Thursday, August 18, 2011

55 - Estas Crises Que Nos Tolhem

Rockefeller Center
Attilio Piccirilli's Commerce and Industry
Quando num aperto, e estas crises tolhem-nos entre apertos de muitos lados, é indispensável ganhar altitude para pôr as dificuldades em perspectiva. Só assim é possível avaliar correctamente as situações e escolher caminhos de saída.
Cada época tem as suas características e cada geração tem os seus problemas. No século XX passámos dum mundo que tinha sido eurocêntrico durante muito tempo, para um mundo que se tornou americano-cêntrico. Com a mundialização, o século XXI tornou-se tendencialmente multi-polar, mas duma forma irregular e desigual, o que é a causa de algumas das crises que atravessamos.
A globalização tende a uniformizar a concorrência global das matérias primas, dos produtos agrícolas e manufacturados. O ferro, o trigo, as calças ou o telemóvel produzidos por trabalhadores explorados em regimes totalitários, “competem” com produtos semelhantes originários de países onde os trabalhadores têm direitos democráticos e salários negociados por sindicatos. Competição não é a palavra certa para a transferência de empresas, capital e trabalho, que isto ocasiona dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Como consequência, os salários e outros benefícios têm que se ajustar pelos níveis mais baixos, com a consequente perda de qualidade de vida nos países mais afectados.
Os Estados Unidos continuam a ser a única super-potência, o ponto  de referência e de imitação. Mas uma hegemonia sob controle democrático, dificilmente impõe um imperialismo ideológico ou uma exploração colonial eficaz e duradoura, como outras potências fizeram até a um passado recente. Pelo contrário, acreditando que a paz e o sucesso do comércio mundial são as duas faces da mesma moeda, arruínam-se como polícias do mundo. Garantem a segurança de várias zonas geográficas mas aceitam que muitos países, particularmente o Japão e os Europeus, aproveitem a protecção sem contribuir para os custos com uma parte proporcional às suas capacidades e interesses. Mas tudo tem um preço, político e económico. Em troca, é sempre potencialmente ruinoso ir contra os interesses vitais Americanos, o dólar é a moeda de reserva mundial e os USA reduzem os seus deficits através do aumento da massa monetária em circulação e consequente desvalorização cambial, que são formas de fazer os outros países contribuírem. Mesmo assim, os USA atravessam crises de confiança política e económica na federação, e as instituições federais têm que ajudar estados e cidades em bancarrota.
A Europa recuperou das lutas fratricidas e da perda dos impérios coloniais, iniciou um processo de unificação pacífica sem precedentes de forma a tentar manter uma influência nos negócios do mundo proporcional ao que é o maior bloco económico da actualidade. Porém, uma união pacífica resulta de decisões democráticas dentro de cada pais (sempre que não é possível evitá-las) e entre os países (embora uns sejam mais iguais do que os outros), o que é a sua força, a sua fraqueza e a razão da lentidão, das diferenças e das indecisões. As diferenças culturais entre estados provocam ou revelam tendências isolacionistas nuns, egoísmos noutros e ressentimentos nos restantes. É difícil o entendimento entre os que têm uma maior ética de trabalho, produção e poupança e os outros menos rigorosos, menos produtivos e mais esbanjadores. Estas “falhas sísmicas” tornam inevitáveis as crises de crescimento, a separação em círculos concêntricos de integração, as decisões bipolares.
Os países emergentes, os BRIC que vão saindo do subdesenvolvimento político, social e económico, os que beneficiam de alguma maneira da globalização, querem progressivamente conquistar uma influência proporcional ao peso da sua população, do potencial do seu mercado interno e da sua capacidade exportadora, das suas reservas monetárias ou de matérias primas. Todavia, são por enquanto gigantes com pés de barro, balões que incham com muito ar e pouca substância. A China consegue falar com a voz única dum regime totalitário, que reprime ambições legítimas de melhor qualidade de vida dos habitantes e esconde as diferenças abismais entre classes e regiões. A Índia é um mar de correntes confusas e supersticiosas, sobre as quais flutuam classes tribais profundamente corruptas que dominam a politica, a sociedade e uma economia selvagem. A Rússia transformou-se num estado mafioso. O Brasil é o único destes países cuja evolução lhe poderá permitir integrar a médio prazo as sociedades ocidentais.
No resto do mundo, cada região tem os seus problemas e cada pais é um caso, aproximando-se ou afastando-se dos grupos mencionados acima, com capacidades e características variáveis, bons exemplos mas sem grande influência e maus exemplos por vezes com enormes energias destrutivas. Por enquanto fazem apenas parte da paisagem, paisagem inter-activa, mas só paisagem mesmo assim.
Estas últimas crises não são só financeiras, nem só económicas, nem só politicas, nem só Portuguesas, nem só Europeias, nem só Americanas. Estas crises são tudo isso, têm várias origens, são também mundiais e estruturais, estão para durar e como todas as crises anteriores vão ser mal e incompletamente resolvidas.
Mas este é o mundo em que nos calhou viver. Cada um de nós, individualmente e como cidadãos, temos que tirar o melhor partido possível das oportunidades que se nos deparam e, se possível, ter a inteligência de não repetir erros passados.
JSR

