Wednesday, May 11, 2011

44 - O Monstro - A Kindergarten on Drugs

Kindergarten
Architecture Creativity Prize
Ao voltar ao seu poiso de Cascais e abrir a janela do escritório, o Albatroz deu de caras com o monstro da Legoland.
Uma construção que parece o pesadelo duma criança de infantário, que vê uma brincadeira com peças do Lego transformar-se num enorme monstro negro junto ao mar. Vem à memória o livro “All I really need to know I learned in  kindergarten”, de Robert Fulghum, cuja influência chegou também, obviamente, à arquitectura...
O edifício do hotel Estoril Sol que lá estava antes também não tinha sido concebido por um arquitecto em dia de inspiração, mesmo para a época, mas isto ultrapassa todas as agressões paisagísticas na baía.
Até há pouco tempo, o monstro estava tapado da vista das janelas do poiso do Albatroz, pelas árvores do jardim duma vivenda de telhado verde. Habitada primeiro por pessoas que mantinham o jardim impecavelmente tratado. De súbito, apareceu a entrar e sair um grupo de esgrouviados, com ar de “apanhados” por alguma dessas seitas que enriquecem a explorar os pobres, com preços tabelados para milagres. Bon, on s’égare...  
O certo é que a vivenda se tornou numa espécie de comuna e agora o jardim está abandonado, buxos e ervas crescem selvagens, deitaram abaixo as árvores e o telhado está “ratado” nos beirais.
Raios os partam. Havia uma vista para o mar e para as árvores. Agora, no lugar das árvores está uma savana e logo a seguir avista-se a demência dum “kindergarten on drugs”...

JSR

Monday, May 9, 2011

43 - The Assassins - Os Assassinos

An agent of the Order of Assassins fatally stabs Nizam al-Mulk, 
a Seljuk vizier (Topkapi Palace Museum)

Osama bin Laden was disposed of. Good riddance, at long last, of an infamous murderer. Ensconced where everybody knew he would be, one of the deviously pious countries where the rule of law is merely a secular wish. Religious banditry is nothing new, but with him it went global.
The sect of the “Assassins” existed during the Dark Ages, from the 11th to the 13th centuries, when the Persians dominated the Middle East. They inhabited mountain fortresses and were trained killers, “users of hashish”, responsible for the elimination of any authorities opposing their leader, "the old man of the mountain” and the sect’s beliefs. Sounds familiar?
Nothing much changed since then, in that awkward region of the world. 
--- 
Osama bin Laden foi eliminado. Até que enfim o mundo se vê livre de um famigerado assassino. Escondido onde todos sabiam que ele estaria, um dos países de religiosidade tortuosa, nos quais o respeito pela lei é apenas um desejo secular. O banditismo religioso não é nada de novo, mas com ele tornou-se global.
A seita dos "Assassinos" existiu durante a Idade das Trevas, dos séculos 11 a 13, quando os Persas dominavam o Médio Oriente. Habitavam fortalezas nas montanhas e foram assassinos treinados, "os drogados com haxixe", responsáveis pela eliminação de quaisquer autoridades que se opusessem ao seu líder, "o velho homem da montanha" e às crenças da seita. Soa familiar?
Pouca coisa mudou desde então, naquela estranha região do mundo.
  
JSR

Sunday, May 1, 2011

42 - O novo auto da “Floresta d’Enganos”

Gil Vicente ?
“Quién será que no se enoje y todo mal se le antoje de una necedad tamaña. Yo no sé quién sofrirá y a quién no enhadará los desvaríos que aquí van.”
O auto de Gil Vicente está, cerca de cinco séculos depois de escrito,  a ser de novo representado.
Desta vez, diante duma corte diferente, descreve-se o mesmo suplício. O Filósofo quer ocupar-se das coisas sérias, pois pressagia os tempos sombrios que estão para vir, quer que todos saibam a verdade e se comportem em homens livres.  Porém, o Parvo, um bobo impertinente que trás amarrado ao pé, está sempre a interrompê-lo com perguntas e comentários… parvos. Não só na época, como sobretudo agora, filósofos e parvos são a declinar no plural...
No tempo de D. João III , beato e néscio, os problemas foram a introdução da Inquisição, que provocou a fuga dos mercadores judeus e cristãos novos, a descapitalização do reino e a necessidade de recorrer a empréstimos externos.
Seguiu-se a decadência económica, a perda das rotas comerciais mais rentáveis e, alguns anos depois, a perda efectiva da soberania nacional.
Faz lembrar alguns aspectos da situação actual ? Pergunta retórica, claro que faz. Com governantes néscios e uma grande parte do eleitorado “parvo”, é evidente que o pais tem que sofrer, e com ele todos os “filósofos” que se preocupam com a verdade da situação e o bem da coisa pública.
Com um outro tipo de inquisição agora em Portugal, a negociar as condições dos empréstimos indispensáveis, continuamos a assistir a um auto de enganos e desenganos, uma competição desequilibrada à beira do precipício, entre cartilhas repetidas até à exaustão e propostas e garantias e promessas e insultos e disparates. Entretanto os deuses descerão dos Olimpos de Washington e Bruxelas com as regras da governação e as condições do seu cumprimento.
Tudo isto vai durar até às eleições e nada indica que mudará depois. Entendimento entre os partidos sobre a partilha dos despojos? O Auto acaba assim:
“No esperéis más recado pues os es honra y provecho qu’el casamiento alongado pocas veces se vio hecho.”

JSR

Sunday, April 17, 2011

41 - Requiescat in pace - O Fim da Terceira República (9)

"Palhaço Triste"
This series of 9 posts was published 5/5/2011 by "Jornal do Fundão" - online edition.

