam com a verdade da situação e o bem da coisa pública.
Com um outro tipo de inquisição agora em Portugal, a negociar as condições dos empréstimos indispensáveis, continuamos a assistir a um auto de enganos e desenganos, uma competição desequilibrada à beira do precipício, entre cartilhas repetidas até à exaustão e propostas e garantias e promessas e insultos e disparates. Entretanto os deuses descerão dos Olimpos de Washington e Bruxelas com as regras da governação e as condições do seu cumprimento.
Tudo isto vai durar até às eleições e nada indica que mudará depois. Entendimento entre os partidos sobre a partilha dos despojos? O Auto acaba assim:
“No esperéis más recado pues os es honra y provecho qu’el casamiento alongado pocas veces se vio hecho.”

JSR

Sunday, April 17, 2011

41 - Requiescat in pace - O Fim da Terceira República (9)

"Palhaço Triste"
This series of 9 posts was published 5/5/2011 by "Jornal do Fundão" - online edition.

      9. A Terceira República? Requiescat in pace.
Cada país que pede ajuda ao FMI e agora também ao Fundo Europeu (neste caso a Grécia, a Irlanda, Portugal e provavelmente amanhã a Espanha, para não mencionar outros países periclitantes) considera que o seu caso é especial, original, único. No entanto, a única novidade é estes países pertencerem a uma união monetária.
Para quem conheça o trabalho do FMI e de outras caixas mutualistas dos Estados, estas são histórias repetitivas. A culpa nunca é de quem não se soube governar, de partidos que prometem mundos e fundos para ganhar eleições e depois gastam mais do que o país produz. A culpa é sempre de quem empresta e em troca obriga a viver dentro dos seus meios, pagar as dívidas, desenvolver a economia e cumprir as regras de bom comportamento no comércio internacional. 
    Os governantes sem visão e sem autoridade, necessitam do "papão" duma entidade exterior a quem atribuir a culpa das reformas necessárias mas dolorosas. Quase sempre a estratégia funciona, os eleitores são suficientemente infantis para acreditarem nessas tretas, como afinal acreditam em muitas outras.
Mas os factores que entram no sucesso dos programas de ajuda externa, ou no seu falhanço, também são conhecidos. O sucesso vem da honestidade na avaliação, da celeridade do pedido, do acordo das forças políticas, da ordem social e da disciplina na execução dos programas. O falhanço é inevitável quando o desequilíbrio financeiro é excessivo, quando os juros dos empréstimos são demasiado altos e a recessão impede o crescimento da economia, quando o tempo necessário ao reembolso das dívidas não permite que a sociedade aguente os sacrifícios, quando os mercados se conluiam em alcateia com as agências de rating para atacar uma presa em dificuldade e lhe cortam todas as rotas de escape.
    Quando a situação assim o exige, é preciso saber jogar o xadrez multi-dimensional e multi-lateral, jogar primeiro a favor da corrente, esperar o momento e então ter a coragem de dizer basta. Por agora, Portugal está sem dinheiro e precisa imediatamente dum empréstimo. Negocie-se com dignidade e obtenham-se as melhores condições possíveis com a ajuda do FMI, que neste caso é melhor aliado do que os Europeus que também vão emprestar os fundos e querem fazer um exemplo dos três irmãos pródigos, obrigando-os a pagar juros elevados. Mas, quando a corda não estiver na garganta, é preciso reestruturar a dívida.  
Em geral, os países em dificuldade, ou mais especificamente as suas elites dirigentes, entram primeiro em negação, depois propagam esperanças fantasiosas e só tarde demais aceitam a realidade da situação. Durante todo este tempo é a população mais frágil que sofre as consequências do pretendido orgulho nacional, mas do muito real egoísmo das cliques governantes. 
       No caso dos três países do Euro que estão neste momento na berlinda, a situação complica-se com as declarações dos responsáveis da União, que já mencionaram que mais tarde a reestruturação fará parte dos pacotes de ajuda. Quando o génio sai da almotolia, já não volta a entrar. Nem os mercados, nem ninguém de bom senso, acredita que as ajudas presentes não venham a seguir o mesmo caminho.
É nestes momentos que se distinguem os palhaços dos estadistas, nacionais e europeus. Os palhaços desperdiçam o tempo dos espectadores em falsas histórias e falsas querelas, apenas para prolongar o seu próprio tempo na pista. Os estadistas sabem negociar e eventualmente fazer bluff, na defesa dos interesses superiores das nações e da União. Sabem decidir a seu tempo as rupturas necessárias e tomar a responsabilidade de mudar de direcção.
Foi na audácia de rupturas que nasceu Portugal e foi assim que sobreviveu a muitas crises da sua história. Esta é mais uma. Os portugueses precisam de esperança, precisam de estadistas que lhes mostrem uma luz no fim deste túnel em que entraram. A luz duma mudança de regime político, que reforme e actualize a Constituição, as instituições, as estruturas sociais e tudo o resto que daí deriva. 
        Venha a Quarta República o mais cedo possível. Como estamos ancorados na União Europeia e já não existe o perigo de fundamentalismos ideológicos prevalecerem, só poderá ser melhor do que a Terceira.