Thursday, August 11, 2011

54 - Os Bárbaros que Ajudámos a Criar

Define "slave"...
A barbaridade, no sentido do que está fora da civilização, tem no mundo aspectos diversos que vão do trágico ao risível, dos genocídios à proibição das mulheres guiarem, dos que morrem de fome aos que provocam motins em cidades de abundância para assaltarem as lojas e roubarem os últimos gadgets electrónicos. Como em Londres, agora.
Fora do eixo das democracias, o próprio conceito de civilização tem variações que vão desde os povos que ainda se encontram na idade da pedra, passando por todas as gradações evolutivas ou pelos atrasos provocados por ideologias e superstições. Mas, relutantemente ou não, o caminho parece apontar para uma evolução mais ou menos lenta, mais ou menos crítica, para os padrões ocidentais.  
São estes padrões que têm vindo a mostrar desde há algum tempo a fragilidade das suas instituições e a profundidade da sua decadência.
Os anos que se seguiram à última grande guerra foram tempos de recuperação económica, de fuga à pobreza, de expansão da democracia e da liberdade. Queríamos sociedades com mais oportunidades para todos e mais justas na distribuição social dos benefícios do crescimento económico. Em resumo, os nossos pais, que sofreram a guerra, quiseram que nós vivêssemos em paz e que os nossos direitos individuais fossem respeitados, nós quisemos que os nossos filhos tivessem igualdade de oportunidades e que os nossos netos conhecessem a prosperidade.  
Neste processo fomos legislando impensadamente e com boas intenções permitimos a criação duma nova classe de bárbaros do interior.
Para que ninguém mais passasse fome e frio, onde antes para sobreviver era preciso aceitar qualquer trabalho, até as crianças, e habitar onde fosse possível, até em barracas, o estado concedeu subsídios diversos e habitações sociais. E alguns concluíram que era agradável viver sem trabalhar, que a legislação lhes dava esse direito sem os deveres e obrigações associadas.
Para que houvesse igualdade de oportunidades era preciso que todos pudessem ter acesso ao ensino, o estado multiplicou escolas mas diminuiu a exigência do esforço individual e o rigor da avaliação nos exames gerais. E alguns concluíram que era possível obter diplomas sem estudar e que um diploma da treta tinha que dar direito ao rendimento duma sinecura ou a um parasitismo disfarçado.
Com a competição consequente à globalização, diminuíram também as categorias de trabalho manual e indiferenciado onde se arrumavam os que, apesar de todas as oportunidades, não tinham a capacidade para adquirir outras competências.
Para complicar a situação, vieram gentes de outros lados do mundo, antigas colónias, países em guerra, fugindo ao subdesenvolvimento e à opressão. Imigrantes que, os mais educados e trabalhadores se integravam, e os outros se juntavam ao parasitismo em expansão.
À medida que o produto do trabalho e os impostos iam diminuindo, os governos de alguns países escolheram a facilidade de se ir endividando para manter as protecções sociais.
Depois vieram as crises e o dinheiro fácil e barato começou a faltar aos estados. E alguns concluíram que era injusto que deixassem de ter acesso a tudo aquilo a que se tinham habituado, mais o que viam e cobiçavam, sem nunca se importarem com quem efectivamente pagava as contas.
E têm-se revoltado. Os “casseurs” dos arredores de Paris, os anarquistas de Atenas, os ladrões e saqueadores de Londres. Estes e outros são criminosos que tomam alento com a timidez da polícia, com a fraqueza das leis, com a ausência de justiça, com a falta de firmeza das sociedades decadentes.
Estes motins não se podem nem devem confundir com fenómenos de sociedade como Maio de 68 em Paris ou os direitos civis nos USA, com conflitos de terrorismo atávico como os irlandeses do IRA ou os bascos da ETA, ou com revindicações de carácter social e pacífico como a “geração à rasca” em Lisboa ou “os indignados” em Madrid.
Porque esta gente está no grau zero da civilização ou da sua ausência. Barbarismo primário dos intervenientes, das suas famílias irresponsáveis, das suas comunidades sem valores aparentes de espécie alguma.
Em menores proporções estes tumultos civis já chegaram ocasionalmente a Portugal, juntamente com a criminalidade organizada, tanto a indígena como a de importação estrangeira. Em tempos de crise tudo se amplifica de forma exponencial.
Pelourinho
Ou a legislação, a justiça e o governo através das forças policiais adequadas, tomam a tempo as medidas necessárias, ou as consequências são previsíveis em custo económico e social. 
  Perdem-se investimentos, estrangeiros residentes e turistas. Perde-se confiança na protecção estatal e nesse caso até é possível que as populações locais voltem a dar uso aos pelourinhos medievais, para “escarmento dos energúmenos”...
A verdade sem desculpas ou teorias de pacotilha é uma coisa que incomoda. O que vale sempre a pena desde que o incómodo seja seguido de acções consequentes.

JSR

Monday, August 1, 2011

53 - Ubi es Britannia? (letter to The Economist)

Ridicule kills...
Sir,
Your leader on the absence of leadership in the West is, indeed, frighteningly to the point. However, your paper being based in the UK, you could helpfully address the remarkable absence of your own country from participating in such leadership.
Where is Britain, when Europe would need all its members’ political, economic and financial wizardry? Absconding as usual, this time probably in Hogwarts, of Harry Potter’s fame...
Good papers, and none better than The Economist, are prodigal in comments and advice from the sidelines, schadenfreuding over the problems of the Euro, while berating UK's anemic economy. When Churchill famously said that his mother’s America always did the right thing, but only eventually and after exhausting all the other alternatives... he may have been inspired by his father’s country too.
While I was growing up after the war in several parts of the world (Europe, Asia, Africa), the UK was seen as an example of democracy and justice, although self centered and egotistical, reassuringly predictable in the manner of always subordinating everything to its mercantile interests.
Then time passed and in many ways the world changed, colonial powers vanished and a new international order was established. Meanwhile, the UK has sat out of the European Community and divided Europe by creating EFTA, until isolation hurt its economic interests enough to force its government to “cry uncle” and brave De Gaulle’s resentful scorn. Now, it’s sitting outside the Euro, depriving the common currency of the expertise and support of The City of London.
During many years of working for a multi-national company (IBM Corporation) and several international organizations (IMF, OECD, UNU), I met many remarkable people, but cannot recall being impressed by any British leader as having a true international statesman standing. I often wondered why the British, for all their traditional political and business cunning, were fighting below their weigh in international affairs. Why is Great Britain retreating into its shrinking shell, instead of contributing fully to Europe's nations only chance of having a say in the world’s future, i.e. together?
Unfortunately, this is a time of weak and disoriented European leadership, with backroom deals made on the sly. The contributions of countries like the Scandinavians, Switzerland and of course the UK, with strong democratic and economic credentials, are missed. The atavistic sentiments of fear and isolationism demonstrated by their peoples, or the misguided appeal of financial profiteering from being on the outside, are self-destructing and resented by their peers.
JSR

Thursday, July 28, 2011

52 - The Devils in our Midst (with condolences to the Norwegians)

