Monday, March 26, 2012

97 - A Cada Geração a Sua Crise

Beavis and ButtHead - Generation in Crisis
Nestes tempos de crises diversas, tem estado na moda perorar sobre o estado do país e as características das recentes gerações que o habitam. Têm-lhes chamado sucessivamente: geração “rasca” por falta de qualidade e de espírito critico, geração “à rasca” por falta de emprego ou de trabalho; geração “indignada” por falta de dinheiro e de rumo; “geração parva” porque julga ter só direitos e não deveres; geração “mal formada” porque acredita nos vendedores de ilusões; e geração “piegas” porque se queixa de tudo e de todos, sem ver a necessidade de esforço próprio. Significativamente, fala-se mais do que se escreve, porque a reflexão necessária à escrita funciona como um travão à enunciação do disparate mal pensado.
Cada geração, seja duma família, duma tribo ou duma nação, recebe uma mistura diferente dos genes comuns. Como um baralho de cartas, de cada vez que é misturado e distribuído, as “mãos” são diferentes embora as cartas originais sejam as mesmas (na realidade, os genes também vão evoluindo, mas este não é um artigo científico). Cada indivíduo recebe as características físicas e de inteligência, as qualidades e os defeitos que são comuns ao seu grupo, mas em proporções que lhe são próprias. A auto-avaliação realista e o espírito critico em relação à cultura social, são das características mais mal distribuídas.
As pessoas têm diferentes formas de inteligência, de astúcia, de perseverança e de motivação, para serem bem sucedidos na sua esfera privada, no seu trabalho e na sociedade. Uns mais depressa do que outros. Uns duma forma mais gregária e outros de forma mais solitária. No “baralha e volta a dar” da vida, cada qual acaba por encontrar o seu lugar e a sua forma de contribuir para o bem comum. Sobram sempre uns quantos inadaptados que não se encaixam na sociedade tal qual ela é (e não como cada um acha que ela devia ser). São, do lado positivo, os inventores, os artistas, os críticos; mas também, do lado negativo os malfeitores e os parasitas. É preciso de tudo para fazer um  mundo.
Em condições de stress, como são as crises económicas e sociais, a quantidade de “desafinados” que não encontram o seu lugar aumenta e não só por culpa própria. Não encontram saída para desempenhar na comunidade os papeis para os quais se prepararam (ou não se prepararam, e esse é o maior problema), nem outra função qualquer que lhes permita dar um sentido às suas vidas e ganhar a independência económica. Para esses, o mundo está profundamente errado. Quando se juntam todos os que se encontram nessas situações, aparece uma quantidade de gente indignada na rua.
São as vítimas de todos os predadores, nacionais e internacionais. Fazem lembrar o legionário romano dos livros do Astérix, que resmunga “Engagez-vous, rengagez-vous, qu’ils disaient”, depois de levar uma sova do Astérix (Sarkozy) e do Obelix (Merkel), porque antes de se alistar (endividar, com o “compre agora e pague depois”), não leu as letras pequenas dos contratos (indicando juros que mais tarde não consegue pagar) e é depois obrigado a lutar contra insurrectos fortalecidos com a poção mágica (as flutuações dos mercados, informatizados com algoritmos indexados aos “ratings” das agências, num círculo totalmente viciado a favor dos interesses que as sustentam). Quem não pertence a esses interesses, nem os conhece, não pode saber o que fazer e torna-se uma vítima indefesa.
Até aos anos sessenta do século passado, a educação, a instrução e os meios de comunicação social, correspondiam a um país em evolução desigual. Em geral, a educação em casa consistia em aprender o que as classes da média burguesia, sempre “en retard d’une guerre”, consideravam como os bons costumes e as boas maneiras. A instrução dependia da localização e da qualidade das escolas primárias, das possibilidades das famílias enviarem os filhos para o secundário e também das classificações para entrar no ensino superior. O acesso ao mercado do trabalho fazia-se primeiro pelos conhecimentos, as influências e as cunhas, só depois vinham as competências,  as capacidades e a motivação de cada um.
Nos anos setenta chegaram os “baby boomers”, filhos dos que tinham passado pelas privações das guerras mundiais e civis, que não tinham quase nenhuns apoios sociais, nem para a saúde, nem para a reforma e com pouca ou nenhuma influência na condução dos destinos do país em que viviam. Esta geração, decidida a ter melhor qualidade de vida que os seus pais, mudou a situação e criou o mundo em que hoje vivemos. Um mundo em que tem havido liberdade política, apoios sociais, progresso económico. Que tudo isto esteja presentemente em risco por causa duma crise exterior, assim como de excessos e erros de gestão nacionais, é outra história. Esta qualidade de vida nunca tinha sido atingida antes, nela nasceram e cresceram os que chegam ao mercado do trabalho neste princípio do novo milénio e que constituem certamente a geração mais protegida e com mais oportunidades, desde sempre. E ainda se queixam.
A geração piegas deve aos pais a sua condição. Pais que não souberam como os educar. Professores que não podiam fazer o trabalho dos pais na educação e integração social e que muitas vezes se desmotivaram no seu próprio trabalho de instrução escolar e académica. Muitos não aprenderam a socialização nem em casa nem na escola. Não conhecem a disciplina, nem hábitos de trabalho, nem a responsabilidade pessoal, nem a competição individual. Alguns seguiram o caminho do menor esforço e tiraram “cursos de aviário” sem qualquer saída profissional. Não conhecem as boas práticas de vida pessoal, nem as profissionais. Fazem estágios, mas depois ninguém os quer contratar. Porque não há trabalho ou porque têm pouco a oferecer?
Agora esperam que alguém tome conta deles, como crianças serôdias que saem tarde da dependência dos pais e esperam ficar dependentes duma entidade mítica superior, seja o Estado ou o Governo. Embalados por demagogos e iluminados, muitos nem se apercebem realmente que o Estado são os impostos dos outros e que o Governo gere o dinheiro recebido dos que trabalham.
“Queremos um bom emprego com um bom salário”, dizia uma mulher nesta última greve, provavelmente uma sindicalista da esfera comunista reaccionária. Daqueles comunistas que destruíram o socialismo utópico do “cada um contribui de acordo com as suas capacidades e recebe de acordo com as suas necessidades”, porque contribuem o menos possível e recebem o máximo que conseguem extorquir. Se fosse uma sindicalista representativa dos verdadeiros interesses dos trabalhadores, teria dito mais realisticamente: “queremos um trabalho correctamente pago” de acordo com as qualificações e a contribuição de cada um.
Está na moda encontrar novos nomes para velhas coisas e novas definições para velhos conceitos. Como em todas as gerações, em todos os lados, há certamente os parvos e os mal formados, mas porque hão-de ser esses a definir a geração a que pertencem? Depois dos “baby boomers” tudo é bom para tentar definir tendências que vendam jornais, livros, música, televisão, o que quer que seja. O “marketing” reduz a vida a um jogo de espelhos sem substância. Porém, na realidade, os que estudam, inovam e trabalham com motivação e inteligência, são esses que definem a geração presente e o futuro do país.
JSR