      9. A Terceira República? Requiescat in pace.
Cada país que pede ajuda ao FMI e agora também ao Fundo Europeu (neste caso a Grécia, a Irlanda, Portugal e provavelmente amanhã a Espanha, para não mencionar outros países periclitantes) considera que o seu caso é especial, original, único. No entanto, a única novidade é estes países pertencerem a uma união monetária.
Para quem conheça o trabalho do FMI e de outras caixas mutualistas dos Estados, estas são histórias repetitivas. A culpa nunca é de quem não se soube governar, de partidos que prometem mundos e fundos para ganhar eleições e depois gastam mais do que o país produz. A culpa é sempre de quem empresta e em troca obriga a viver dentro dos seus meios, pagar as dívidas, desenvolver a economia e cumprir as regras de bom comportamento no comércio internacional. 
    Os governantes sem visão e sem autoridade, necessitam do "papão" duma entidade exterior a quem atribuir a culpa das reformas necessárias mas dolorosas. Quase sempre a estratégia funciona, os eleitores são suficientemente infantis para acreditarem nessas tretas, como afinal acreditam em muitas outras.
Mas os factores que entram no sucesso dos programas de ajuda externa, ou no seu falhanço, também são conhecidos. O sucesso vem da honestidade na avaliação, da celeridade do pedido, do acordo das forças políticas, da ordem social e da disciplina na execução dos programas. O falhanço é inevitável quando o desequilíbrio financeiro é excessivo, quando os juros dos empréstimos são demasiado altos e a recessão impede o crescimento da economia, quando o tempo necessário ao reembolso das dívidas não permite que a sociedade aguente os sacrifícios, quando os mercados se conluiam em alcateia com as agências de rating para atacar uma presa em dificuldade e lhe cortam todas as rotas de escape.
    Quando a situação assim o exige, é preciso saber jogar o xadrez multi-dimensional e multi-lateral, jogar primeiro a favor da corrente, esperar o momento e então ter a coragem de dizer basta. Por agora, Portugal está sem dinheiro e precisa imediatamente dum empréstimo. Negocie-se com dignidade e obtenham-se as melhores condições possíveis com a ajuda do FMI, que neste caso é melhor aliado do que os Europeus que também vão emprestar os fundos e querem fazer um exemplo dos três irmãos pródigos, obrigando-os a pagar juros elevados. Mas, quando a corda não estiver na garganta, é preciso reestruturar a dívida.  
Em geral, os países em dificuldade, ou mais especificamente as suas elites dirigentes, entram primeiro em negação, depois propagam esperanças fantasiosas e só tarde demais aceitam a realidade da situação. Durante todo este tempo é a população mais frágil que sofre as consequências do pretendido orgulho nacional, mas do muito real egoísmo das cliques governantes. 
       No caso dos três países do Euro que estão neste momento na berlinda, a situação complica-se com as declarações dos responsáveis da União, que já mencionaram que mais tarde a reestruturação fará parte dos pacotes de ajuda. Quando o génio sai da almotolia, já não volta a entrar. Nem os mercados, nem ninguém de bom senso, acredita que as ajudas presentes não venham a seguir o mesmo caminho.
É nestes momentos que se distinguem os palhaços dos estadistas, nacionais e europeus. Os palhaços desperdiçam o tempo dos espectadores em falsas histórias e falsas querelas, apenas para prolongar o seu próprio tempo na pista. Os estadistas sabem negociar e eventualmente fazer bluff, na defesa dos interesses superiores das nações e da União. Sabem decidir a seu tempo as rupturas necessárias e tomar a responsabilidade de mudar de direcção.
Foi na audácia de rupturas que nasceu Portugal e foi assim que sobreviveu a muitas crises da sua história. Esta é mais uma. Os portugueses precisam de esperança, precisam de estadistas que lhes mostrem uma luz no fim deste túnel em que entraram. A luz duma mudança de regime político, que reforme e actualize a Constituição, as instituições, as estruturas sociais e tudo o resto que daí deriva. 
        Venha a Quarta República o mais cedo possível. Como estamos ancorados na União Europeia e já não existe o perigo de fundamentalismos ideológicos prevalecerem, só poderá ser melhor do que a Terceira.

JSR

Saturday, April 16, 2011

40 - Reestruturar a dívida - O Fim da Terceira República (8)

"Don Quixote" by Scott Gustafson
8. Reestruturar a dívida
Reestruturar a dívida é a expressão politicamente correcta para uma declaração de falência. Funciona para um país, como para uma empresa ou uma família. Um acordo com os credores permite pagar uma parte e obter o perdão do resto. De forma a salvar o que é possível, antes que a economia se esgote na luta contra moinhos de vento.
A definição de inteligência é a capacidade de aprender com os erros e corrigir o rumo. Basta olhar para os exemplos de outros países, mas mais especificamente a Grécia e a Irlanda (por estarem na zona Euro), para se perceber que Portugal já passou o ponto de não retorno, que apesar de todas as austeridades e todos os sacrifícios, haverá num futuro próximo necessidade de reestruturar a dívida.
Não é fácil nem agradável, durante algum tempo os mercados não se arriscam a emprestar e a torneira do crédito fecha-se. O financiamento só poderá vir dos clubes a que se pertence, como o Fundo Europeu e o FMI, que nunca perdem o que emprestam porque são os primeiros a ser reembolsados, e além disso estabelecem as regras da recuperação.
Os países mais ricos, exportadores e parceiros da União Monetária, assim como os Bancos que detêm títulos de dívida dos Estados, detestam esta possibilidade. Desde que os países pobres e os pobres de cada país, forem pagando os juros altíssimos, porque hão-de querer mudar de paradigma?
É preciso quebrar o círculo vicioso, é preciso que haja estadistas que tenham a coragem de declarar que se quer reestruturar a dívida e já. Um pontapé no vespeiro europeu e o problema passa a ser também da União e dos Bancos de todos os países que têm dívida portuguesa. Aumenta a margem de negociação para poder fazer as mesmas reformas indispensáveis, mas com menor sofrimento para a população e maior possibilidade de crescimento da economia.
Encosta também à parede os países e as instituições europeias, de forma a acelerar o estabelecimento dum verdadeiro governo económico para a União. Se é preciso proteger o Euro, que beneficia todos os países europeus mas sobretudo os que mais exportam, porque hão-de ser só os países em dificuldades a sofrer as consequências de não poderem desvalorizar a moeda? Assim como o governo federal americano cria barreiras às consequências nacionais da falência individual dos Estados, como por exemplo através de obrigações federais, assim a Europa tem que impor regras de governo financeiro que penalizem os governos irresponsáveis, mas proteja, na medida do possível as populações de toda a União.
Quando a economia estiver a crescer, os mercados ganham confiança e tudo volta ao normal, excepto que a vida para as pessoas também “normais” melhora mais depressa.
(continua)
JSR 