The All Seing Eye of Horus
Extremists, fundamentalists, bigots, fools of all stripes, creeds, ideologies and excuses, are indeed the devils in our midst. They are all contemptible and a danger to any civilized society.
Religious, political or other creeds have always been a part of mankind’s   psychological makeup. When limited to the personal sphere and to peaceful social groups, respectful to the rights of others, they are not only inoffensive but can be an useful part of the process of social integration and participation in a democratic process.
The problems start when, to use a seasonal analogy, the groups of innocent grasshoppers become plagues of invading locusts, destroying everything in their wake. This is the dark side of human nature and happens in all societies, parts of the world and historical times. For that metamorphosis, the killer ingredient is the illusion of having a special mandate (my book has the word of a unique god), of being chosen, better than the common populace (all the others are my enemies), of righteousness (all the others will be damned), or the uniqueness of a social doctrine (all other ideologies are wrong).
To simplify a long history of mayhem, let’s just remember that the Jews annihilated all the tribes they could conquer, the Christians produced the Inquisition, the Moslems use assassins and suicide bombers to kill enemies and innocents, the communists and fascists mass murdered millions in concentration camps. And so on.
Unfortunately, still today the religious and political fundamentalists are hard at work making life miserable to all those just trying to mind their own lives and extract whatever peaceful happiness they can summon.
The religious fundamentalists of several creeds can forget their differences and coordinate efforts to kill all help programs that include family planning and birth control, thus contributing to keep women chained and ignorant. Then, they all hypocritically blackmail the public with harrowing images of children’s destitution. 
Those are the children that often neither their families, nor their countries, have the means to feed. Excess population that overcrowd developing societies and destroy all possibilities of economic development to raise them out of poverty.
In time, of course, some of them look for a better life in other countries, either the neighboring ones or the developed ones, and in all of them they are resented by part of the native population.
On the other side of the spectrum, the politically fundamentalist but pragmatic Chinese, in a hurry to save their despotic regime, instead of educating the population and giving them the means to make their own decisions, imposed the law of one-child per family. They are developing the economy all-right and enriching the state, by this meaning mostly the party nomenklatura and associates. Poverty is also being slowly reduced, but from what trickles down from the mandarins’ tables.
Then there are the ignorant and the stupid, who take violent or destructive actions, intended, according to their deviant minds, to awaken their nation to perceived threats, to expel invaders, to change the world. Among the ignorant are those who believe in the genetically impossible concept of racial purity. In general and ironically, they are either the most exotically mixed mongrels, or the most isolated dead-end aberrations of the human wanderings. Among the stupid, are those who grow into the age of adults without evolving the mental capacity to distinguish between children’s tales, fantasies, games and the hard facts of reality.
These are some of the devils in our midst. There are of course many others. Every society, as an obligation to survive, has to command the most effective means it can muster, in order to find, control, exorcise or destroy them, all for the common good.

JSR

Sunday, July 17, 2011

51 - Sabemos Onde Estes Rios Nos Levam

O rio Tejo e o castelo de Almourol
Sabemos para onde correm os grandes rios da política, da economia, da sociedade. Basta tomar um pouco de altitude, observar os factos na perspectiva do tempo e do espaço. As grandes linhas aparecem desenhadas numa continuação natural e histórica, os detalhes dependem das circunstâncias locais. Como aqueles zooms que começam com o planeta Terra visto de tão longe que aparece como um pequeno ponto, se vão aproximando progressivamente, até que se focam num continente, num país, numa cidade, ou em qualquer detalhe que se queira mostrar, digamos Portugal neste Verão de 2011, a sua envolvente e os seus componentes.
O destino inevitável dos rios portugueses, cujos principais começam quase todos noutro estado europeu, depois atravessam o país, é finalmente desaguarem no mar, pelo qual nos ligam ao mundo. É do maior interesse nacional saber o que acontece aos rios antes de passarem a fronteira, a qualidade, a quantidade e a previsibilidade do caudal. Do que se faz depois com a sua água, elemento essencial da vida, assim como do que sai e entra dos portos na foz desses rios, depende o progresso, a estagnação ou o empobrecimento dos povos que habitam os seus cursos. Mas sabemos que os nossos rios têm que desaguar inevitavelmente no mar e quanto a isso não há nada a fazer.
Apesar de toda a excitação que percorre nesta altura a sociedade portuguesa, com políticos, académicos, profissionais diversos, assim como ignorantes variados a pronunciarem-se nos media, a dizerem tudo e o seu contrário, será útil distinguir a realidade da fantasia, separar aquilo que é susceptível de acção do que é inevitável.
É possível - e absolutamente necessário - agir rapidamente sobre os defeitos estruturais da organização política, económica e social do país. Ainda está na memória dos mais velhos o tempo em que a ênfase política era posta nos deveres de cada um para com a nação. Um tempo em que nem o Estado, nem as empresas, nem os cidadãos, investiam ou gastavam sem ter amealhado primeiro, não recorriam ao crédito a não ser com garantias sólidas da capacidade de reembolsar. Um tempo em que a mobilidade social se fazia com o esforço concertado de várias gerações, com seriedade no estudo e no trabalho, ou com o arrojo individual e a emigração. Mas também um tempo e um regime em que era difícil sair da pobreza, porque a ideologia e a religião se aliavam para manter o povo controlado, com a alienação da coisa pública e a resignação da fé numa vida melhor. Depois da morte, claro.   
A liberdade política veio acompanhada da deriva económica e da utopia social financiadas no crédito irresponsável. Vai ser agora preciso relançar a economia exportadora que é possível sustentar com os meios humanos e materiais do país. Quando Napoleão citava Adam Smith, dizendo que a Inglaterra era uma nação de comerciantes, não era um insulto, era inveja, e naturalmente acabou por perder a guerra. Um país é uma empresa, se não vender ao exterior mais do que compra, se não tiver lucros, vai à bancarrota.
Não é possível diminuir o desemprego sem reconhecer que nem todos podem trabalhar nos serviços da administração pública ou na economia do conhecimento. A administração tem que ser cada vez mais informatizada e cada vez menos cara em recursos utilizados. A maior parte da população tem que continuar, ou voltar a dedicar-se aos trabalhos da terra, do mar, dos serviços, do comércio, da indústria. Alguns dos que emigraram para as cidades e vivem agora de subsídios em casas sociais, vão ser encorajados pela necessidade a voltar às terras de origem e às actividades produtivas de que são capazes.
Vai ser difícil reduzir o estado social à parte dos impostos que o governo pode utilizar para esse efeito. Isso significa o fim da utopia de que todos os alunos são iguais, de a que a escola não necessita de esforço individual, disciplina e respeito por professores e colegas. O fim da utopia de que o sistema de saúde pode utilizar todos os meios, para todos e gratuitamente. O fim da utopia de que os cidadãos dum país que tem um rendimento pobre, podem viver como os cidadãos dum país rico.   
Tal como não se pode evitar o destino da corrente dos rios, não se pode evitar a evolução normal da crise da dívida soberana para uma reestruturação. Portugal tem que por a casa em ordem, com o auxílio do FMI, do Banco Central e dos fundos europeus. Não vale a pena procurar, porque não há alternativas viáveis. Mas no fim do processo os credores vão ter que aceitar os instrumentos financeiros necessários para receberem apenas aquilo que o país pode pagar e quando puder pagar. É isto que é previsível, considerando os países que estiveram antes em situações semelhantes. Embora os actores mudem, a peça é a mesma.
É isto que sabem os analistas das agências de avaliação (rating). Podem não ter sabido antecipar as crises, podem enganar regularmente os pequenos investidores em favor dos grandes fundos que lhes pagam para manipular os mercados, podem ser o diabo, mas são os diabos que existem como referência no sistema financeiro actual. Só a grande custo começam a aparecer “diabos” concorrentes. Na China pois claro, cujo comércio com todos os diabos faz parte da sua antiga civilização e do seu sistema totalitário actual, de exploração dos indivíduos para enriquecer o estado e as suas cliques dirigentes. Na Europa não faltam propostas, mas sabemos bem que um “diabo” europeu só será diferente dos diabos americanos na classificação que der à dívida dos EUA, e francamente isso não interessa a ninguém.  
Pode-se pouco - mas é preciso lutar energicamente - para acelerar o processo de unificação europeia, a fim de assegurar a sobrevivência da União. Só uma união financeira e fiscal pode resolver os problemas causados pelas discrepâncias entre os países da zona Euro, entre o Norte e o Sul, entre os diferentes países periféricos que já sofrem todos do sindroma grego e que continua a alastrar. Que agora já chegou à Itália. A Grécia está há muito numa bancarrota desorganizada, muito por culpa própria, mas também por falta de liderança europeia. Sempre foi óbvio que os gregos esperavam que a Europa impusesse regras de governação e de controle, de que eles próprios são incapazes. A Europa de Bruxelas falhou porque considera, estupidamente, que todos os países são iguais. Não são. Assim como tudo o que resta na Grécia da sua época clássica são ruínas magníficas, o mesmo acontece com a Itália. Outro país que não se sabe governar e que necessita, mais do que qualquer outro, dum governo europeu. Sem a Itália não há Europa e sem a Europa a Itália vai continuar a fragmentar-se em regiões e “máfias” diversas.
Para Portugal, esta estupidez institucional de Bruxelas deixa o país exposto, porque oito séculos de história demonstram que é capaz de se governar, embora só o saiba fazer bem quando a espada o encosta à parede. Como agora.
JSR