JSR

Saturday, April 16, 2011

40 - Reestruturar a dívida - O Fim da Terceira República (8)

"Don Quixote" by Scott Gustafson
8. Reestruturar a dívida
Reestruturar a dívida é a expressão politicamente correcta para uma declaração de falência. Funciona para um país, como para uma empresa ou uma família. Um acordo com os credores permite pagar uma parte e obter o perdão do resto. De forma a salvar o que é possível, antes que a economia se esgote na luta contra moinhos de vento.
A definição de inteligência é a capacidade de aprender com os erros e corrigir o rumo. Basta olhar para os exemplos de outros países, mas mais especificamente a Grécia e a Irlanda (por estarem na zona Euro), para se perceber que Portugal já passou o ponto de não retorno, que apesar de todas as austeridades e todos os sacrifícios, haverá num futuro próximo necessidade de reestruturar a dívida.
Não é fácil nem agradável, durante algum tempo os mercados não se arriscam a emprestar e a torneira do crédito fecha-se. O financiamento só poderá vir dos clubes a que se pertence, como o Fundo Europeu e o FMI, que nunca perdem o que emprestam porque são os primeiros a ser reembolsados, e além disso estabelecem as regras da recuperação.
Os países mais ricos, exportadores e parceiros da União Monetária, assim como os Bancos que detêm títulos de dívida dos Estados, detestam esta possibilidade. Desde que os países pobres e os pobres de cada país, forem pagando os juros altíssimos, porque hão-de querer mudar de paradigma?
É preciso quebrar o círculo vicioso, é preciso que haja estadistas que tenham a coragem de declarar que se quer reestruturar a dívida e já. Um pontapé no vespeiro europeu e o problema passa a ser também da União e dos Bancos de todos os países que têm dívida portuguesa. Aumenta a margem de negociação para poder fazer as mesmas reformas indispensáveis, mas com menor sofrimento para a população e maior possibilidade de crescimento da economia.
Encosta também à parede os países e as instituições europeias, de forma a acelerar o estabelecimento dum verdadeiro governo económico para a União. Se é preciso proteger o Euro, que beneficia todos os países europeus mas sobretudo os que mais exportam, porque hão-de ser só os países em dificuldades a sofrer as consequências de não poderem desvalorizar a moeda? Assim como o governo federal americano cria barreiras às consequências nacionais da falência individual dos Estados, como por exemplo através de obrigações federais, assim a Europa tem que impor regras de governo financeiro que penalizem os governos irresponsáveis, mas proteja, na medida do possível as populações de toda a União.
Quando a economia estiver a crescer, os mercados ganham confiança e tudo volta ao normal, excepto que a vida para as pessoas também “normais” melhora mais depressa.
(continua)
JSR 

Friday, April 15, 2011

39 - Estadistas, precisam-se - O Fim da Terceira República (7)