Tuesday, March 20, 2012

96 - O Equinócio da Primavera e os Seus Ritos

Afghanistan Spring
Estas considerações são provocadas pela transição de estação do ano e pela coincidência de ter recebido hoje umas notas de viagem dum amigo e antigo colega, que está a dar assistência técnica ao Afeganistão, entre outros países em dificuldades.
O novo ano romano começava nos idos de Março, ou seja, a meio do mês dedicado ao deus Marte. Esta já era uma adaptação das celebrações anteriores realizadas pelas religiões da natureza, dedicadas ao despertar das plantas e alguns animais, depois do sono invernal. A altura em que os dias e as noites são iguais e a duração diária da luz começa a superar a duração das trevas.
Estes simples factos vieram depois a ser recuperados pelas chamadas religiões reveladas, que não são mais do que compilações de tradições acumuladas ao longo dos tempos por diversas tribos humanas. Com a invenção da escrita chamaram a essas compilações “bíblias”, conjuntos de livros, ou resumos como o Corão, ou outras coisas que os povos consideraram “sagradas”, o que no sentido original de “venerandas” não traz mal ao mundo, mas que consideradas como “a palavra definitiva, infalível, única e completa” dos deuses respectivos, é uma perfeita aberração histórica e um atentado à inteligência.
Esses mitos sobre a transição destas estações do ano, que passaram de mão em mão, incluem coisas como: a adoração da deusa mãe que tem tido muitos nomes (Ísis, Afrodite, Maria), que desperta a vida, protege as sementeiras e faz surgir os rebentos das flores, das folhas e dos cereais; a tradição dos vários filhos de deuses e de mulheres mortais que salvam os seus povos através do seu próprio sacrifício e morte, para depois renascerem com a Primavera (Osíris. Adónis, Dionísio, Cristo); e muitas outras tradições, como as ligadas aos ovos numa simbologia da vida em embrião.
Conta aquele meu amigo nestas mais recentes crónicas de viagem, como no Afeganistão se estão a preparar leis de acordo com as decisões dos “ulemas”, um grupo de fundamentalistas islâmicos que querem impor a “sharia” na sua forma mais retrógrada, com a qual os muçulmanos mais civilizados não estão evidentemente de acordo. Entre essas leis está por exemplo o retorno das mulheres a uma condição inferior de menoridade social. Não vão poder sair de casa para estudar, trabalhar, fazer compras, viajar ou qualquer outra actividade, sem serem acompanhadas por um membro masculino da família.
Estão os Estados Unidos e os seus aliados, a sacrificar as vidas dos seus soldados e rios de dinheiro, em países cuja evolução civilizacional está ainda em plena Idade Média. É certo que é preciso defender os interesses geoestratégicos da parte da humanidade mais desenvolvida ou em vias de desenvolvimento, que partilham os mesmos valores humanistas, sejam religiosos ou seculares. Mas é muito difícil aceitar que tanto esforço serve de muito pouco. As consequências da globalização tornam impossível isolar completamente estes e outros “parques jurássicos”, em várias partes do mundo. Neste ponto, nem a chegada da Primavera traz algum optimismo.
JSR

Monday, March 12, 2012

95 - Miss Minnie Goes To Macao

O título deste post é inspirado pela activista americana dos direitos civis imortalizada em “Miss Minnie goes to Washington”.
Uma Miss Minnie, portuguesa e contemporânea, partiu para oriente em vez do ocidente, para fazer um doutoramento em vez de participar em movimentos democráticos. Bem, espero que não se meta nisso, não vale a pena, o dragão já tem a sarna capitalista... Partiu mais precisamente para Macau, que não é só o inferno do jogo. Para quem não saiba, é também a sede de uma Universidade muito razoável e dum bom Instituto da Universidade das Nações Unidas (UNU).
Em tempos idos, Macau foi um porto importante na primeira rota comercial da carreira das Índias portuguesas, que levava anualmente os “barcos negros” de Lisboa a Goa, a Macau e ao Japão. Depois de vicissitudes seculares, um dia o hino nacional foi tocado pela última vez, o governador meteu a bandeira dobrada debaixo do braço e toda a administração portuguesa do Território partiu de volta a Lisboa.
Nos últimos anos antes da devolução à China, houve uma actividade frenética para consolidar o legado português de arquitectura religiosa e colonial, cultura, língua e sistema administrativo. Fizeram muita coisa, aumentaram a superfície através de aterros, construíram uma cidade nova e modernizaram  a economia para além do racket do jogo. Abanaram também o mais possível a tradicional árvore das patacas, para os vários projectos, para financiamento partidário na metrópole e para enriquecimento pessoal.
No meio dessa actividade, uma certa quantidade das patacas do jogo serviram para financiar projectos culturais e de educação. Já existia uma espécie de universidade mercantil, com poucos alunos mas muitos diplomas vendidos por correspondência. Foi comprada pelo governo do território, mudou de nome, de corpo docente e de gestão, e transformou-se numa instituição respeitável. Como cereja no bolo, foi também criado de raiz um Instituto internacional, parte da UNU.
Passados estes anos todos, o que é que a Miss Minnie foi encontrar? A maior concentração de Casinos do mundo, largas teias de negócios em todos os tons de cinzento a negro, como seria de esperar num porto franco com estatuto especial, e um parque histórico com os vestígios da presença portuguesa, para turista ver enquanto descansa o cotovelo de tanto puxar as manivelas das máquinas de jogo.
Macaenses de raiz, a mistura dos locais com portugueses e todos os aventureiros e piratas dos mares do Sul da China, são poucos e com eles extingue-se a última comunidade que ainda fala português. A cidade e ilhas foram invadidas nos últimos anos pela massa dos migrantes chineses. Resta a comunidade académica na Ilha de Taipa e alguns profissionais dispersos com partida adiada. Depois, há a Casa Silva Mendes, a vivenda colonial dum antigo comerciante rico, escritor e coleccionador, na colina da Guia, o lugar menos poluído de Macau. Da vivenda restam as paredes exteriores, o interior foi totalmente reconstruído para nele funcionar o Instituto Internacional de Tecnologia de Software.
É difícil a cultura e a ciência florescerem numa atmosfera onde resta pouco oxigénio, mas é possível. Desde que se faça entrar ar novo de vez em quando e se saia frequentemente para arejar as ideias. Para além dos dias de trabalho académico, a Miss Minnie vai encontrar depressa a claustrofobia dos lugares pequenos, das comunidades fechadas onde se entra devagar, de conceitos diferentes de cooperação, liberdade e segurança em sociedade. Aconselho-a a não ler ou reler Kafka quando encontrar problemas com as chinesices burocráticas, mas antes a fugir do calor e humidade, refugiando-se no ar condicionado a ler um dos livros de Pamela Kyle sobre a China, particularmente “A Translucent Mirror”.
Ah, e que aproveite a oportunidade de viver em Macau para aprender mandarim...
JSR