Tuesday, June 21, 2011

50 - O Render da Guarda

The Guardians
Este é um tempo de mudança, chega ao governo uma nova geração. Já vem muito atrasada, devia ter chegado com as eleições de 2009, mas mais vale tarde do que nunca.
Erros de paralaxe
Nas últimas semanas, a actividade política e as notícias têm sido uma verdadeira competição de erros de paralaxe (diz-se que há um erro de paralaxe quando uma observação é deturpada por um desvio óptico, devido ao ângulo de visão do observador; em linguagem mais simples, quando um objecto parece estar num sítio mas na realidade está noutro).
Uma campanha eleitoral onde se falou, discutiu e noticiou tudo, menos o essencial: a implementação das medidas de poupança acordadas com os financiadores externos e a futura recuperação económica do país.
A publicação de sondagens manifestamente absurdas com o único objectivo de manter o suspense. Como se a vida real fosse agora mais um “reality show”, uma evidência da degradação social descrita nos dois livros sobre “L’Etat spectacle” de Roger-Gérard Schwartzenberg.
As encenações televisivas da política, o culto acrítico do chefe, a exibição da vida privada em vez da substância. E no fim da linha, o triunfo da opinião pateta sobre a democracia.
Finalmente, o resultado das eleições veio repor a realidade, que pode não ser a ideal nem mesmo a necessária, mas é a que se pode arranjar nas circunstâncias presentes e com a qual o país vai ter que viver.
Um Governo de “maçaricos”
Ver chegar ao poder uma nova geração é simultaneamente motivo de esperança e de apreensão.
A maioria dos ministros estão na força da vida, são inteligentes, bem informados, com ideias próprias, experiência dos meios internacionais, sem comprometimentos com os grupos de interesses nacionais, e tudo isto é bom. Não estão dependentes dos que vivem de conluios e favores a fim de assegurarem o seu futuro após os anos magros no governo, porque terão sempre oportunidades dentro e fora do país devido apenas aos seus méritos pessoais, e isto é óptimo.
Mas são uns “maçaricos”... e isto é preocupante. Para quem não saiba, e agora que já não há serviço militar obrigatório, muitos não saberão, “maçarico” é o soldado durante a recruta.
É na falta de experiência de gestão e de conhecimento do terreno real, que residem as dúvidas quanto à competência dos ministros nomeados, particularmente para a Economia e para as Finanças. Vai ser preciso implementar as reformas, doa a quem doer e aqui vão pagar igualmente os justos e os pecadores. Nem uns nem outros se vão deixar tosquiar sem protestos e manifestações. Ter experiência de gestão, saber quando mandar, persuadir ou negociar, pode fazer toda a diferença. A sua falta vai ser difícil de compensar num período muito duro e desgastante para todos os intervenientes.
Elefantes e ratos
Os elefantes da política interna, que toda a gente conhece em Portugal devido ao palco permanente das televisões, são quase todos ratos desconhecidos nos meios internacionais. Os mais capazes não aceitaram trocar as suas mordomias actuais por lugares mal pagos num governo em tempo de vacas magras.
Estes dois novos ministros, da Economia e das Finanças, embora sejam estrangeirados quase desconhecidos no país, têm boa credibilidade internacional, um como académico e o outro como especialista, nas áreas que vão ter que gerir. Têm o mérito de aceitarem voltar, sabendo que em breve se encontrarão debaixo do fogo da contestação às medidas impopulares que vão ter que impor.
Além disso, é notável que um pequeno país nesta situação difícil, tenha entre a sua diáspora não só o presidente da Comissão Europeia e o director do Departamento Europeu do FMI, mas também uma reserva de profissionais competentes ligados às actividades económicas e financeiras.
Isto demonstra várias coisas, entre elas que o país dispõe duma profundidade intelectual superior à sua performance como estado, que a rigidez da constituição, das leis e das más práticas vindas do PREC continuam a sufocar o desenvolvimento do país e a afastar os melhores dos seus quadros e da sua força produtiva.
A esperada contestação
Embora toda a gente já saiba que é preciso absolutamente fazer as reformas enumeradas pela chamada “troika” (os três cavalos que foram chamados a puxar a carroça portuguesa em dificuldades...), e mais outras reformas óbvias que não estão nessa lista, alguns grupos políticos e sindicais vivem num universo paralelo,  desligados da realidade do país, numa espécie de umbiguismo esquizofrénico.
Uns não compreendem que o tempo dos direitos adquiridos acabou, porque se acabou também o crédito para pagar os custos excessivos em relação às receitas. Também porque para proteger os privilégios de uns se aumenta o desemprego dos outros.
Outros reconhecem tarde demais que o populismo tem os seus limites, que a maioria das pessoas que os seguiam acabam por se aperceber que não há almoços grátis, que os credores não aceitam que se reestruturem dívidas para ficar tudo como antes, que isso só será possível depois das reformas, quando a previsão do crescimento da economia puder vir a compensar as perdas eventuais.
A reestruturação da dívida acabará por ser necessária, não para evitar as reformas, sem as quais o país não tem futuro, mas como complemento das reformas e em devido tempo, para estancar o pagamento de juros excessivos, permitir primeiro o crescimento da economia e mais tarde o retorno normal ao mercado de capitais.
Votos
Vamos desejar que os novos ministros se aguentem nestes testes de endurance, que nos surpreendam pela positiva, que saibam ter o golpe de rins oportuno para resolver os problemas internos, o golpe de asa necessário para ultrapassar a fraqueza das instituições europeias e a coragem para enfrentar  os grupos de credores e faze-los ceder primeiro.
Vamos também desejar que os portugueses mostrem a capacidade e a paciência de aguentar civilizadamente os anos difíceis que nos esperam, de compreenderem que não é com a gasolina das greves que se apaga o fogo que devasta a economia. Tudo isto sem nunca perderem a esperança que dias melhores acabarão por vir.
JSR

Tuesday, May 31, 2011

49 - Eleições: A Mensagem e os Mensageiros


Falta um...
Published 2/6/2011 by "Jornal do Fundão". 