Friday, April 15, 2011

39 - Estadistas, precisam-se - O Fim da Terceira República (7)

“Arringatore” c. 150 BC.
             Museo Arch., Florence
7. Estadistas, precisam-se
O último governo e agora os partidos em competição eleitoral, debitam hipócritas encantações populistas em vez de assumirem a realidade. Sabem que as promessas não podem ser cumpridas, porque são contrárias aos compromissos já assumidos junto dos credores para negociar os empréstimos, mas continuam presos à narrativa duma realidade paralela. Wishful thinking.
Seria necessário que os cidadãos tivessem a clarividência de exigir aos partidos que estes apresentassem às próximas eleições apenas os candidatos a deputados que tenham adquirido experiência da vida real, competência profissional e credibilidade pessoal.
O país precisava agora de estadistas. A Europa precisa de estadistas. A maior parte dos países do mundo também. Infelizmente, as democracias produzem frequentemente líderes fracos, periclitantes sobre apoios populares transitórios, e as ditaduras fazem-se quase sempre de títeres corruptos, extremistas e desprezíveis.
Os estadistas não nascem nas árvores, nem nas incubadoras de confortos e privilégios partidários, nem no parasitismo dos favores cruzados com os negócios do estado. Os estadistas têm em comum uma educação de exigência e de liderança, o sentido do dever para com a colectividade, a perseverança em competição na sua realização profissional, o tempero do aço nas provações pessoais e na adversidade. Não cabem aqui, nem membros de nomenclaturas, nem boys, nem jotinhas.
Só com personalidades credíveis e com consciência dos interesses nacionais, se pode esperar o que é agora indispensável: primeiro e imediatamente, os acordos necessários entre partidos para obter os empréstimos; depois das eleições, a escolha de governantes que saibam o que fazem, que ponham o bem futuro do país acima dos benefícios partidários e pessoais imediatos; e finalmente, o golpe de asa ou de rins, capaz de tomar a decisão difícil que se impõe, declarar a falência do Estado, renegociar as dívidas e reformar o país para que a economia possa recuperar em bases mais sólidas. 
(continua)
JSR

Thursday, April 14, 2011

38 - A humilhação e o sofrimento - O Fim da Terceira República (6)

L'umiliazione di Canossa
6. A humilhação e o sofrimento
Para o país, este é um tempo de humilhação internacional e de sofrimento nacional.
A humilhação internacional é provocada pela trágica incompetência do governo na gestão da coisa pública, pela transparência infantil da estratégia usada por esse mesmo governo ao sacrificar o bem da nação à sua sobrevivência partidária no poder, pelo espectáculo lamentável de provincianismo nas querelas actuais da classe política, e sobretudo, humilhação maior e mais duradoura, pela imagem que fica de menoridade política dum povo. Finalmente, pela falta de dignidade em deixar sem resposta e sem retaliação apropriadas, algumas declarações públicas de responsáveis de instituições e países, acerca de situação portuguesa. Mas onde estão os dignitários nacionais e a diplomacia? Há uma enorme diferença moral entre estar falido e ser pusilânime. 
O sofrimento nacional já começou com as meias-medidas dos PECs. Mas as condições impostas para o empréstimo do Fundo Europeu e do FMI, embora necessárias, vão ser muito mais duras de suportar para um país mal habituado ao esforço e à disciplina, sobretudo durante um longo período. As reestruturações do funcionalismo público, das empresas públicas e privadas, as privatizações, vão aumentar o desemprego. O aumento dos impostos, as diminuições de salários e pensões, o aumento dos juros dos empréstimos da habitação, a subida dos preços dos combustíveis e da alimentação, vão empobrecer as classes médias e desesperar os mais carenciados.
Neste momento o país pode recorrer à ajuda externa de quem puder, mas o peso das dívidas e dos seus juros já é tão grande que a economia não se pode desenvolver. A depressão económica é uma doença cuja agonia é dolorosa e lenta para toda a população, mas obviamente muito pior para os mais desfavorecidos e mais frágeis.
É preferível o choque dum tratamento enérgico que salve e devolva a saúde o mais depressa possível. Esse choque implica o reconhecimento que é melhor declarar honestamente que o peso dos encargos é excessivo e que o barco pode ir ao fundo se não se deitar pela borda fora o excesso de carga, ou seja, a parte da dívida que não se conseguirá pagar.  
Quanto mais cedo melhor, menos sofre a população e mais depressa retoma a economia.
(continua)
JSR

Wednesday, April 13, 2011

37 - O socialismo outra vez na gaveta - O Fim da Terceira República (5)

The fall of the Berlin wall
5. O socialismo outra vez na gaveta
Como os pobres a quem sai a lotaria, gastam tudo disparatadamente e acabam depois a pedir, assim este regime começou por desbaratar a tesouraria anterior, teve que chamar o FMI e pôr o socialismo na gaveta para tomar as medidas necessárias para recuperar das duas primeiras crises financeiras, esbanjou os benefícios da entrada na Comunidade Europeia, com os juros baixos e os fundos de coesão, e acaba agora na terceira falência financeira.
O socialismo chega sempre ao fim quando se acaba o dinheiro dos outros, uma verdade que abarca a Europa, da Inglaterra de Thatcher à União Soviética de Gorbachev, passando pelos países do Sul que acreditam que haverá sempre alguém, sejam “eles” ou “os ricos”, para pagarem tudo a que se acham com direito. Acabaram-se primeiro as economias da governanta Salazarista, depois as transferências dos primos no estrangeiro e finalmente os dinheiros do casamento com Bruxelas.
Este “nobre povo” tem que mudar de mentalidade e começar a trabalhar a sério, a viver do que ganha e sem recurso ao crédito, a perceber que a educação e a saúde “tendencialmente gratuitos” não aparecem por milagre, a receber reformas proporcionais aquilo que efectivamente descontou para a velhice, a compreender que os subsídios do Estado são pagos pelos impostos de todos (todos... enfim, sejamos optimistas).
A primeira das lições de cidadania deve informar que, em relação a cada cidadão, assim como em relação ao país inteiro, para que a economia possa crescer... é preciso produzir mais do que consome. Uma parte da população não sabe fazer e ainda menos cumprir, um orçamento pessoal ou familiar equilibrado, tornando-se presa fácil de todo o tipo de predadores, económicos e outros. Depois queixam-se que os governantes que elegem, não fazem melhor com o orçamento do Estado...
(continua)
JSR