Tuesday, March 6, 2012

94 - O Deslumbramento da Frivolidade

The limelight...
Veio num jornal (pelo menos) a notícia que mais uma actriz de telenovelas (aparentemente chamam-lhes “estrelinhas”) se tentou suicidar por ter deixado de receber ofertas de trabalho. Parece que abriu o gás do fogão, mas uma faísca provocou uma explosão que destruiu o apartamento e ia deitando o prédio abaixo. Safou-se à justa, apesar das queimaduras graves.
Ninguém sabe é se vai conseguir voltar a fazer aquilo de que gosta, num meio que é por natureza superficial e volúvel. Se não conseguir, ninguém sabe se vai habituar-se a viver sem a droga dos holofotes e da atenção, ou se sabe ou quer fazer outra coisa que possa dar um sentido à sua vida.
Esta é obviamente uma história triste e paradigmática. Não sei se é o caso, mas muitos jovens deixam-se encandear pelas luzes da ribalta, seja nas artes ou no desporto, onde apenas uma ínfima percentagem consegue sair da mediocridade. Por cada sucesso, quantos sonhos desfeitos.
Se há tanta gente a correr atrás de ilusões (“prendre des vessies pour des lanternes” dizem os franceses), é porque a sociedade aprecia a sorte acima do esforço, a coscuvilhice em vez da informação, a leviandade mais do que a substância, os “15 minutos de fama” brilham mais que a perseverança. A barbárie chega quando a cultura de massas é nivelada pelo mais baixo, quando a frivolidade é mais valorizada do que o mérito.
Tudo isto é potenciado pelas tecnologias da comunicação instantânea e fugaz, que deslumbra os mais crédulos e os deixa entregues aos predadores, sem as barreiras de protecção dos mais fracos erguidas ao longo do tempo pela evolução humana ao criar comunidades de entreajuda.
No limite, esta situação é uma traição das sociedades liberais que se manifesta pela degenerescência de alguns dos seus próprios filhos, espúrios, frívolos e confusos, que nem se apercebem que vendem o seu futuro às crescentes ditaduras económicas, mediáticas e do entretenimento. Quando deixam de servir, são descartados como lenços de papel usados.
Felizmente não são todos, nem sequer a maioria, mas mesmo assim as consequências são significativas e preocupantes.
JSR

Tuesday, February 28, 2012

93 - Desemprego e Desatino

Zé Povinho
de Rafael Bordalo Pinheiro
Diz o filósofo: A liberdade social assume que cada um seja capaz de assegurar os meios essenciais da sua própria subsistência, sem os quais não há liberdade, mas apenas dependência ou exclusão. Liberdade e democracia são conceitos diferentes, mas o primeiro é indispensável ao segundo.
Diz o sociólogo: Poucos conseguem subsistir fora do trabalho profissional, artesanal ou por conta de outrem. A capacidade empresarial raramente se manifesta em Portugal sem a muleta do estado e das influências.
Diz o historiador: Isto tem acontecido desde os tempos em que a Coroa se apropriou do todo o comércio importante, nacional e de além-mar, arruinando ou expulsando a burguesia do país. Foi assim que definhou a capacidade empresarial e se tornaram atávicos os defeitos de dependência, resignação, credulidade e pobreza endémica.
Diz o professor: O compacto democrático entre dirigentes e dirigidos baseia-se na mentira aceite da igualdade utópica dos cidadãos, igualdade que nunca existiu nem pode existir, pois os indivíduos não nascem iguais em capacidades, nem encontram igualdade de oportunidades.
Diz o banqueiro: Ouve-se um coro de imbecis a clamar contra os bancos, contra os ricos e contra as empresas que fazem o que têm que fazer para assegurar a sua sobrevivência. Mas se para se tornar e se manter rico é necessário um mínimo de esperteza, os pobres não têm que ser necessariamente estúpidos. Ninguém os obrigou a acreditar nas propostas de crédito fácil e a empenhar-se até às orelhas. Todos têm que compreender uma regra simples de causa a efeito: só sobrevivem os mais capazes.
Diz o economista: O problema dum país não são os ricos, quanto mais ricos houver por consequência haverá menos pobres e mais impostos são cobrados. O problema não são as empresas, mesmo as que transferem a sua sede para fora do país, porque são as empresas que criam e mantêm empregos. O problema são os pobres que não pagam impostos, ou aqueles que custam mais à sociedade do que contribuem. O problema são os se aproveitam do estado, do dinheiro das contribuições, com esquemas e manigâncias para obter para si próprios mais do que a sua justa parte.
Diz o jornalista: Uma crónica, um artigo, uma entrevista, a expressão de pontos de vista mais assertivos ou de factos mais desconfortáveis, e o jornalista ou o cidadão interventivo responsáveis pela desafinação, desaparecem no limbo dos espaços de opinião que lhes são retirados. Sobram os intocáveis e os bobos da corte, uns são tolerados porque necessários como pára-raios dos descontentamentos, outros porque são inofensivos.
Diz o radical: A Maçonaria, a Opus Dei e outras sociedades secretas, quando existem em democracia só podem ser associações de malfeitores. Não é possível que pessoas adultas ainda acreditem no Pai Natal, que gente racional alinhe nessas baboseiras doutrinárias e que quem tenha um mínimo de inteligência participe em cerimónias exotéricas de aventalinho. Portanto, a única explicação para fazer parte dessas organizações é a constituição de grupos de predação sobre a sociedade, o que é característico de todas as máfias.
Diz o político no governo: Se não empreendem nem conseguem emprego, para os mais audazes resta sempre partir. Nos anos sessenta do século passado partiram para o estrangeiro à procura duma vida melhor, sobretudo os camponeses e outros trabalhadores pouco especializados, que eram explorados aqui e que continuaram a ser explorados nos países para onde partiram. Mas que mandavam as economias para casa... Cinquenta anos depois, são agora os melhores e mais bem preparados que estão a partir, deixando para trás os acomodados, os velhos e os subsidiados. O país só pode sobreviver com a exportação, seja ela qual for...
Diz o político da oposição: Esta diminuição da vitalidade do país tem como consequência a degradação da prática da liberdade em democracia. Quando eu estiver no governo acabo com a austeridade, com o desemprego, com a inflação, com tudo aquilo com que os eleitores estão descontentes. Não sei como vou cumprir estas promessas, não sei onde vou buscar o dinheiro, depois logo se vê, a culpa será sempre do governo anterior, o importante é que estes saiam do poleiro para eu ir para lá. 
Diz o comunista: O estado tem que garantir trabalho a todos os trabalhadores, não se admite que o desemprego continue a subir. O estado tem que controlar todas as empresas públicas e não pode privatizar nada daquilo que pertence a todos os portugueses, os bancos, a energia, a água, os transportes e outras coisas de que não me estou a lembrar agora. De qualquer forma, é tudo culpa do governo.
Diz o sindicalista: O estado tem que subir o salário mínimo, assim como as pensões. Os patrões têm que garantir salários decentes e não podem despedir trabalhadores que precisam de segurança no trabalho. Se há crise é culpa dos ricos que devem pagar a crise. O governo diz que não há dinheiro, mas há sempre dinheiro para os bancos. Queremos justiça social e para isso é preciso que todos os portugueses participem na próxima greve geral, a maior que alguma vez houve em Portugal.
Diz o “bloquista de esquerda”: Este governo não sabe o que anda a fazer e o anterior também não. O país está em crise, a dívida externa é insuportável, a austeridade é insuportável, a troika é insuportável, o desemprego é insuportável, a pobreza é insuportável. A propósito, o governo anterior ao anterior também era insuportável e não sabia o que andava a fazer. E nunca me vou calar porque é preciso que alguém diga a verdade aos portugueses.
Diz o cidadão português: Eles são todos insuportáveis e não sabem o que dizem. Se soubessem estavam calados...
JSR