As próximas eleições não são apenas para escolha dos esbirros que vão fazer subir esta nação ao pelourinho da austeridade. A sentença foi lavrada no acordo que o governo assinou com os representantes dos credores do Estado. Mas não se ouve discutir os termos desta mensagem.
Os partidos fazem uma grande berraria, mas até parece que a escolha entre uns e outros está apenas nos detalhes da aplicação das penas. Um partido prefere cortar primeiro a orelha esquerda. Outro acha que é melhor cortar a orelha direita. O terceiro não tem preferência entre as orelhas, mas quer ajudar a segurar o cabo da faca. Depois, há um quarto que nega que o pelourinho exista. O quinto sugere que se pusermos voluntariamente o nariz no cepo, talvez se possa evitar o corte das orelhas...
As diferenças apregoadas são catálogos de hipocrisias, porque eventualmente tudo terá que ser cortado, mesmo algumas outras excrescências não mencionadas, sob a forma de vendas, privatizações, encerramentos, impostos e reduções de benefícios.
Estas eleições são também acerca de quem terá a capacidade de implementar efectivamente as cláusulas desse acordo e fazer as reformas necessárias, mas impopulares. Por isso não se ouve falar delas nesta espécie de campanha - jogo de escondidas - ninguém quer ser o mensageiro. Porque não vai ser fácil, nem há nenhuma certeza de ser conseguido. Mas sobretudo, sobretudo estas eleições deveriam ser acerca da escolha de quem terá a coragem de, uma vez as reformas feitas e quando chegar o momento, saber renegociar a dívida de forma a pôr a economia a crescer antes que seja tarde demais.
Os políticos
A classe política portuguesa é naturalmente uma mistura de pessoas sinceras e empenhadas, gente de bem e competente, mas também populistas, actores, malandros, aldrabões de feira, aproveitadores, corruptos e ignorantes. As análises correctas e as declarações disparatadas vêm de todos os quadrantes políticos, embora haja especializações... A pressão para se venderem a uma maioria de eleitores politicamente indiferentes, obriga a contorções que fazem os partidos e os seus responsáveis parecerem piores do que realmente são. Acabou a democracia, sem nunca ter realmente começado, e a “partidocracia” está pelas ruas da amargura.
Muitos políticos portugueses podem não ser grande coisa, mas realmente não são piores do que a mesma classe nos outros países (mais ou menos...) desenvolvidos. Porquê? Porque os melhores de cada país raramente aceitam participar directamente em actividades políticas, com a consequente exposição e bisbilhotice mediática sobre eles e as suas famílias. Porque podem ter maiores recompensas e melhor qualidade de vida em actividades privadas, fora ou dentro dos seus países de origem.
Porque os que ficam, podem sempre apoiar políticos promissores e ambiciosos, que lançam e financiam como num estábulo de cavalos de corrida, apostando em que algum ficará eventualmente bem colocado para favorecer os seus interesses. Porque assim evitam de se sujar directamente com a lama da pista. Mais tarde, se o “cavalo” tiver sido suficientemente rentável, acaba os seus dias nas verdes pastagens dos conselhos de administração das empresas para as quais correu...
Os eleitores
A julgar pelas sondagens, parece que muitos eleitores portugueses são menos exigentes do que a média dos eleitores dos tais países com os quais nos comparamos. Avaliam a política com os mesmos critérios com que assistem na televisão a concursos, telenovelas e outros programas igualmente imbecilizantes. São  pessoas crédulas que se deixam levar por contos do vigário. Por essas e por outras é que o país está falido.
Usando a metáfora estafada do futebol, se o clube teve uma época desgraçada e desceu de divisão, qual é a primeira coisa que acontece? Muda-se o treinador. Pois, mas parece que neste canto da Europa uma parte da tribo ainda acredita em milagres, que um mau treinador pode de repente começar a ganhar jogos.
Noutros países com maior percentagem de eleitores já mais alerta, quando a economia não funciona os governos são postos na rua sem dó nem piedade. “É a economia, estúpido!”, lembram-se?
“Born again”
Como é possível que o governo e um partido que arruinaram o país, por haver uma crise é certo, mas também por incompetência, por porem os interessem dos seus apaniguados acima dos interesses da colectividade, consigam apresentar-se diante dos eleitores como virgens ofendidas?
Torna-se possível quando os conselheiros eleitorais sabem vender o seu produto. São os mesmos que trabalham a imagem, a narrativa e o marketing, não só de empresas legítimas que querem aumentar os seus lucros, mas também de malandros que querem escapar à justiça e, mais importante para este argumento, de seitas religiosas que sugam o tutano aos crédulos de muitos países. Uma das técnicas é o “renascimento”, através do qual desaparecem todos os pecados e crimes passados. O indivíduo toma um banho ritual e pronto, “nasce” de novo, “is born again”... sem remorsos e sem vergonha.
Democracias
O grande desafio das democracias é a sua sobrevivência, desde o momento em que é inscrito na Constituição que o governo é eleito por maioria popular e até que a maioria dos cidadãos votantes saibam realmente o que fazem. Após uma mudança de regime, que é sempre provocada por uma minoria de esclarecidos ou iluminados, a maioria acaba por levar ao poder grupos extremistas, utópicos ou reaccionários, que contradizem os objectivos iniciais e levam a grandes desilusões, a desastres e finalmente a mudanças radicais.
Demora muito tempo esta evolução difícil, até que a educação chegue a todos, até que a necessidade do equilíbrio dos deveres e dos direitos da cidadania seja compreendida pelas grandes massas populares. Até esse momento de desenvolvimento nacional, as eleições são ganhas pelas melhores campanhas publicitárias, as que vendem candidatos como sabões para lavar a roupa.
O papel dos “media”
Este estado de barbárie mantém-se também com a cultura de massas nivelada pelo mais baixo, a coscuvilhice em vez de informação, a leviandade em vez da substância, a “fama” gratuita em vez do esforço individual e do reconhecimento do mérito.
Os responsáveis dos “media” de referência, sobretudo em tempo de campanha eleitoral, deveriam ter como critério de selecção daquilo que transmitem aos espectadores ou leitores, uma célebre citação de Eleanor Roosevelt: “As grandes mentes discutem ideias, as mentes médias discutem factos, as pequenas mentes discutem pessoas”. (Great minds discuss ideas, average minds discuss events, small minds discuss people).
Uma excelente forma também, para os eleitores avaliarem os candidatos a lugares políticos.
JSR