“Arringatore” c. 150 BC.
             Museo Arch., Florence
7. Estadistas, precisam-se
O último governo e agora os partidos em competição eleitoral, debitam hipócritas encantações populistas em vez de assumirem a realidade. Sabem que as promessas não podem ser cumpridas, porque são contrárias aos compromissos já assumidos junto dos credores para negociar os empréstimos, mas continuam presos à narrativa duma realidade paralela. Wishful thinking.
Seria necessário que os cidadãos tivessem a clarividência de exigir aos partidos que estes apresentassem às próximas eleições apenas os candidatos a deputados que tenham adquirido experiência da vida real, competência profissional e credibilidade pessoal.
O país precisava agora de estadistas. A Europa precisa de estadistas. A maior parte dos países do mundo também. Infelizmente, as democracias produzem frequentemente líderes fracos, periclitantes sobre apoios populares transitórios, e as ditaduras fazem-se quase sempre de títeres corruptos, extremistas e desprezíveis.
Os estadistas não nascem nas árvores, nem nas incubadoras de confortos e privilégios partidários, nem no parasitismo dos favores cruzados com os negócios do estado. Os estadistas têm em comum uma educação de exigência e de liderança, o sentido do dever para com a colectividade, a perseverança em competição na sua realização profissional, o tempero do aço nas provações pessoais e na adversidade. Não cabem aqui, nem membros de nomenclaturas, nem boys, nem jotinhas.
Só com personalidades credíveis e com consciência dos interesses nacionais, se pode esperar o que é agora indispensável: primeiro e imediatamente, os acordos necessários entre partidos para obter os empréstimos; depois das eleições, a escolha de governantes que saibam o que fazem, que ponham o bem futuro do país acima dos benefícios partidários e pessoais imediatos; e finalmente, o golpe de asa ou de rins, capaz de tomar a decisão difícil que se impõe, declarar a falência do Estado, renegociar as dívidas e reformar o país para que a economia possa recuperar em bases mais sólidas. 
(continua)
JSR

Thursday, April 14, 2011

38 - A humilhação e o sofrimento - O Fim da Terceira República (6)

L'umiliazione di Canossa
6. A humilhação e o sofrimento
Para o país, este é um tempo de humilhação internacional e de sofrimento nacional.
A humilhação internacional é provocada pela trágica incompetência do governo na gestão da coisa pública, pela transparência infantil da estratégia usada por esse mesmo governo ao sacrificar o bem da nação à sua sobrevivência partidária no poder, pelo espectáculo lamentável de provincianismo nas querelas actuais da classe política, e sobretudo, humilhação maior e mais duradoura, pela imagem que fica de menoridade política dum povo. Finalmente, pela falta de dignidade em deixar sem resposta e sem retaliação apropriadas, algumas declarações públicas de responsáveis de instituições e países, acerca de situação portuguesa. Mas onde estão os dignitários nacionais e a diplomacia? Há uma enorme diferença moral entre estar falido e ser pusilânime. 
O sofrimento nacional já começou com as meias-medidas dos PECs. Mas as condições impostas para o empréstimo do Fundo Europeu e do FMI, embora necessárias, vão ser muito mais duras de suportar para um país mal habituado ao esforço e à disciplina, sobretudo durante um longo período. As reestruturações do funcionalismo público, das empresas públicas e privadas, as privatizações, vão aumentar o desemprego. O aumento dos impostos, as diminuições de salários e pensões, o aumento dos juros dos empréstimos da habitação, a subida dos preços dos combustíveis e da alimentação, vão empobrecer as classes médias e desesperar os mais carenciados.
Neste momento o país pode recorrer à ajuda externa de quem puder, mas o peso das dívidas e dos seus juros já é tão grande que a economia não se pode desenvolver. A depressão económica é uma doença cuja agonia é dolorosa e lenta para toda a população, mas obviamente muito pior para os mais desfavorecidos e mais frágeis.
É preferível o choque dum tratamento enérgico que salve e devolva a saúde o mais depressa possível. Esse choque implica o reconhecimento que é melhor declarar honestamente que o peso dos encargos é excessivo e que o barco pode ir ao fundo se não se deitar pela borda fora o excesso de carga, ou seja, a parte da dívida que não se conseguirá pagar.  
Quanto mais cedo melhor, menos sofre a população e mais depressa retoma a economia.
(continua)
JSR

Wednesday, April 13, 2011

37 - O socialismo outra vez na gaveta - O Fim da Terceira República (5)