Tuesday, February 21, 2012

92 - El Corte Inglés

Pelourinho...
Aquela grande loja perto do Parque Eduardo VII em Lisboa, só pode ter sido concebida como chafarica de bairro, onde se vai a pé comprar um molho de brócolos ou um par de peúgas, quando se mora perto. Para os outros, para os que vêm de mais longe, é preciso uma boa dose de masoquismo para a frequentar, porque o acesso ao parque de estacionamento é um verdadeiro atentado contra os utilizadores, assim como um desrespeito das boas práticas de arquitectura, engenharia e urbanismo.
Quem foi apanhado na armadilha uma vez, nunca mais lá quer voltar: uma rampa em caracol projectada por anões para mini-carros, estreitíssima, longa, estonteante, necessariamente lenta, de enfurecer o mais calmo. Deve ser repintada frequentemente, mas estão bem visíveis os sulcos deixados pelos carros que raspam as paredes. Mas então não há normas para a construção e segurança destas coisas? Porque é que não foram cumpridas? Quem foram os membros da quadrilha que tornou possível esta aberração?
Os culpados deviam ser castigados por incompetência, incúria ou corrupção: o arquitecto que desenhou o projecto, o promotor que o aceitou e o responsável pelo urbanismo da Câmara que o aprovou; o engenheiro que construiu e o fiscal que aprovou a obra concluída. Todos deviam ser condenados a ter que utilizar a rampa num carro de tamanho médio, descer até ao andar mais baixo e voltar a subir, todos os dias e até ao fim das suas vidas. Que seriam decerto curtas, pois dentro de pouco tempo se suicidariam de desespero e de remorsos.
JSR

Wednesday, February 15, 2012

91 - A Dança da Chuva

"Tar and Feather" flower
Poucos a viram praticar ao vivo, mas faz parte do imaginário colectivo: as tribos primitivas que dançam em círculos, pedindo aos deuses que do céu caia a água da vida. Mas, na realidade, apesar das missas, das velas e das procissões, a nossa tribo continua em seca múltipla: falta de chuva, de razão, de desenvolvimento e de futuro.
Falta de chuva: O aquecimento climático aumenta os excessos meteorológicos, sejam eles secas, inundações ou tempestades. Diminuem as zonas temperadas de habitação humana e com elas a fiabilidade do calendário de sucessão das estações, do acesso à água e da produção agrícola. Depois dum Inverno seco, metade do país está em situação de desastre ambiental.
Falta de razão: As deficiências do sistema de educação e a indigência de muitas famílias, são responsáveis pela falta de educação científica e de capacidade de raciocínio lógico da maioria da população. “Oxalá”, “se Deus quiser”, “a culpa é do governo”, substituem a análise racional dos problemas seguida de decisões oportunas, sejam individuais ou colectivas. Os meios de comunicação (mesmo os estatais!) estão cheios de fala-barato, cartomantes, astrólogos, pastores de passa-para-cá-o-pouco-dinheiro-que-tens-idiota e outros aldrabões, que nos antigos filmes de cowboys apareciam a fugir das cidades do Far West cobertos de alcatrão e de penas...
Falta de desenvolvimento: A globalização do comércio aumenta as disparidades de produção, de distribuição e acesso, de consumo, de rendimento de pessoas e empresas. A competição favorece os mais capazes, desprotege os menos preparados e equaliza oportunidades. Os rendimentos dos indivíduos, das empresas e dos países, sobem ou descem nesta competição darwiniana, sem consideração de fronteiras, níveis de desenvolvimento ou de solidariedade social. The survival of the fittest.
        Falta de futuro: Portugal é um país com uma percentagem de gente inteligente e capaz igual à dos países mais desenvolvidos, mas continua a ser dominado por cliques sem qualidade. Revolucionários de pacotilha, políticos criados nos serralhos das igrejas ou das sociedades maçónicas, escritores cujos “homens mais sábios que conheceram não sabiam ler nem escrever”, empresários pendurados nas benesses do estado, consumidores deslumbrados com o crédito fácil. Como em outros países europeus, os rendeiros serôdios de comunismos e fascismos que ultrapassaram o prazo de validade na prateleira do supermercado das ideias, têm a pesada responsabilidade de enviar uma geração inteira para o caixote do lixo da história. 
Sem crescimento um país pára e parar é morrer.
JSR

Wednesday, February 8, 2012

90 - O Blog (Conversas Surrealistas)

Trrrim... Trrrim... Trrrim...
- Estou (“blocked”? who may this be?).
- Olá. Porque é que nunca comentaste o meu novo blog?
- Olá... (ah... good morning to you too... well, better let sleeping dogs lie...).
  Qual blog? (these days everybody has blogs, writes articles and chronicles for newspapers, posts on newspapers blogs, lives on facebook... impossible to follow it all... an endless nuisance).
- Já o fechei.
- Porquê? (oops... now, what did I miss?).
- Não respondeste à minha pergunta.
- Qual pergunta? (this sounds serious, the floodgates are going to burst open).
- Não repito.
- Hum... bom (here it comes, start running to the hills, you idiot!).
  Então adeus.
- Isso, desliga...
- Mas... (too late to run away, I’m as good as dead...).
- Não me ligas nenhuma!  Ploc.
Bzzzzzzzzzzzzzzzzz...

JSR

Thursday, February 2, 2012

89 - Os Cavalos de Tróia

"Léonidas aux Thermopyles" de J.-L. David
(Musée du Louvre)
De dentro do “cavalo de Tróia” que a União Europeia primeiro e a Zona Euro a seguir, trouxeram para dentro das suas muralhas, saiu a Grécia inteira. Como os Troianos, a União puxou para o seu seio o cavalo de madeira. Mas sem ter aprendido nada com o que aconteceu aos Troianos, a Zona Euro reboca essas estruturas uma vez e outra e outra, todas as vezes que os Gregos constroem uma diante das portas. Porque? Porque estão condicionados assim.
Embora descendam apenas remotamente daqueles que construíram uma parte importante dos alicerces da civilização ocidental, os Gregos modernos não perderam nenhuma das características da sua história real e mitológica da época clássica. Cidades-estado que nunca constituíram um país unido. Democracias de vária ordem, autoritárias ou paralisadas por divisões internas, que nunca incluíam os comerciantes, os servos e ainda menos os escravos. Durante todos estes séculos que entretanto passaram, contaminaram a Europa em profundidade. Primeiro Roma, que ao conquistar as cidades gregas integrou os seus deuses, ou seja, a sua filosofia de vida. Depois os próprios Romanos disseminaram essa civilização por todo o seu mundo até chegar a grande noite da barbárie e da superstição medievais.
Estes Gregos… por quem se realizam os oráculos dos desastres europeus, que testam os limites da paciência  dos amigos e dos inimigos. Que dizem uma coisa e fazem outra, ou não fazem nada. Que fazem promessas que não cumprem. Que vendem gato por lebre. Que se dividem uns contra os outros. Que se contradizem e se batem entre eles e contra o exterior. Que se comportam como os seus antigos deuses. Que afinal são… gregos, de quem todos os europeus têm uma costela biológica e parte da estrutura mental.
Para cada um dos capítulos da tragédia que tem sido a sua participação nos projectos europeus, pode-se sempre encontrar uma analogia, uma citação da sua própria mitologia. As cidades-estado, com todas as suas qualidades e defeitos, com todas as suas forças e fraquezas, resistiram aos Persas mas foram absorvidas pelos Romanos. Se compararmos as nações europeias às antigas cidades gregas, e a União como uma necessidade de sobrevivência igual à das antigas coligações, será necessário identificar sem confusão quem são os novos Persas e quem são os novos Romanos. Quem é preciso enfrentar e com quem é preciso colaborar. Porque somos todos gregos.
Afinal, desde a época clássica que estas histórias se têm repetido sob diversas formas, sem que as sucessivas gerações tenham aprendido grande coisa. Atavismos, como se vê.
JSR