Sunday, May 29, 2011

48 - A Casa das Histórias

Fry's Electronics - Phoenix, Arizona
Da volta a Cascais aqui há uns tempos, apareceu um ersatz de templo Asteca no meio da vila. 
Aquelas reproduções de templos em cor-de-rosa ou tons de vermelho-terra, são comuns no México e nas zonas fronteiriças dos USA, onde normalmente albergam lojas e restaurantes. Será isto uma tentativa degenerada de aliança de civilizações?
Era preciso visitar. Afinal chama-se Casa das Histórias Paula Rego. A arquitectura da coisa já causa ligeiros ataques de urticária a quem passa perto. O conteúdo, por sua vez, recorda Jerónimo Bosch ou os pesadelos causados pelas bandas desenhadas dos anos setenta do século passado, particularmente as que contavam as aventuras dum geneticista louco que cruzava humanos com animais. A grande arte da BD transcrita para a grande arte da pintura...
Porém, de repente fez-se luz neste espírito obtuso para as coerências das grandes artes contemporâneas na arquitectura e na pintura. Claro que a construção tinha que reproduzir a arquitectura dum  mausoléu Azteca, pois se os quadros no seu interior reproduzem as figuras e inscrições que se encontram nos templos dessa mesma civilização...
Tochtli - Calendário Asteca
Os templos antigos inspiram a arquitectura, os seus hieróglifos e ideogramas inspiram a banda desenhada e a banda desenhada inspira a pintura. As bibliotecas estão cheias de tratados sobre a inter-fertilização das artes primitivas com as artes modernas. Dá que pensar, de preferência pouco, para não haver tentações de ler mais um livro dogmático sobre interpretações da linguagem artística... 

JSR

Monday, May 23, 2011

47 - Observatório da Língua Portuguesa

A língua portuguesa é mais do que isto
Vale a pena seguir e participar nas actividades desta organização. Há algum tempo, foi publicado no seu site um artigo sobre “Os Adamastores da Língua Portuguesa”. Um título bem encontrado para um artigo bem pensado.
Todavia, dependendo do ponto de vista onde cada um se encontra, assim muda a forma como se entende a defesa da língua, a definição do que é importante e daquilo com o qual já não vale a pena perder-se tempo.
Os idiomas foram e são ainda hoje (com a excepção das línguas francas de verdadeira mistura), expressões de particularismos culturais e mecanismos de defesa contra competidores e inimigos. Instrumentos também de domínios imperiais, ou de resistência a esses imperialismos. São hoje a última barreira contra a homogeneização, que será a longo termo uma consequência triste da globalização, em contraste com outras que são positivas. Os idiomas são fontes de enriquecimento na diversidade, mas também de incompreensões e conflitos.
Quanto aos Adamastores, Camões tinha razão no seu tempo, Mia Couto já não tem no nosso: “O mar foi ontem o que o idioma pode ser hoje, falta vencer alguns Adamastores”. A frase é atraente, mas inexacta, uma liberdade poética que acaricia o ego no sentido do pelo, mas uma falta de realismo.
O mar foi ontem a melhor e por vezes única forma de ligação, um meio de comunicação, o veículo para esclarecer as incertezas sobre o que havia do outro lado. Historicamente, isso foi sendo feito em zonas geográficas cada vez maiores até que coube aos portugueses o privilégio de tornar global essa descoberta.
O mar é sempre uma ponte entre sociedades diferentes para trocas comerciais, interpenetração cultural e competição. De acordo com a evolução natural, favorece o sucesso do dinamismo contra a estagnação.
Já não há Adamastores na superfície da Terra (resta a exploração espacial), no sentido épico de enfrentar o grande desconhecido, o perigo supersticioso, os obstáculos físicos inultrapassáveis. Há pequenos Adamastores conhecidos, mas são políticos, económicos, financeiros, comerciais, religiosos, burocráticos, etc.  Todas as formas por que se traduz a competição pelos recursos.
Também já não há Adamastores linguísticos. Os idiomas são instrumentos de comunicação primeiro e culturais depois. Na comunicação, as traduções e interpretações automáticas dão uma ideia cada vez precisa dos conteúdos, embora ainda muito recheados de frases incompreensíveis. Dentro de pouco tempo, de importante restará o espaço cultural.
Os últimos Adamastores são os da estandardização, sobretudo no mundo digital. Que meio se usa para comunicar verbalmente e por escrito, como se regista, guarda  e transmite informação, quais os instrumentos acordados para compatibilidades no desenvolvimento e utilização das ciências e das tecnologias. A pressão comercial e popular faz com que estas guerras acabem cada vez mais depressa.
O domínio político e económico dos Estados Unidos a seguir à última guerra mundial, impôs o inglês como língua dominante. A expansão da internet como instrumento de comunicação global e instantânea, consolidou esse facto para o futuro previsível. Mesmo os media que transmitem para o mundo as sensibilidades regionais e nacionais, exprimem-se em inglês (XinHua, Al Jazeera, France 24, etc.).
As línguas multi-nacionais como o português  têm que se impor em igualdade com o inglês em todos os fora onde ainda subsiste o pluri-linguismo oficial, resistir como instrumento de comunicação e educação nos países em que é língua oficial, e sobretudo investir no seu florescimento e reconhecimento como veículo cultural.
Para se obter resultados, é preciso separar o que é realista do que não é. Focar esforços e recursos no essencial e deixar o secundário ao seu destino. Cada coisa no seu lugar. Mais do que referencias históricas, há medidas concretas a tomar, baseadas no bom senso e dignidade próprios, e guerras a ganhar no interesse mútuo, em relação aos outros países lusófonos.
Todos os representantes institucionais da República Portuguesa no desempenho das suas funções devem exprimir-se exclusivamente na língua portuguesa, mesmo que falem fluentemente outras línguas. Em caso nenhum, absolutamente nunca, se podem expor ao ridículo de palrarem “portinhol”, “français de petit nègre” ou “pidgin english”. Nunca ceder a tentações parolas, ou tentar mostrar cosmopolitismo quando se é representante oficial de um país e duma cultura.
Em todos as organizações internacionais que tenham vários idiomas como línguas oficiais, todos os meios são bons para que a língua portuguesa não seja injustamente descriminada. Mesmo sabendo que a evolução normal, por razões de eficácia e de economia, tende para o mono-linguismo.
Para os países de língua portuguesa é indispensável que a educação transmita o conhecimento da língua, da história, da geografia e da literatura de todos, em graus diferenciados de acordo com as suas particularidades individuais.
Mas em zonas lusófonas periféricas há batalhas perdidas, como Goa e Macau. Outras  que se podem perder por falta de investimento e vontade mútua, por não se aperceberem dos riscos que correm em não manterem um máximo de diferenciação em relação aos vizinhos mais poderosos, como na Guiné e em Timor.
Sobre tudo isto há excesso de informação, mas incapacidade de transformar essa informação em conhecimento geral e implementação. Tudo se encontra, mas com o preço de dispersão da atenção, excesso de alternativas e mesmo por vezes um  facilitismo estéril. Isto é um trabalho de todos. Sem desculpas.