Tuesday, April 12, 2011

36 - A evolução deste Regime - O Fim da Terceira República (4)

Pompeii. House of the Tragic Poet. "Cave Canem" mosaic
4. A evolução deste Regime
Como é que este regime se pôde esgotar em pouco mais do que um quarto de século? Porque nasceu mal, cresceu torto e envelheceu precocemente.
O presente regime nasceu no meio das grandes esperanças de gerações que se sentiam asfixiadas, a burguesia pela falta de liberdade de expressão e de participação política, o povo pelo atraso económico e social.
As organizações revolucionárias e depois partidárias, algumas extremistas e enfeudadas a interesses exteriores em competição geoestratégica, outras puramente nacionais com ideias generosas de justiça social, impuseram políticas populistas e utópicas que descambaram na colectivização dos meios de produção, nas nacionalizações, na destruição duma economia distorcida mas em desenvolvimento.
Cresceu nas contradições duma evolução desequilibrada, misturando o positivo e o negativo. Na competição política, todos os partidos aceitaram a surenchère  de que se podia passar a viver imediatamente como os outros países europeus mais desenvolvidos, sem se preocuparem com a sustentabilidade, nem do processo de modernização, nem dos custos das medidas sociais.
Esta recuperação dos atrasos anteriores resultou  na liberdade de expressão, na arrumação partidária das ideologias, na abertura económica, no desenvolvimento das infra-estruturas e nas diversas protecções sociais, do emprego, da habitação, da educação, da saúde, das prestações de reforma, indigência e exclusão.
Envelheceu precocemente porque houve um falhanço espectacular e terceiro-mundista na evolução das instituições, no desenvolvimento humano e no progresso económico.
As revisões constitucionais andaram sempre atrasadas em relação aos tempos e as leis multiplicaram-se, atropelaram-se, desligaram-se da realidade, produzindo anomalias institucionais e uma justiça deficiente.
O povo não foi educado no equilíbrio dos direitos e deveres, nem no funcionamento duma sociedade avançada. O alargamento da educação a toda a população foi feito sem exigência de disciplina nem selecção pelo mérito, sem instrução de cidadania nem de respeito pelos valores de honestidade, de carácter e de responsabilidade pessoal na gestão dos seus interesses.
Uma cultura social serôdia aspira às antigas regalias da nobreza, pretende que um curso ou uma licenciatura qualquer, em vez de serem apenas uma ferramenta, dêem direito a uma renda vitalícia na corte do rei, perdão, no funcionalismo público ou a privilégios tabelados nas empresas privadas.
A legislação do trabalho favorece os interesses colectivos instalados com os seus “direitos adquiridos”, em vez de recompensar o esforço, a criatividade individual e de encorajar o empreendimento.
As políticas de habitação espoliaram os proprietários de imóveis, destruíram o mercado de arrendamento e arruinaram o centro das cidades.
E por aí além.
(continua)
JSR

Monday, April 11, 2011

35 - A história pendular das Repúblicas - O Fim da Terceira República (3)

Le chat garde le pendulum de Foucault, Panthéon, Paris
3. A história pendular das Repúblicas
Os regimes mudam, sempre como reacção à situação anterior, mas nem sempre para melhor. Como um pêndulo que procura o equilíbrio, mas que não o consegue enquanto for empurrado excessivamente para um lado ou para o outro das ideologias de organização social e política.
A primeira República nasceu confusa, bem intencionada mas terrorista, palavrosa mas anti-democrática, com algumas boas leis mas sem a autoridade de as aplicar. Quando acabou, o país estava arruinado, dividido, desanimado.
A Segunda República foi voluntarista e autoritária, com ordem, contenção nas ambições e nas despesas, correspondendo à implementação das convicções tradicionais e pequeno burguesas dos seus mentores. Quando acabou, o país estava modestamente próspero mas atrasado, isolado e farto de ser um pião largado nas incongruências coloniais da guerra fria.
A Terceira República começou com uma reivindicação conjuntural, um pequeno fogo que alastrou sobre o mato seco dum regime obsoleto, que tinha consciência de estar moribundo e por isso não resistiu à revolta de alguns dos seus centuriões. Como não há duas sem três, também está a acabar mal. Sob a pressão de movimentos populistas, tomaram-se decisões e criaram-se expectativas que estão a ser defraudadas porque o país não criou, nem cria, riqueza suficiente para as poder pagar.
Esta República morre agora, porque o pêndulo estava antes demasiado para a direita, foi empurrado depois demasiado para a esquerda e ainda não se equilibrou.
(continua)
JSR

Sunday, April 10, 2011

34 - O “Titanic” das utopias de Abril - O Fim da Terceira República (2)

2. O “Titanic” das utopias de Abril
Titanic and Iceberg
Este país tornou-se num Titanic desgovernado, ferido de morte pelo iceberg da crise. O comandante mantém uma calma estudada e declarações encorajadoras. Os oficiais disparataram em múltiplas ordens contraditórias, até que o imediato mandou finalmente transmitir o pedido de SOS e lhes deu uma cartilha para repetirem em coro: a culpa não foi deles, foram os pinguins traiçoeiros que empurraram o iceberg contra o navio.
A orquestra continua a tocar, os passageiros da primeira classe embarcam nas baleeiras, os passageiros da classe média hesitam em confusão, os passageiros da terceira classe ficam presos na sua impotência.
Muitos pensam que, assim como o Titanic poderia ter evitado o iceberg se estivesse atento às comunicações exteriores, se cumprisse estritamente as regras da navegação e se a disciplina de bordo fosse mais rigorosa, assim a terceira República Portuguesa poderia sobreviver a mais esta crise.
Mas a história faz-se de factos e não de especulações sobre o que poderia ter acontecido. Para quem conheça bem este país desde antes do 25 de Abril, tenha acompanhado com atenção os acontecimentos posteriores e disponha duma perspectiva abrangente e exterior, tornou-se progressivamente evidente que este fim era inevitável.
(continua)
JSR

Saturday, April 9, 2011

33 - Intróito - O Fim da Terceira República (1)

Parthenon, construido de 447-432 A.C., Atenas.
(estado actual, após a passagem do tempo e dos otomanos)
1. Intróito
Esta é a crónica da morte anunciada da terceira República em Portugal. Neste caso, a notícia da morte nem sequer é exagerada. O regime começado pelo 25 de Abril faliu financeiramente pela terceira vez e politicamente de forma definitiva.
A maioria dos cidadãos ainda não se apercebeu que este recurso à ajuda externa é apenas o último sintoma do fim, que se vem juntar a muitos outros. Alguns sabem, mas fingem acreditar que o regime vai conseguir sobreviver, assim como quiseram fazer crer que era possível evitar a falência do Estado, enquanto as dívidas continuavam a subir e a economia a descer.
A nota necrológica está a ser escrita a cada declaração política irresponsável, a cada mudança de posição em cata-vento, a cada contradição desonesta, a cada ataque partidário, de cada vez que o interesse pessoal ou tribal é posto à frente do interesse do país.