Friday, January 27, 2012

88 - Os Limites da Liberdade e da Democracia

O impasse económico actual faz com que apareçam cada vez mais claramente os limites de funcionamento das democracias ocidentais, do capitalismo liberal que as sustenta e do exercício da liberdade individual dos cidadãos na qual se baseiam.
Todos estes conceitos e as suas justificações filosóficas, encontram-se agora diante do ataque frontal de concepções diferentes e competitivas na escala global. Como instrumento de avaliação, ou benchmark, está apenas a eficácia na gestão económica e a sua consequência politica no poder dos estados.
As democracias europeias e norte-americanas atingiram um equilíbrio social e uma prosperidade alargada, ambos devidos ao crescimento económico em todas as áreas produtivas nos anos que se seguiram à segunda grande guerra do século passado. Foi bom enquanto durou, mas chegou ao fim.
A liberalização do comercio mundial, a queda das tarifas protectoras das especificidades de cada estado ou de cada região económica, pôs em competição global directa todas as empresas e todas as classes produtivas. As empresas com vantagens comparativas de qualidade, produtividade ou implantação de mercado, assim como os gestores e profissionais mais bem preparados, podem ver os seus lucros ou remunerações crescer. Mas as empresas e os trabalhadores mais expostos à competição vinda de lugares de mão de obra mais barata, sem ou com menores custos de protecção social, acabam por desaparecer ou perder os postos de trabalho.
Este re-equilibrio mundial favorece os países emergentes e assinala a decadência das antigas potências industriais da Europa e da América do Norte. Com as dificuldades económicas questiona-se tudo o que tem feito a superioridade, ou pelo menos a diferença, das sociedades Ocidentais: a democracia secular, o capitalismo liberal, o estado social.
Pode um despotismo benevolente à la Singapura equilibrar melhor os interesses de diferentes comunidades, juntas num processo acelerado de desenvolvimento? Pode o capitalismo de estado, apropriado por um partido ditatorial, sacrificar a maior parte da população ao enriquecimento e projecção do poder do país, como está a fazer a China? Podem países subdesenvolvidos, mas ricos em recursos naturais, ser representados apenas pelas máfias que se apropriaram do poder e dos despojos, investindo as sobras nos fundos soberanos em seu benefício, como fazem os emires do petróleo, alguns ditadores africanos, ou também a Rússia?
Das respostas a estas perguntas, debatidas com o alarme da preocupação e da urgência  nos meios académicos e políticos, depende o futuro. Tudo o resto são situações conjunturais. 
JSR

Sunday, January 22, 2012

87 - A Crise Chegou ao Paredão de Cascais (Conversas Surrealistas)

"As Banhistas" de Joana Rosa Bragança
Nestes dias que o calendário pretende serem de Inverno, mas onde a temperatura é de Primavera e o Sol é de Verão, a crise chegou insidiosamente ao paredão de Cascais. Realmente nada parece o que é.
São quase duas da tarde e conseguimos mesa num restaurante, estranho, costuma haver fila, mas nas mesas apenas uma família inglesa está a almoçar, nas outras predominam águas e cafés.
Ao sentarmo-nos, devemos ter atravessado uma descontinuidade de espaço/tempo, porque aterramos inadvertidamente num daqueles programas televisivos para sopeiras do tempo da outra senhora.
Extractos do diálogo duma mesa para outra, em diagonal, duas balzaquianas magras com o mesmo cabelo longo, pintado em farripas, ripado:
- Olá, é a Zé-Zé, não é?
- Sou...
- Ah, mas está tão bem! Bem mesmo! Não a via desde o “take” em Oeiras. Nem parece que... Sou a irmã do Chico.
- Tenho andado doente.
- De quê?!
- Da cabeça...
- Isso andamos todas! Todas! Mas... é por causa do Pedro?
- Sempre foi um pai ausente, mas agora que eu tenho um amigo está sempre a telefonar às filhas. 
Chega uma miúda vinda da praia (cópia conforme da mãe, cerca de 12 anos, mini-saia e botas de montanha), interrompendo o diálogo.
- Mãe, estou cheia de fome.
- A menina quer comer aqui ou esperar pelo Pedro? Não sei onde ele quer ir com vocês.
- O pai está com a Nhô-Nhô.
- Falei com ele e disse que vinha mais tarde.
A filha senta-se e a Zé-Zé faz telefonema após telefonema, freneticamente, intercalados apenas com beijos e marradinhas no companheiro, calado, ausente.
Subitamente:
- Mafalda, telefone ao Pedro.
- Quero ir almoçar com a Nhô-Nhô, estou cheia de fome. E a Pilar também.
A Pilar chega da praia, quatro ou cinco anos, vestidinho de Alice no País da Maravilhas, meias altas e sapatos de verniz. Quer ficar de costas para o Sol e arrasta uma cadeira à volta da mesa, encalhando com tudo o que não se afasta tão “presto” como os cães estacionados por ali.
- Quero um hambúrguer.
- Mafalda, tome lá o telefone.
- Não.
Pouco tempo depois chega um tipo baixote e anafado com uma rapariga pós adolescente, beija as miúdas, beija a balzaquiana da outra mesa, diz “Olá” à Zé-Zé, faz um aceno ao tipo sentado na cadeira do lado como uma “potted plant” que inesperadamente sussurra entre os dentes “senhor doutor...”, e voltando-se para as miúdas:
- Já almoçaram?
- A Pilar quer um hambúrguer.
- A Mafalda também.
A Zé-Zé para o empregado:
- Oh, faz favor!
- Queremos duas saladas disto e daquilo, dois hamburguers, um deles com um ovo a cavalo, mais uma dose de batatas fritas e coca-colas e uma super-bock e...
No meio da conversa generalizada de mesa a mesa o tipo anafado acabou por se sentar com a outra balzaquiana, que imediatamente lhe começou a ajeitar o cabelo e a camisa, a encostar-lhe a cabeça ao ombro e a fazer outros tagatés ternurentos.
À mesa do lado chegaram os almoços, todos comeram, as miúdas voltaram à praia, a “potted plant” desapareceu sem que ninguém se tivesse dado conta, a Zé-Zé partiu a caminho da casa de banho. Ficaram as peças de roupa nas cadeiras e a loiça na mesa.
Finalmente, da outra mesa em diagonal o “senhor doutor, pai ausente” pediu a conta, olhou para o papel, olhou à volta para a mesa do lado vazia, pegou na máquina que o empregado lhe estendia e marcou o código.
JSR