JSR

Friday, May 20, 2011

46 - Mais um “Bonfire of the Vanities”

The Bonfire of Vanities - Dick Watkins 
O Managing Director do Fundo Monetário Internacional demitiu-se. Pelas razões indicadas no comunicado e por várias outras. Independentemente de outras considerações, o chefe duma organização internacional com a importância e reputação do FMI não deve ter relações sexuais com a criada de quarto dum hotel. Não interessa se foram consentidas ou não, não interessa se foi uma cilada ou não. Interessa que esse simples facto demonstra “poor judgement” e falta de auto-controle, o que o desqualifica para o lugar que desempenhava.
Uma das outras perguntas que se colocam, é como foi possível tal erro de casting, quando as tendências do homem eram conhecidas e bem documentadas. Foi possível porque é sempre extremamente difícil encontrar a pessoa certa para este lugar em particular. Candidatos há muitos e noutras organizações internacionais vêm-se os desastres frequentes que são resultado de dar preferência às considerações de baixa política, sobre a competência e capacidade.
O grupo dentro do qual é possível a escolha é extremamente limitado e, sendo humanos, são todos imperfeitos. Os homens e mulheres sem história não têm carisma, essa qualidade difícil de definir mas imediatamente aparente. Os machos e fêmeas Alpha, vêm acompanhados dos defeitos correspondentes às suas qualidades e, de entre esses defeitos, as tendências sexuais exacerbadas são as mais comuns e geralmente as menos perigosas.
 O poder é um grande afrodisíaco e geralmente funciona em ambos os sentidos, por isso é controlado por códigos de conduta que são quase sempre eficazes, na prevenção e na repressão. Piores defeitos são a incapacidade de tomar decisões, a falta de imaginação, astúcia ou autoridade, a corruptibilidade, a incompetência.
O resto tem a ver com importantes questões pessoais e gerais, o respeito pelos direitos dos indivíduos, o bom funcionamento da justiça e suas consequências políticas. Questões secundárias são as hipocrisias morais, os diferentes ambientes culturais, a predação pelos media na procura dos detalhes escabrosos.
Este triste “caso” tem muitos dos ingredientes do célebre “The Bonfire of the Vanities”, no funcionamento das sociedades ocidentais em geral e da americana em particular. As enormes desigualdades sociais que levam ao sentimento de impunidade de alguns, nos dois extremos da escala, aliás. O tratamento diferenciado pela polícia e pela justiça, sempre preocupadas com a percepção mediática em relação a certo tipo de pessoas, de comportamentos, de sensibilidades, de minorias, etc. 

As diferenças de culturas são também interessantes de observar nos media: a procura do rigor dos factos pelos órgãos de referência ingleses, a politização imediata dos americanos, a emoção embaraçada dos franceses e a coscuvilhice inexacta dos portugueses. As diferenças dos sistemas de justiça são também grandes mas mais simples: uns funcionam, outros não.
Há um provérbio russo que, traduzido sem o vernacular, diz mais ou menos o seguinte:  “Não se admire a raposa do que lhe acontece, quando fica presa ao entrar na toca do coelho...” 
JSR  

Monday, May 16, 2011

45 - Dominique... nique... nique...*

St Dominique
peint par Fra Angelico...
Chega de e-mails surpreendidos e mensagens humorísticas ou sarcásticas. 
Pronto, pronto... é preciso comentar a prisão de Dominique Strauss-Kahn (DSK) em Nova York, por uma alegada tentativa de passade com... uma criada de quarto dum Sofitel?! O Managing Director do FMI...
Das duas uma, ou o homem foi vítima dum guet-hapens ou mais provavelmente precisa de tratamento psiquiátrico. Vejamos, pela devida ordem:
DSK é um Francês tipicamente parisiense, da chamada gauche caviar. Como Mitterrand e muitos outros, estão habituados a que os media locais ignorem deliberadamente este tipos de assuntos, considerados com sendo do foro exclusivamente pessoal. Tem uma bagagem considerável e conhecida, de todo o tipo de histórias com mulheres, suficientes para encher um livro de crónicas escritas por alguém com o talento dum Manuel Maria Barbosa du Bocage...
Quando chegou ao Fundo e para o caso de estar esquecido, os advogados da instituição avisaram-no com toda a formalidade de que já não estava em Paris. Mesmo assim aproveitou logo de seguida uma ida a Davos para se envolver com uma economista da sua delegação. Por muito menos foi-se embora um Presidente do Banco Mundial. O Board do Fundo só lhe puxou as orelhas por ter mostrado poor judgement e não o pôs logo fora, pois havia razões fortes de expediência política para evitar ter que escolher um substituto. Mas ficou claro que DSK é certificadamente chanfrado.
Não podia haver maior mismatch com uma organização eminentemente straight laced, formal, ciosa da sua reputação de decorum, qualidade técnica e incorruptibilidade. Por vezes mesmo opaca. As pessoas que a compõem não são nem melhores nem piores do que as outras, mas são definitivamente mais discretas. Até nos títulos profissionais. O Banco Mundial tem um Presidente e uma chusma de Vice-Presidentes. O Fundo tem um Managing Director com os seus Deputies e Directores de Departamento e Chefes de Divisão. Dois outros Franceses foram já Managing Directors e tudo correu bem.
Todavia, a história que aparece agora nos media parece muito mal contada. DSK é um baixote com mais de sessenta anos e estava desarmado. A probabilidade de ter obrigado uma mulher de trinta, com a robustez física suficiente para trabalhar como criada de quartos, a fazer-lhe sexo oral é francamente difícil de... sorry pela alusão directa... engolir. Será assim tão difícil para a rapariga manter a boca fechada... ou morder?
Alguma coisa mais se passou. É aqui que levantam voo as teorias da conspiração. As sondagens eram-lhe favoráveis num eventual confronto com Sarkozy nas próximas presidenciais em França. Já durante as últimas eleições, que Sarkozy ganhou contra Dominique (esse não nicava nada que se soubesse...) de Villepin, passou-se entre os dois uma história obscura de difamação, um enredo policial que ainda se arrasta pelos tribunais.
Os serviços secretos franceses são conhecidos pelas suas audácias, sobretudo desde que foram apanhados a afundar o “Rainbow Warrior” na Nova Zelândia, o navio da Greenpeace no qual morreu um fotógrafo português. Poderá esta imbecilidade de Strauss-Kahn ser também an affair of entrapment ?
Certo é que este é um mau momento para tais desventuras pessoais. DSK estava a desempenhar um papel importante na evolução do Fundo para uma maior preocupação com a sustentabilidade económica dos programas de estabilização financeira, na ajuda aos países da zona Euro e futuramente, no caso de ganhar as eleições francesas, era um dos raros estadistas com standing e visão para guiar positivamente a evolução da União Europeia. C'est dommage.