Como para a decisão de pedir ajuda ao Fundo Europeu e ao FMI, numa situação económico-financeira irrecuperável, o que tem que ser tem muita força. Os prestamistas não têm nem imaginação nem meias-medidas disponíveis, ou governo e oposição se entendem já sobre as condições propostas para pôr o país “no prego”, ou não há dinheiro. A negação da evidência só serve para perder tempo e agravar a situação.
(continua)
JSR

Thursday, March 24, 2011

32 - A Construção da Europa

L'enlèvement d'Europe - Henri Matisse
Published 7/4/2011 by "Jornal do Fundão". 

Em relação à construção europeia, de cada vez que esta avança com um novo tratado, acordo ou pacto, levanta-se a mesma cacofonia feita das esperanças de uns e dos temores de outros, ambos geralmente excessivos.
          A realidade presente
Desta vez é a constituição e a evolução dum fundo de apoio aos países sobre-endividados (EFSF/ESM), e o facto da ocasião ser aproveitada para impor algumas medidas de boa governação (Competitiveness Pact). Isto feito com o cuidado habitual de escolher nomes e medidas politicamente correctos, porque não se pode anunciar com displicência que os países estão realmente falidos, e também para evitar confusões com a plebe terceiro-mundista que deixa efectivamente de pagar aos credores.  
O mundo, enfim, o mundo que conta, o que tem dinheiro para investir nos mercados, precisa de acreditar na mensagem que a família europeia pode ser disfuncional mas é capaz de se entender quando é preciso ajudar os membros estouvados, os que viveram demasiado tempo a usar o nome dos parentes ricos para se endividarem com crédito fácil e juros baixos.
Entre os membros problemáticos da família há o primo grego que se reformou aos quarenta e cinco anos, a sobrinha irlandesa que comprou quatro apartamentos a crédito, o genro português que só trabalha nos três meses da época turística, a nora espanhola desempregada que não tem a certeza de poder contar com a Caja local. Sem falar por enquanto dos gémeos belgas que brigam por baixo da mesa, dos tios italianos que tem negócios como icebergs, só uma pequena parte está visível acima da superfície, ou dos cunhados do Leste que... bem, há limites para a ironia destes estereótipos.
Para situar os problemas
As grandes construções imperiais do passado só foram possíveis por guerras de conquista dum povo sobre os outros. Só se mantiveram pela disciplina imposta pela força militar, por instituições politicas cimentadas numa ideologia cultural dominante e com estruturas administrativas apoiadas em teias económicas de interesses. Desagregaram-se quando essas componentes enfraqueceram.
A construção europeia tem sido feita ao contrário.
Interesses comuns primeiro, a integração dos recursos do carvão e do aço para evitar mais guerras internas, a cooperação económica para enfrentar as guerras comerciais da globalização, uma tendência federalista para manter a influência possível no mundo durante e após a guerra fria.
A ideologia comum, que distingue a Europa de tudo o mais, é a de que o estado tem que ser democrático, laico e social. Daí o perigo latente de alguns atavismos nativos e dos multiculturalismos falhados das comunidades imigradas, ambos a necessitar de firmeza na integração e no respeito dos valores europeus.
Para continuar a ser pacífica, a construção europeia tem que ser progressiva e imposta "avec aplomb ou en douce”... aos povos ignaros que não vêm mais longe que o umbigo dos seus interesses imediatos. É para isso que servem as instituições europeias.
Pacto europeu para a concorrência
O pacto europeu para a concorrência, inicialmente proposto pela Alemanha com o apoio da França, é o exemplo duma das medidas necessárias para o funcionamento do governo económico europeu. Neste caso, uma medida digamos... mal fadada por Angela Merkel. Após protestos, negociações e reuniões, o pacto tem vindo a mudar de cores como um camaleão.
A União Europeia precisa duma “coordenação” (expressão politicamente correcta para “governo”) mais eficaz nas suas políticas em geral e neste momento em particular, nas de gestão e convergência económicas. Isto inclui o alinhamento progressivo (e tão rápido quanto possível) tanto das infra-estruturas de desenvolvimento, energia, comunicações, transportes, como dos impostos dos estados sobre indivíduos e empresas, como na relação produtividade e salários, como na sobrevivência da protecção social, das pensões e da saúde.
Talvez se lhe possa chamar um pacto de convergência, com objectivos a atingir, prazos e datas, avaliação do progresso e penalizações por não cumprimento. Sem um governo económico, a Europa nem é competitiva globalmente, nem pode assegurar um crescimento comum suficiente equilibrado para se manter unida.
Porém, a União não pode, ou não deve, funcionar por “diktats”. As regras de disciplina e rigor são essenciais, mas é preciso também respeitar as boas maneiras, ou seja, através de propostas da Comissão, muitas discussões e compromissos, que permitam salvar a face aos países mais recalcitrantes, mais atrasados, ou mais mal comportados.
The Onion, a “cebola” europeia
O pacto de competitividade para a zona Euro, é visto pelos países que não são membros deste clube como o princípio duma Europa a duas velocidades. Mas é evidente que a Europa se faz a várias velocidades. Já está a ser feita, apesar dos protestos hipócritas. Nem todos os países europeus estão na União, alguns têm acordos que fazem com que pareça que estão, mas não estão, outros ainda passam pelas diferentes fases do processo de adesão. Só alguns fazem parte do acordo de Schengen, o espaço comum de livre circulação. Só alguns têm o Euro como moeda comum.
Todos afirmam querer fazer parte do “core”, do núcleo central onde estão os membros que pertencem aos três clubes, mas alguns ainda não podem e outros podem, mas os seus governos ainda não conseguiram persuadir a maioria dos seus eleitores das vantagem respectivas.
Previsivelmente, a Europa tornar-se-á como uma cebola, apresentando um aspecto exterior quase homogéneo, mas constituída por várias camadas concêntricas, agregadas e diferentes. Na melhor das hipóteses esse conjunto fará chorar quem quer que o queira separar...
A UE não é como os USA, não tem nem um governo federal, nem as políticas correspondentes. Tudo se faz com mais dificuldade, complexidade e confusão. Por um lado, a União está mais avançada em alguns sectores, como por exemplo nas políticas sociais, pois é muito preferível estar desempregado, doente ou reformado nos países europeus do que nos USA. Por outro lado, o seu custo é também um handicap, uma desvantagem competitiva, em relação ao resto do mundo. 
     Encontrar o melhor equilíbrio é uma questão de tentativas, de ir fazendo o melhor possível de cada vez e de não hesitar em corrigir os erros e os excessos, assim que estes se tornam evidentes.
JSR