The fall of the Berlin wall
5. O socialismo outra vez na gaveta
Como os pobres a quem sai a lotaria, gastam tudo disparatadamente e acabam depois a pedir, assim este regime começou por desbaratar a tesouraria anterior, teve que chamar o FMI e pôr o socialismo na gaveta para tomar as medidas necessárias para recuperar das duas primeiras crises financeiras, esbanjou os benefícios da entrada na Comunidade Europeia, com os juros baixos e os fundos de coesão, e acaba agora na terceira falência financeira.
O socialismo chega sempre ao fim quando se acaba o dinheiro dos outros, uma verdade que abarca a Europa, da Inglaterra de Thatcher à União Soviética de Gorbachev, passando pelos países do Sul que acreditam que haverá sempre alguém, sejam “eles” ou “os ricos”, para pagarem tudo a que se acham com direito. Acabaram-se primeiro as economias da governanta Salazarista, depois as transferências dos primos no estrangeiro e finalmente os dinheiros do casamento com Bruxelas.
Este “nobre povo” tem que mudar de mentalidade e começar a trabalhar a sério, a viver do que ganha e sem recurso ao crédito, a perceber que a educação e a saúde “tendencialmente gratuitos” não aparecem por milagre, a receber reformas proporcionais aquilo que efectivamente descontou para a velhice, a compreender que os subsídios do Estado são pagos pelos impostos de todos (todos... enfim, sejamos optimistas).
A primeira das lições de cidadania deve informar que, em relação a cada cidadão, assim como em relação ao país inteiro, para que a economia possa crescer... é preciso produzir mais do que consome. Uma parte da população não sabe fazer e ainda menos cumprir, um orçamento pessoal ou familiar equilibrado, tornando-se presa fácil de todo o tipo de predadores, económicos e outros. Depois queixam-se que os governantes que elegem, não fazem melhor com o orçamento do Estado...
(continua)
JSR

Tuesday, April 12, 2011

36 - A evolução deste Regime - O Fim da Terceira República (4)

Pompeii. House of the Tragic Poet. "Cave Canem" mosaic
4. A evolução deste Regime
Como é que este regime se pôde esgotar em pouco mais do que um quarto de século? Porque nasceu mal, cresceu torto e envelheceu precocemente.
O presente regime nasceu no meio das grandes esperanças de gerações que se sentiam asfixiadas, a burguesia pela falta de liberdade de expressão e de participação política, o povo pelo atraso económico e social.
As organizações revolucionárias e depois partidárias, algumas extremistas e enfeudadas a interesses exteriores em competição geoestratégica, outras puramente nacionais com ideias generosas de justiça social, impuseram políticas populistas e utópicas que descambaram na colectivização dos meios de produção, nas nacionalizações, na destruição duma economia distorcida mas em desenvolvimento.
Cresceu nas contradições duma evolução desequilibrada, misturando o positivo e o negativo. Na competição política, todos os partidos aceitaram a surenchère  de que se podia passar a viver imediatamente como os outros países europeus mais desenvolvidos, sem se preocuparem com a sustentabilidade, nem do processo de modernização, nem dos custos das medidas sociais.
Esta recuperação dos atrasos anteriores resultou  na liberdade de expressão, na arrumação partidária das ideologias, na abertura económica, no desenvolvimento das infra-estruturas e nas diversas protecções sociais, do emprego, da habitação, da educação, da saúde, das prestações de reforma, indigência e exclusão.
Envelheceu precocemente porque houve um falhanço espectacular e terceiro-mundista na evolução das instituições, no desenvolvimento humano e no progresso económico.
As revisões constitucionais andaram sempre atrasadas em relação aos tempos e as leis multiplicaram-se, atropelaram-se, desligaram-se da realidade, produzindo anomalias institucionais e uma justiça deficiente.
O povo não foi educado no equilíbrio dos direitos e deveres, nem no funcionamento duma sociedade avançada. O alargamento da educação a toda a população foi feito sem exigência de disciplina nem selecção pelo mérito, sem instrução de cidadania nem de respeito pelos valores de honestidade, de carácter e de responsabilidade pessoal na gestão dos seus interesses.
Uma cultura social serôdia aspira às antigas regalias da nobreza, pretende que um curso ou uma licenciatura qualquer, em vez de serem apenas uma ferramenta, dêem direito a uma renda vitalícia na corte do rei, perdão, no funcionalismo público ou a privilégios tabelados nas empresas privadas.
A legislação do trabalho favorece os interesses colectivos instalados com os seus “direitos adquiridos”, em vez de recompensar o esforço, a criatividade individual e de encorajar o empreendimento.
As políticas de habitação espoliaram os proprietários de imóveis, destruíram o mercado de arrendamento e arruinaram o centro das cidades.
E por aí além.
(continua)
JSR

Monday, April 11, 2011

35 - A história pendular das Repúblicas - O Fim da Terceira República (3)