Saturday, January 14, 2012

86 - Os Desastres das SCUT

"The Toll Gate" by Cornelius Krieghoff
Published 2/02/2012 by "Jornal do Fundão".
                                                                    A introdução de portagens electrónicas nas auto estradas Sem Custo para o UTilizador é, além dum contra-senso, um monumento à imprevidência financeira, à ignorância económica e à miopia política.
A intenção original era boa, desencravar o interior do país com uma rede de auto estradas. Mas de boas intenções está o inferno cheio. E então a indispensável concorrência do caminho de ferro? Antes das auto estradas, levava-se sensivelmente o mesmo tempo numa viagem de carro por caminhos de cabras glorificados com o nome de estradas nacionais, ou pelo caminho de ferro lento e desconfortável. Num caso como noutro, de Lisboa às Beiras era um dia de viagem, com paragens frequentes e uma média de 50 a 60 km hora. A rede de transportes era má, atrasada e resultou na desertificação do interior, onde não havia progresso porque ninguém se arriscava a investir.
A solidariedade europeia e nacional custeou o investimento nas infra-estruturas, mas porquê apostar tudo nas estradas e porque não foram melhoradas de forma semelhante as linhas férreas? Como em tudo o que é concessionado, porque não foram imediatamente cobradas portagens, mesmo simbólicas, mas sempre preferíveis porque o custo é reconhecido e amortizado sobre um período mais longo? Mudar agora de ideias é de uma falta de visão política, económica e estratégica de fazer desanimar qualquer um. Quando se faz uma asneira, primeiro assume-se e depois analisa-se bem como corrigi-la sem que a emenda seja pior do que o soneto.
É precisamente isso que está a acontecer. O que em teoria era uma ideia brilhante, na prática revelou-se ser uma forma conveniente para alguns malandros com a responsabilidade de defenderem o interesse público, negociarem contratos leoninos para as empresas e em detrimento do Estado, para depois serem descaradamente recompensados com a saída directa das funções públicas para as empresas que tinham favorecido.
Ainda não foram auditados completamente nem renegociados os contratos das parcerias público-privadas. Mas agora, antes (ou em vez?) de corrigir as asneiras anteriores procurando restabelecer a equidade contratual e financeira através de legislação, auditorias e tribunais, passou-se já à parte mais fácil que é taxar o utente indefeso e prejudicar o investidor crédulo. Estas portagens inesperadas são prejudiciais sobretudo para o interior centro do país onde irão agravar a desertificação, pois destruiram a previsibilidade no planeamento de custos das empresas em geral, não só das que contaram com baixos custos de transporte e vêm agora o tapete a ser-lhes tirado debaixo dos pés, ou das rodas, mas também das que poderiam vir a instalar-se e lhes é lembrado que não podem contar com nada de estável, nem custos, nem impostos, nem legislação.
Parece que estas portagens são as mais caras da Europa e, para juntar insulto à injúria, a cobrança electrónica vem aumentar o elemento de estranheza, confusão e incómodo que afastarão o turismo para outras paragens. Tantas declarações acerca da importância do turismo e agora, nem os estalajadeiros e o seu pessoal escapam. Sucessivas campanhas de publicidade, investimentos públicos e privados estão a ser destruídos pelas notícias na internet onde as redes sociais dão conta da aberração da cobrança electrónica em termos sarcásticos e agressivos. Os resultados estão já a ver-se nos cancelamentos e nos desvios para outras paragens menos complicadas e mais acolhedoras. As campanhas de publicidade e anos de trabalho foram destruídos para sempre, porque os comentários e queixas na internet nunca mais se apagam.
Dizem que parece anedota, mas não tem graça nenhuma que se acabe com o turismo estrangeiro rodoviário no interior, porque só os masoquistas se sujeitam às incongruências da instalação dum sistema complicado para o utilizador pagante, tecnologicamente despropositado em zonas maioritariamente rurais. Cobram-se uns milhões em portagens, mas quanto se perde em receitas de turistas estrangeiros? Turistas que faziam funcionar pequenas e médias empresas que eram o balão de oxigénio para o emprego em localidades onde muitas vezes não há outras ocupações. Hotéis, restaurantes, unidades de turismo de habitação e rural, assim como toda a cadeia de fornecedores que disso dependem.
Analisemos por um momento a perplexidade dos automobilistas estrangeiros que entram desprevenidos em Portugal e se deparam com a multiplicidade de placas indicando que têm que pagar uns quantos  euros  de espaço a espaço. Uma espécie de mealheiro irritante e incompreensível. Muitos esperam até encontrar um stand de portagens, mas só encontram um já de outra auto estrada e esquecem o assunto. Outros percebem a diferença e quererão pagar, mas como? Parar numa estação de serviço só serve para lhes impingirem um dispositivo temporário de três ou cinco dias, que em muitos casos já não cobre a viagem de volta. Pedir explicações é igual a falar com uma parede.
Os visitantes frequentes, entre os quais os portugueses emigrados, telefonam para as entidades indicadas pelos media como responsáveis ou participantes nesta confusão, ou acedem aos sites respectivos na internet. Assim começa uma viagem à terra de ninguém da burocracia no seu esplendor mais malévolo. As informações são, ou incompreensíveis, ou erradas, ou contraditórias, ou incompletas, ou inexistentes. Passes rasteiros entre as Estradas de Portugal, a Via Verde e os CTT.
Para os persistentes com a sorte de encontrar num balcão alguém que vá confirmar com o superior se é possível fazer o que está no site da internet, que o superior chame o perito em informática porque não sabe como aceder a esta possibilidade no computador, que o perito saiba o que fazer para descobrir esta coisa de que nunca ouviu falar apesar das sessões de formação, o aspirante a utilizador tem que mostrar uma vez e outra as regras que imprimiu por precaução para obter o que pretende, e só depois de hora e meia lá consegue obter um dispositivo.
Mas depois, como aceder à conta de visitante frequente para saber o saldo e como recarregar essa conta? Ah, isso... não seria melhor ver mais tarde, terá que haver com certeza uma actualização nos sites dos CTT, da Via Verde, das Estradas de Portugal, ou... (dizem claramente as expressões acabrunhadas dos que se acumularam do outro lado do balcão) do diabo que carregue quem se lembrou deste sistema?
JSR