Monday, March 14, 2011

31 - Japan - Sorrow, Respect and Friendship

"The Great Wave off Kanagawa" by Katsushika Hokusai
Earthquakes and tsunamis of a scale similar to the disasters that devastated Lisbon back in 1755, struck the northern islands of Japan.
The total human losses are as yet uncounted. Entire cities disappeared, infrastructures broke down inland and along the coastline, communications are disrupted, the energy lifeline affected by problems with nuclear plants. A nightmare to all those affected.
The videos on the internet and television, show an orderly population, backed by officials obviously drilled to cope with such emergencies, doing what they were expected to do. Later, they appear restrained in their grief and sure of their capacity to recover. Lessons of personal dignity and national resilience, displayed for all to see.
A thought to friends in Tokyo, Kyoto and Nagasaki, across half of the planet, with the heartfelt hope that they, their families and their homes, are all well, safe and sound. Tomorrow must be a better day.
JSR

Saturday, March 12, 2011

30 - Um País Diferente

Protesto
As manifestações chamadas da “geração à rasca”, decorreram hoje de forma ordeira e acabaram em comícios num ambiente de festa popular.
Foram por um lado uma demonstração das razões pelas quais esta geração está nesse estado (falta de emprego, precariedade contrastada com aspirações à segurança do funcionalismo público, cursos superiores inúteis para o mercado de trabalho, dependência de subsídios) e foram por outro lado uma fonte de optimismo.
Portugal é realmente um país quase sempre igual a si mesmo, no melhor e no pior, mas diferente dos outros.
Desde o século dezoito que políticos e escritores descrevem o país em termos semelhantes, que em grande parte se aplicam ainda hoje, mas já não totalmente. Contrariamente a outros países em crise, as manifestações de descontentamento tiveram uma participação numerosa e barulhenta, mas pacífica. Não houve aqui as convulsões destrutivas de outros países europeus e ainda menos as multidões ululantes, fanatizadas, aos pulos e aos gritos, como no sul do Mediterrâneo.
Portugal é finalmente um país civilizado.
Nestas manifestações estavam representadas todas as gerações vivas, desde bebés em carrinhos a velhotes em cadeiras de rodas. Notava-se uma certa nostalgia dos movimentos dos anos setenta, uma confusão dos tempos e dos objectivos, das insatisfações sociais e pessoais. Houve palavras de ordem incoerentes (ideais requentados, desbotados, inconsequentes), discursos sentidos (a vida difícil, o futuro incerto) e uma saudável expressão de descontentamento com o estado geral da coisa pública.
Portugal sofre de falta de racionalidade na governação.
Nesta geração há também os que se esforçam, os que adquiriram conhecimentos úteis, os que trabalham, os que pensam, os que são independentes e sabem ser audazes. Fazem menos barulho, mas não é difícil encontrá-los. Estão dentro e fora do país, inovam, criam empresas e fazem-nas crescer. Poderiam ser mais numerosos e a mudança deveria ter sido mais rápida, porque assim já não vai chegar a horas para muitos. O peso a carregar é grande e vai ser preciso dar tempo ao tempo até que a situação melhore.
Portugal precisa de inspiração e de esperança.
JSR

Friday, March 11, 2011

29 - O Discurso do Presidente e o Discurso do Rei

"The Preacher" by JoeRay Kelley
Published 17/3/2011 by "Jornal do Fundão". 