JSR
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*Nota: Título duma canção popular em francês. Niquer = nicar, copular.

Wednesday, May 11, 2011

44 - O Monstro - A Kindergarten on Drugs

Kindergarten
Architecture Creativity Prize
Ao voltar ao seu poiso de Cascais e abrir a janela do escritório, o Albatroz deu de caras com o monstro da Legoland.
Uma construção que parece o pesadelo duma criança de infantário, que vê uma brincadeira com peças do Lego transformar-se num enorme monstro negro junto ao mar. Vem à memória o livro “All I really need to know I learned in  kindergarten”, de Robert Fulghum, cuja influência chegou também, obviamente, à arquitectura...
O edifício do hotel Estoril Sol que lá estava antes também não tinha sido concebido por um arquitecto em dia de inspiração, mesmo para a época, mas isto ultrapassa todas as agressões paisagísticas na baía.
Até há pouco tempo, o monstro estava tapado da vista das janelas do poiso do Albatroz, pelas árvores do jardim duma vivenda de telhado verde. Habitada primeiro por pessoas que mantinham o jardim impecavelmente tratado. De súbito, apareceu a entrar e sair um grupo de esgrouviados, com ar de “apanhados” por alguma dessas seitas que enriquecem a explorar os pobres, com preços tabelados para milagres. Bon, on s’égare...  
O certo é que a vivenda se tornou numa espécie de comuna e agora o jardim está abandonado, buxos e ervas crescem selvagens, deitaram abaixo as árvores e o telhado está “ratado” nos beirais.
Raios os partam. Havia uma vista para o mar e para as árvores. Agora, no lugar das árvores está uma savana e logo a seguir avista-se a demência dum “kindergarten on drugs”...

JSR

Monday, May 9, 2011

43 - The Assassins - Os Assassinos

An agent of the Order of Assassins fatally stabs Nizam al-Mulk, 
a Seljuk vizier (Topkapi Palace Museum)

Osama bin Laden was disposed of. Good riddance, at long last, of an infamous murderer. Ensconced where everybody knew he would be, one of the deviously pious countries where the rule of law is merely a secular wish. Religious banditry is nothing new, but with him it went global.
The sect of the “Assassins” existed during the Dark Ages, from the 11th to the 13th centuries, when the Persians dominated the Middle East. They inhabited mountain fortresses and were trained killers, “users of hashish”, responsible for the elimination of any authorities opposing their leader, "the old man of the mountain” and the sect’s beliefs. Sounds familiar?
Nothing much changed since then, in that awkward region of the world. 
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Osama bin Laden foi eliminado. Até que enfim o mundo se vê livre de um famigerado assassino. Escondido onde todos sabiam que ele estaria, um dos países de religiosidade tortuosa, nos quais o respeito pela lei é apenas um desejo secular. O banditismo religioso não é nada de novo, mas com ele tornou-se global.
A seita dos "Assassinos" existiu durante a Idade das Trevas, dos séculos 11 a 13, quando os Persas dominavam o Médio Oriente. Habitavam fortalezas nas montanhas e foram assassinos treinados, "os drogados com haxixe", responsáveis pela eliminação de quaisquer autoridades que se opusessem ao seu líder, "o velho homem da montanha" e às crenças da seita. Soa familiar?
Pouca coisa mudou desde então, naquela estranha região do mundo.
  
JSR

Sunday, May 1, 2011

42 - O novo auto da “Floresta d’Enganos”

Gil Vicente ?
“Quién será que no se enoje y todo mal se le antoje de una necedad tamaña. Yo no sé quién sofrirá y a quién no enhadará los desvaríos que aquí van.”
O auto de Gil Vicente está, cerca de cinco séculos depois de escrito,  a ser de novo representado.
Desta vez, diante duma corte diferente, descreve-se o mesmo suplício. O Filósofo quer ocupar-se das coisas sérias, pois pressagia os tempos sombrios que estão para vir, quer que todos saibam a verdade e se comportem em homens livres.  Porém, o Parvo, um bobo impertinente que trás amarrado ao pé, está sempre a interrompê-lo com perguntas e comentários… parvos. Não só na época, como sobretudo agora, filósofos e parvos são a declinar no plural...
No tempo de D. João III , beato e néscio, os problemas foram a introdução da Inquisição, que provocou a fuga dos mercadores judeus e cristãos novos, a descapitalização do reino e a necessidade de recorrer a empréstimos externos.
Seguiu-se a decadência económica, a perda das rotas comerciais mais rentáveis e, alguns anos depois, a perda efectiva da soberania nacional.
Faz lembrar alguns aspectos da situação actual ? Pergunta retórica, claro que faz. Com governantes néscios e uma grande parte do eleitorado “parvo”, é evidente que o pais tem que sofrer, e com ele todos os “filósofos” que se preocupam com a verdade da situação e o bem da coisa pública.
Com um outro tipo de inquisição agora em Portugal, a negociar as condições dos empréstimos indispensáveis, continuamos a assistir a um auto de enganos e desenganos, uma competição desequilibrada à beira do precipício, entre cartilhas repetidas até à exaustão e propostas e garantias e promessas e insultos e disparates. Entretanto os deuses descerão dos Olimpos de Washington e Bruxelas com as regras da governação e as condições do seu cumprimento.
Tudo isto vai durar até às eleições e nada indica que mudará depois. Entendimento entre os partidos sobre a partilha dos despojos? O Auto acaba assim:
“No esperéis más recado pues os es honra y provecho qu’el casamiento alongado pocas veces se vio hecho.”

JSR