Saturday, January 7, 2012

85 - Portugal no Ano do Dragão

A China é tradicionalmente representada por um dragão, como a Grã-Bretanha por um buldogue ou a Rússia por um urso. Lembro-me de em criança ter tido um mapa da Europa onde cada país era representado por um animal.
Depois de séculos duma presença residual em Macau, são os chineses que têm chegado paulatinamente a Portugal. Primeiro, invadiram o pais com lojas de produtos a preços que destroem toda a concorrência. Agora, com a compra das acções do estado na EDP, abrem o caminho a outras participações importantes na economia nacional, no acesso aos mercados europeus e aos países de língua portuguesa.
O dinheiro não tem cheiro e raramente tem nacionalidade. Acontece que esta é uma das ocasiões em que tem. Os investimentos dum país governado por uma ditadura de partido único, onde a nomenclatura é efectivamente uma classe oligárquica acima do povo, são mais do que investimentos de capital, são instrumentos de politica internacional.
A 23 de Janeiro começa também o ano do dragão no calendário da astrologia  chinesa. A sabedoria de Confúcio e a precaução negocial dos mandarins que se confrontaram com os bárbaros que chegavam ao Império do Meio, recomendavam que mesmo não acreditando nas crenças dos outros é necessário conhecê-las. Ou seja: estar a par do que acredita quem acredita, a fim de compreender como pensa e como decide quem decide. Parece uma chinesice mas não é, talvez seja útil ler a frase outra vez. Por crenças não se referiam à astrologia, na qual os chineses acreditavam e acreditam, mas aplicaram o termo às novas ideias e religião trazidas para a China pelos portugueses e outros europeus.     
Embora o conselho seja sempre útil, chegou agora a altura em que se torna uma questão de sobrevivência para Portugal tomar as devidas precauções e as medidas de contenção necessárias. A China é uma máquina de produção para a exportação, que manipula o cambio da sua moeda a fim de manter as importações o mais caras possíveis e as exportações subsidiadas. Com custos mínimos de mão de obra e sem preocupações de solidariedade social, pode investir os lucros da economia no poder do estado dentro e fora das fronteiras, na perpetuação do regime e na qualidade de vida dos membros do partido e das forças armadas. O povo, tanto invocado pelas utopias comunistas, não tem nem voz, nem voto, nem benefícios sociais, e só partilha pouco e muito lentamente da prosperidade do pais.
Duma forma pragmática, todo o investimento é bem vindo. Vale a pena recordar que os xeques árabes enriquecidos pelas nacionalizações das companhias petrolíferas, investiram o seu dinheiro nos países dessas mesmas companhias, em Londres, em Paris, em Nova York. Beneficiaram todas as partes envolvidas. Mais tarde, a venda das torres de La Défense em Paris ajudou o Kuwait a pagar o esforço de guerra americano para derrotar a invasão pelo Iraque. Da mesma forma, a compra da dívida americana coloca vendedores e compradores com interesse igual na defesa do dólar.
É preciso que fique claro que a invasão pacífica pela China tem consequências importantes para Portugal, não só na economia onde até podem ser benéficas, mas também nas relações internacionais, onde o seu peso vai mudar as teias de interesses existentes, constituídos na Europa como no resto do mundo. Essas consequências têm que ser antecipadas e bem analisadas, para que a dinâmica desta nova situação possa ser usada em proveito nacional e não apenas para satisfazer ambições pouco recomendáveis.
JSR

Tuesday, January 3, 2012

84 - Um Blog em Eclipse Parcial

Monk-Scribe Astride a Dragon - mid 12th cent.
NY's Met.MA
Passou um ano e é tempo de avaliação. Este blog começou como uma experiência, uma contribuição para as conversas entre amigos próximos, ou a continuação dessas conversas, de acordo com a evolução da actualidade nacional e internacional. Começou por ser um blog privado, ou seja, aberto apenas a um grupo restrito que conhecia o título e fechado às pesquisas em série ou aleatórias.
Após várias hesitações, foi sendo aberto apenas parcialmente, devido a quem foi passando o endereço a um e a outros e se foram estabelecendo links com pessoas com quem é interessante dialogar, cada qual à sua maneira. Mais difícil é estabelecer o tipo de tertúlia que aparece naturalmente quando há vários contribuidores a escreverem posts.
Alguns comentadores têm a self-assurance de o fazerem na zona própria do blog. Outros, temendo a exposição, mesmo num blogue discreto como este, preferem faze-lo por e-mail, sms ou telefone, o que quase sempre é uma pena, pois aparecem comentários com interesse e humor que deviam ser partilhados. Por exemplo, alguém escreveu com grande verve, que entrou no primeiro blog por curiosidade, passou aos blogs associados e se perdeu no labirinto. Este ainda mandou um e-mail, outros provavelmente nunca mais ninguém os viu. Como reassurance, devo acrescentar que este não é o labirinto do Minotauro… É certo que este blogue foi dividido bastante cedo em quatro blogues interligados, pois alguns leitores comunicaram que o progresso de quatro linhas diferentes de textos lhes estava a criar confusão.
Outro comentário recorrente é a eventual publicação em livro de uma ou outra das linhas de histórias, por livro significando o suporte em papel, fora do qual nada parece ter seriedade ou permanência. Não sei se ainda assim é. Aproveitando a resposta a um outro comentário,  penso que os blogs são o seu próprio género. Podem ser um exercício em futilidade ou uma caixa de Pandora para quem escreve. Agrupam quem lê por áreas de interesse. Nunca são inocentes e ao entrar na net obtêm o que mais se aproxima da intemporalidade. Como os livros, têm a sua própria difusão, mais do que os livros, nunca desaparecem.
Deve ser aparente a quem siga o blogue com um pouco de assiduidade, que ultimamente este tem atravessado uma espécie de eclipse parcial. A razão é óbvia para quem siga a evolução dos temas dos posts, os quais frequentemente indicam o que vai acontecer se... e que depois efectivamente aconteceu porque...
Repetem-se na Europa problemas cuja solução tem precedentes, repete-se em Portugal uma história que já foi satisfatoriamente resolvida noutros países, repetem-se com as pessoas situações evitáveis, que embora atinjam cada um de forma diferente, acabam por ser deprimentes para todos. Será que a incapacidade de aprender com as experiências passadas se propaga como uma epidemia mortal?
Felizmente, todos os eclipses são por natureza temporários.
JSR