        Para além do pequeno lapsus linguae, ao dirigir-se a si próprio (Ex.mo Senhor Presidente da República... em vez de ao Presidente da Assembleia da República), há um ponto comum entre o discurso de tomada de posse do Presidente português, e o discurso do inglês George VI descrito no filme “O Discurso do Rei”.
O ponto comum são as circunstâncias históricas. Portugal não está no mesmo tipo de guerra total em que se encontrava a Inglaterra nessa altura, mas está também numa guerra de sobrevivência nacional.
O discurso que George VI pronunciou, superando a sua gaguez, foi um encorajamento aos povos do seu Império para superarem as dificuldades da guerra e resistirem, lutarem pela sua liberdade e os seus valores. Assumia sem hesitação que todos os povos do Império Britânico partilhavam os valores da opinião pública da Inglaterra.
O discurso do Presidente foi mais do que “a shot across the bow” ao seu governo, mais do que uma advertência à classe política portuguesa, foi um ultimato à sociedade e ao povo português. O governo está a prazo, o regime em risco, a democracia ameaçada, porque o país está em bancarrota. Ou a opinião pública  portuguesa, a começar pelos partidos políticos e continuando pela sociedade civil, têm um sobressalto de consciência da realidade, ou o país desaparece como entidade independente, perde o pouco de soberania que lhe resta.
A integração europeia foi e é, o único caminho possível para que o país aspire a  um futuro minimamente próspero. O que correu mal foi a repetição de erros atávicos: o falhanço das reformas indispensáveis (do ensino, da economia, da justiça), a avidez descontrolada dos privilegiados pelo poder político, o lucro fácil das elites financeiras à custa da ignorância das classes populares, através dum encorajamento avassalador ao endividamento. E um erro novo: aumentou a necessária solidariedade social, mas sem garantir a existência de meios para a pagar. Tudo isto financiado por empréstimos exteriores, que também atavicamente acabam em bancarrotas.
O país está falido, o Presidente citou o Governador do Banco de Portugal que reconhece que a situação da dívida é insustentável, e acrescentou o óbvio, que com uma economia estagnada não há possibilidade de melhoria, nem credibilidade. Os esforços do governo para evitar o inevitável, assim como a esperança de que a salvação venha da União Europeia, estão condenados de avanço. As condições de ajuda financeira, impostas pelo governo económico europeu agora em formação acelerada, não são menos exigentes do que a condicionalidade dum empréstimo pelo Fundo Monetário Internacional.
A União Europeia é uma associação de estados, com mecanismos de apoio ao desenvolvimento, mas sem vocação de assistência inter-estatal. A opinião pública dos países mais produtivos, rigorosos e ricos, não quer pagar os desvarios, a falta de produtividade e a falta de rigor dos países mais pobres. Mesmo que os países mais ricos beneficiem, e muito, com as importações e o consumo dos países mais pobres. Amigos, amigos, negócios à parte.
O que fazer? É extraordinário que num país que passou por tantas situações semelhantes na sua história recente, as bancarrotas dos últimos anos da monarquia e da primeira república, e as duas antes da presente, que já é a terceira da terceira república, ainda haja quem pretenda que não sabe o que é preciso fazer, ou faça exigências irrealistas. Mas é isso mesmo que transparece da opinião pública que se faz ouvir, as marchas, as greves, o radicalismo oportunista.
A maioria, tem que haver uma maioria da opinião pública racional que finalmente se manifeste, que exija uma aliança dos partidos responsáveis para a aplicação das medidas de saneamento financeiro, de encorajamento económico, de apoio empresarial, de reestruturação administrativa e outras, que tão eloquentemente têm sido propostas pelos bons especialistas que este país felizmente tem. Porque o tempo dos tribalismos partidários e das arrogâncias pessoais se esgotou. Leiam outra vez o discurso do Presidente, ou o do Rei, tanto faz.
E se não for possível o entendimento nestes confins da Hispânia? ... Pode-se sempre contar com o Império para nos governar outra vez, agora já não será o Romano, mas o que passa por Bruxelas, Berlim e acaba em Washington.
JSR

Sunday, March 6, 2011

28 - Exegese sobre “Hai Moũsai”

Portrait of a Scribe
 by Bartolomeo Passarotti
O blog das “Musas” associado a este, começou discretamente, provocando só alguns e-mails de simpatia de vez em quando. Ultimamente, porém, tem sido objecto de mensagens mais frequentes com comentários interessantes, críticos, algumas vezes provocantes e ocasionalmente com análises exegéticas.
Um comentário frequente é a “coragem” de ter, manter, revelar, um blog de poemas... Se é que a esses textos se pode chamar poemas. Através das palavras amáveis, reconhece-se ainda a prevenção contra a etiqueta de sonhador que pode ser colada a quem o faz e portanto prejudicial a uma reputação de seriedade. Pois, apesar do nosso admirável mundo novo ser feito de criatividade em tudo, na ciência, na tecnologia, na economia, na comunicação, resta que no subconsciente colectivo a seriedade está ainda ligada a uma certa arrogância ou presunção, à falta de humor, em resumo a uma personalidade intensamente chata...
Na realidade, ter a capacidade de escrever um poema ocasional, é o equivalente a tomar uma nota rápida dum acontecimento, concentrado com as emoções e reflexões correspondentes, um código na cápsula do tempo, uma história em meia dúzia de linhas. Serve também como auto-análise, eficaz, barata e sem risco de indiscrições...
Outro comentário, o facto dos poemas serem escritos em várias línguas. A surpresa só pode ser relativa, pois o anonimato também relativo dos blogues permite contudo perceber o multi-culturalismo do autor, ao qual corresponde naturalmente uma pluralidade de idiomas. No blog das musas vão aparecendo aqueles que se manifestam espontaneamente, embora a forma tenha por vezes outras influências.
Mas foi “The Bearings of Home” que rebentou com a escala para os leitores de língua não inglesa. Primeiro, exigiram uma tradução do título, foram ver “bearings” ao dicionário e ficaram confusos com a tradução literal: “rolamentos”. Os rolamentos de casa?!... Bem, há outros significados, como orientação, rumo, fazer o ponto. Mas depois do título, havia ainda demasiadas perguntas para responder. Mais simples, embora com relutância, “cometer” uma tradução completa. Mais simples?
Cada idioma tem as suas linhas de evolução do pensamento, o seu ritmo, a sua lógica. Traduzir é sempre uma traição, pior ainda se for cometida pelo próprio. Mesmo os idiomas que se aprendeu em criança, nos quais se pensa e se sonha, vivem em compartimentos separados do cérebro. Exactamente como convivem as competências profissionais e a apreciação ou a prática das artes.
As línguas comunicam entre si, mas numa correspondência ocasional e imperfeita, que pode ser frustrante quando se tenta transferir uma expressão duma língua para outra. Por exemplo: em “the sounds of winds hurling through the coastal mountains”, como traduzir “hurling” que significa “atirar” geralmente com ruído? Em comparação, "Wuthering Heights" de Emily Brontë (wuthering, onomatopeia do vento que faz wuuuu...) foi traduzido em francês por "Les Hauts de Hurlevent" (hurlevent, o vento que grita), mas em português deu "O Monte dos Vendavais". Nada corresponde exactamente.
As reacções à tradução foram a única parte agradável, mesmo motivante: sugestões de melhores expressões e termos mais apropriados para preservar o tom e o ritmo. Nesta exegese detecta-se uma profundidade e complexidade do pensamento que passaram despercebidas no original, mesmo a quem o escreveu. As ideias e as palavras fluem naturalmente, fruto de uma maturação anterior, nem sempre totalmente consciente. Ao tentar traduzir, “home” pode não ser nem casa nem lar, “bereft” não é só uma falta, “far-fetched” é uma improbabilidade absurda.
O quadro descrito por uma tradução é sempre uma cópia pálida do mundo vivo evocado pelo original. Mas a cooperação na tradução pode trazer a excitação duma investigação policial: que ideias subversivas estará este sujeito realmente a transmitir? Para quem queira realmente saber, um poema é sempre uma tentativa de resposta à pergunta recorrente sobre a razão de existir.
JSR