Le chat garde le pendulum de Foucault, Panthéon, Paris
3. A história pendular das Repúblicas
Os regimes mudam, sempre como reacção à situação anterior, mas nem sempre para melhor. Como um pêndulo que procura o equilíbrio, mas que não o consegue enquanto for empurrado excessivamente para um lado ou para o outro das ideologias de organização social e política.
A primeira República nasceu confusa, bem intencionada mas terrorista, palavrosa mas anti-democrática, com algumas boas leis mas sem a autoridade de as aplicar. Quando acabou, o país estava arruinado, dividido, desanimado.
A Segunda República foi voluntarista e autoritária, com ordem, contenção nas ambições e nas despesas, correspondendo à implementação das convicções tradicionais e pequeno burguesas dos seus mentores. Quando acabou, o país estava modestamente próspero mas atrasado, isolado e farto de ser um pião largado nas incongruências coloniais da guerra fria.
A Terceira República começou com uma reivindicação conjuntural, um pequeno fogo que alastrou sobre o mato seco dum regime obsoleto, que tinha consciência de estar moribundo e por isso não resistiu à revolta de alguns dos seus centuriões. Como não há duas sem três, também está a acabar mal. Sob a pressão de movimentos populistas, tomaram-se decisões e criaram-se expectativas que estão a ser defraudadas porque o país não criou, nem cria, riqueza suficiente para as poder pagar.
Esta República morre agora, porque o pêndulo estava antes demasiado para a direita, foi empurrado depois demasiado para a esquerda e ainda não se equilibrou.
(continua)
JSR

Sunday, April 10, 2011

34 - O “Titanic” das utopias de Abril - O Fim da Terceira República (2)

2. O “Titanic” das utopias de Abril
Titanic and Iceberg
Este país tornou-se num Titanic desgovernado, ferido de morte pelo iceberg da crise. O comandante mantém uma calma estudada e declarações encorajadoras. Os oficiais disparataram em múltiplas ordens contraditórias, até que o imediato mandou finalmente transmitir o pedido de SOS e lhes deu uma cartilha para repetirem em coro: a culpa não foi deles, foram os pinguins traiçoeiros que empurraram o iceberg contra o navio.
A orquestra continua a tocar, os passageiros da primeira classe embarcam nas baleeiras, os passageiros da classe média hesitam em confusão, os passageiros da terceira classe ficam presos na sua impotência.
Muitos pensam que, assim como o Titanic poderia ter evitado o iceberg se estivesse atento às comunicações exteriores, se cumprisse estritamente as regras da navegação e se a disciplina de bordo fosse mais rigorosa, assim a terceira República Portuguesa poderia sobreviver a mais esta crise.
Mas a história faz-se de factos e não de especulações sobre o que poderia ter acontecido. Para quem conheça bem este país desde antes do 25 de Abril, tenha acompanhado com atenção os acontecimentos posteriores e disponha duma perspectiva abrangente e exterior, tornou-se progressivamente evidente que este fim era inevitável.
(continua)
JSR

Saturday, April 9, 2011

33 - Intróito - O Fim da Terceira República (1)

Parthenon, construido de 447-432 A.C., Atenas.
(estado actual, após a passagem do tempo e dos otomanos)
1. Intróito
Esta é a crónica da morte anunciada da terceira República em Portugal. Neste caso, a notícia da morte nem sequer é exagerada. O regime começado pelo 25 de Abril faliu financeiramente pela terceira vez e politicamente de forma definitiva.
A maioria dos cidadãos ainda não se apercebeu que este recurso à ajuda externa é apenas o último sintoma do fim, que se vem juntar a muitos outros. Alguns sabem, mas fingem acreditar que o regime vai conseguir sobreviver, assim como quiseram fazer crer que era possível evitar a falência do Estado, enquanto as dívidas continuavam a subir e a economia a descer.
A nota necrológica está a ser escrita a cada declaração política irresponsável, a cada mudança de posição em cata-vento, a cada contradição desonesta, a cada ataque partidário, de cada vez que o interesse pessoal ou tribal é posto à frente do interesse do país.

Como para a decisão de pedir ajuda ao Fundo Europeu e ao FMI, numa situação económico-financeira irrecuperável, o que tem que ser tem muita força. Os prestamistas não têm nem imaginação nem meias-medidas disponíveis, ou governo e oposição se entendem já sobre as condições propostas para pôr o país “no prego”, ou não há dinheiro. A negação da evidência só serve para perder tempo e agravar a situação.
(continua)
JSR