Saturday, December 31, 2011

83 - Voltar a Portugal

Return 1 - Zahi Khamis
Ditoso Camões, que amava a Pátria à qual voltava, apesar desta lhe ser madrasta. O lugar onde se nasce completa a programação dos genes que nos fazem, depois vem a educação e finalmente, se tudo correr pelo melhor, o sentido da responsabilidade individual. Mal vai o país onde os cidadãos não entrem na idade adulta sabendo que têm que o fazer pelo seu pé e viverem a sua vida sem depender das benesses de ninguém.
Estes foram alguns dos pensamentos que preencheram uma noite sem sono durante o último voo de travessia do Atlântico, lendo relatórios sobre as crises internacional e nacional, assim como notícias sobre diversas manifestações e movimentos de “indignados” aqui e acolá. Indignados porque já ninguém aceita levá-los ao colo como crianças dependentes, nem as famílias, nem as empresas, nem os Estados.
Depois de ausências de meses, anos ou décadas, os regressos a esta “ditosa pátria minha amada” são sempre experiências traumáticas, de alguma forma. Voltar primeiro para as reuniões familiares alargadas do Natal ou para umas semanas de férias, representou de cada vez a surpresa e a descoberta duma realidade desconhecida. Voltar depois por uns anos, constituiu uma sucessão de choques contra as paredes de vidro do conformismo com a tradição, da resignação com as superstições, da passividade com as estrituras impostas por um regime autoritário.
A idade adulta trouxe finalmente as asas para voltar a voar para fora e bem acima da cerca. Partir por muito tempo, mas sem nunca perder o contacto. Quem não está contente com a situação em que se encontra, ou muda a situação ou muda-se a si próprio para onde se encontre melhor. Tudo o que pára, estagna e morre. Ao longo de tantos séculos de história, Portugal viu partir os mais descontentes e os mais empreendedores, à custa dos quais viveu os seus raros períodos de prosperidade. Construíram-se impérios comerciais e vieram escravos, especiarias e ouro. Os que ficaram souberam sobretudo esbanjar tudo o que receberam em monumentos à sua vaidade, luxos de importação, conventos onde sobreviveu alguma sabedoria e muita inutilidade, sem nunca serem capazes de fazer frutificar o capital numa economia sustentável.  
Voltar desta vez, talvez a última, tem sido um reencontro progressivo e uma adaptação difícil, onde ainda continua a doer a estranheza de tudo. O principal choque, ao voltar a este pequeno país europeu, é uma confusão mental e física maior do que é aparente em visitas curtas. A confusão mental manifesta-se pela frequente irracionalidade na definição, na avaliação e na resposta às situações, na falta de rigor das alternativas propostas, na má execução dos projectos, na incapacidade de aprender com os erros passados para evitar repeti-los. A confusão física manifesta-se naquilo que aparece como uma casa desarrumada. Leio num jornal que um gestor conhecido e boçal partiu o vidro duma janela do carro ao tentar atirar uma garrafa para a estrada, enquanto conduzia e falava ao telefone... Quantos atentados às leis e quanta falta de educação e civismo se concentram neste gesto.
Por outro lado, este país é um dos raros lugares relativamente civilizados do mundo, onde se pode viver em paz, liberdade e com alguma qualidade de vida, mesmo limitada. Uma democracia razoavelmente funcional, assente numa burguesia minoritária, mas inteligente e instruída, alguns mesmo brilhantes, outros palradores e quezilentos, enquanto que a maioria popular está ainda em vias de desenvolvimento escolar, social e de cidadania. Uma economia liberal, embora a maioria dos empresários continuem dependentes do Estado e dos favores políticos, haja relações incestuosas entre as funções públicas e privadas, a maioria dos empresários e  trabalhadores sejam pouco qualificados, pouco produtivos e em servidão contratual com bancos e programas de subsídios. Um estado providência tentacular, que é a salvação da população mais carenciada, mas com uma burocracia excedentária, com hábitos de favores e corrupção, além de lenta e pouco eficaz.
Um país de pequenos contrastes, que vistos localmente parecem enganadoramente grandes. A crise financeira internacional, a falta de clarividência dos principais responsáveis Europeus e nacionais, a crise da dívida de vários países da zona Euro e particularmente deste, estão a afectar profundamente a cultura do país. A Terceira República começada em Abril de 1974 deu predominância política ao progresso social e de infra-estrutura, sobre a sustentabilidade económica. O consequente desmoronar sob o peso das dívidas, traz agora um recuo significativo de nível de vida para toda a população, que terá que alinhar as suas necessidades bem reais com a reduzida capacidade económica de que o país é capaz.
O principal prazer de voltar a Portugal, é sempre o reencontro com a cultura no seu sentido lato, aquilo que a tradição chama “a alma nacional”. Em Lisboa, na província e mesmo nos que estão no estrangeiro, há uma transversalidade dessa cultura abrangente que transporta consigo cada Português, que é quase sempre reconfortante, mesmo que por vezes possa irritar profundamente. Fado, Fátima e futebol, já mantinham as massas populares numa apatia suficientemente imbecilizante, agora junta-se o triunfo da frivolidade nos media em geral e na televisão em particular, onde concursos, telenovelas, astrologias e outro lixo, são debitados até ao estado de coma intelectual.
A cultura é decerto ainda maioritariamente conservadora, mas com excepções importantes na literatura, nas artes e nas ciências. Notáveis excepções de mérito individual. A dependência dos subsídios do estado impede a clarificação da qualidade pela sobrevivência dos mais aptos. Como os subsídios dependem do gosto (ou falta dele) de quem toma as decisões, de compadrios e de politiquices, a cultura não vai a lado nenhum que valha a pena por esse caminho. Os artistas dependem historicamente de patronos oficiais ou privados que asseguram a sua sobrevivência, raros são os que dependem apenas do público que aprecia, compra ou assiste à representação das suas obras. A dependência traz sempre compromissos, mas a dependência sem exigência é desmotivadora e aviltante. Considerar a cultura como fazendo parte dos preconceitos ideológicos de redistribuição social, provoca inevitavelmente o abastardamento da qualidade, como se prova uma e outra vez.
Com os novos meios de comunicação dá-se um acesso cada vez maior à informação em qualquer lugar e de onde quer que nos encontremos. A porta da internet permite saber instantaneamente o que se passa do outro lado do mundo, aceder, ver, participar ou comentar. Os acontecimentos são em directo. Vê-se muito melhor um jogo de futebol ou uma Ópera no conforto de casa do que no estádio ou no auditório. Falta a interacção com os outros, os que estão na assistência ou os que estão no terreno ou no palco, mas o calor humano e as multidões tornam-se cada vez mais e para um número cada vez maior de pessoas, inconvenientes e desnecessários.
De tribos de homo sapiens sapiens, a parte da humanidade mais inteligente e cientificamente avançada transforma-se progressivamente em associações de interesses desencarnados num mundo cada vez mais robotizado e mais virtual. Contactamos com a terra, o mar e os animais donde extraímos os alimentos através de máquinas. Deslocamo-nos através doutras máquinas. A saúde depende de sistemas cada vez mais automáticos. Os computadores servem de intermediários para com o governo, a administração, as empresas e os amigos. Até a guerra necessária para nos defendermos dos bárbaros que atacam a nossa civilização racional e frágil, se torna progressivamente dependente do controle das comunicações, da vigilância por satélite, de robots e de drones comandados à distância. Combatemos os bandidos das nove às cinco, diante dum écran de onde se comanda o bombardeamento dos terroristas e o ataque aos extremistas.
Voltar a Portugal e continuar ligado ao mundo exterior já não é uma singularidade ou um desafio, é um estado comum para muitos, mas não para todos. Esta divisão acontece em cada povoação, cada cidade, cada país, cada continente. Pode ser maior a distância de interesses e conhecimentos entre dois vizinhos da mesma rua do que entra dois amigos no Facebook situados nos antípodas um do outro. É neste mundo desconstruído que vivemos. Esbate-se a solidariedade social, ignoram-se os interesses comuns, desaparece a democracia onde tenha conseguido florescer, aumenta a insegurança. Cresce o tribalismo nacional, a criminalidade transnacional, as máfias em simbiose com regimes autoritários, a mediocridade política nacional e internacional.
“Não me tapes o Sol”, conta a lenda que disse Diógenes a Alexandre. Não nos tapem o Sol com uma peneira, dizemos nós aos aprendizes de feiticeiro que não ousam atacar os problemas de frente, as sucessivas crises políticas, económicas e sociais dos lugares onde vivemos. Na realidade, tanto o fracasso como o sucesso resultam da acção e podem sempre ser revertidos. A verdadeira derrota é a irrelevância, o navio parado no meio do oceano sem velas e sem motor. O acumular de incompetências e desvarios a que ninguém presta a devida atenção durante muito tempo e que de repente se pode revelar um buraco negro onde tudo desaparece.
Aqui estamos neste fim do ano de 2011, à beira do abismo financeiro, económico, social e político. Em Portugal, como em outros países, ouvem-se as vozes irresponsáveis vindas da Europa e da América, insistindo em que é preciso e urgente dar um passo em frente. É preciso resistir, mas para resistir é preciso saber como, o que obviamente nem todos sabem.
Este é o último post deste ano, com desejos sinceros que 2012 seja um ano melhor.
JSR