Wednesday, March 2, 2011

27 - Chegam em Vagas

Gothic Manuscript, The Siege of Constantinople 
by the Turks in 1453 - Guillaume Adam
Vindas da margem sul do mar mediterrâneo, aumentam as vagas de refugiados que chegam aos países da margem norte. Empurrados pela fome (o aumento inexorável do preço dos alimentos), pela falta de trabalho (uma natalidade explosiva que atropela qualquer progresso económico), pelos conflitos (tribais, étnicos, sectários), pela opressão (religiosa, militar, politica), pelo desespero. Morrem muitos pelo caminho, chegam ainda demasiados para quem os recebe.
Em pleno debate sobre as consequências da imigração, em 1973 foi publicado em França “Le Camp des Saints” de Jean Raspail, antecipando a chegada maciça de velhos navios carregados de refugiados esfomeados vindos dos países pobres do mundo. Em 1990, Michel Rocard era primeiro-ministro e reconhecia que “la France ne peut pas accueillir toute la misère du monde”. Não era profético, era previsível, não só para a França mas para toda a Europa.
O continente europeu conheceu vagas sucessivas de invasores, antes e depois da história escrita. Chegavam em pequenos grupos, tribos ou povos, pacificamente ou em guerras de invasão, vieram do sul, do leste e mesmo do norte. Empurrados por inimigos, pela fome, pelo desejo duma vida melhor. Como agora.
Vaga após vaga, a civilização existente acabava por ser destruída e uma longa noite de barbárie caía sobre o continente. Até se organizar um mundo diferente. Os europeus são descendentes de todas as migrações e todas as invasões. Contudo, por muito desagradável que possa ser a crise que atravessa hoje a Europa, é preciso ter noção do grau de evolução atingido pela civilização actual e que está em risco de se perder devido à ignorância dos povos e à estupidez dos governos. Os europeus não se reproduzem, precisam de imigração, mas não precisam de mais comunidades inassimiláveis que atrasem o processo de união, nem se podem esquecer que os mecanismos de protecção social de vários estados estão em ruptura financeira.
Define-se inteligência como a capacidade de aprender com a experiência, uma capacidade mal distribuída e uma aprendizagem por vezes demasiado lenta. Como dizia Churchill da América, as democracias podem eventualmente tomar decisões inteligentes... mas depois de terem experimentado todas as outras. Serão as democracias europeias finalmente capazes de agir de acordo  com as lições da história?
JSR

Monday, February 28, 2011

26 - As Boas Práticas

Compagnons du Tour de France - 1820
Para atingir um objectivo, seja montar um projecto ou escalar uma montanha, deve-se assegurar tanto o planeamento como o bom acabamento de cada etapa. Por exemplo, ir escrevendo relatórios de avaliação do progresso no primeiro caso, ou ir cravando grampos para prender a corda no segundo. São apenas boas práticas, mas são elas que separam os profissionais dos amadores, os que são consistentemente bem sucedidos dos que só chegam ao destino por acaso.
A importância das boas práticas na prosperidade dum país é um assunto pouco frequente tratado, seja na análise sociológica, seja na análise económica. Como para muitas outras coisas, analisam-se as consequências, ignoram-se as causas.
Começando pelo princípio, a formação de cada indivíduo deve fornecer as boas práticas de relacionamento com os outros, válidas para as interacções entre pessoas, entre empresas e entre nações. A educação em casa, a instrução na escola, as regras da sociedade, a diplomacia entre as nações.
Quando se comparam as boas práticas usadas nos países desenvolvidos com as dos outros, encontram-se as pequenas e grandes diferenças que estão na origem do sucesso de pessoas, empresas e dos próprios países: saber preparar-se, escolher o melhor percurso, falar com as pessoas certas e como as interpelar, chegar a horas e cumprir prazos, expor ideias de forma clara, saber quando falar e quando ouvir, antecipar as perguntas mais prováveis e escolher a altura certa para concluir.
Saber manter os contactos institucionais e os contactos com as pessoas. Enviar cartas de agradecimentos, de resumo dos pontos discutidos, das decisões tomadas, das acções a fazer e dos seus prazos. Cumprir a sua parte do trabalho de execução e dos acordos. Exigir o mesmo dos outros. 
         Finalmente, saber quando perseverar e quando mudar de caminho.
JSR

Thursday, February 24, 2011

25 - Brasigola

Printing Press
No sítio onde costumava estar Portugal encontra-se já Brasigola, uma entidade entalada entre uma invasão populacional vinda do Brasil (e não só) dum lado e uma compra económica por parte de Angola (e não só), do outro. Um pais metido numa prensa, com muitas mãos a dar à manivela.
Do lado populacional, uma volta por Cascais à hora do almoço é instrutiva.
No restaurante os empregados são brasileiros e na mesa do lado uns portugueses discutem  turismo com um inglês e um alemão que obviamente aprenderam a língua do Brasil.
Nos Correios, umas raparigas brasileiras esperam vez para mandarem dinheiro para casa, pedem ajuda para preencher a papelada e aproveitam para ir informando que podem ser muito carinhosas a agradecer...
No centro comercial, os rapazes da lavagem de automóveis são brasileiros, as empregadas das lojas são brasileiras, as pessoas que passam conversam com a pronúncia do Brasil, assim como a mulher de meia idade que fala com a caixa Multibanco, dizendo que tem lá dinheiro e não compreende porque o boneco não a deixa fazer um levantamento.
Do lado económico a invasão é discreta, a maior parte do tempo, mas não deixa de se avolumar progressivamente.
Nas reuniões de conselhos de administração de bancos e outras empresas, para além das múltiplas crises, discute-se como sobreviver em Angola e com os angolanos. Quem lá está, quer lá continuar, ou quer lá entrar, tem que pagar a “protecção” local. As formas de pagamento variam, os beneficiários são sempre os mesmos.
Participação no capital em troca de terreno de origem desconhecida para implantação, por associação com empresas que só existem no papel, por nomeação de administradores que só recebem ordenado, ou qualquer outra forma de cobrança. Porque sim, porque decide quem pode e sem decisão não há negócio.
Os benefícios da venda dos recursos naturais fluem também para os mesmos bolsos, por vezes por caminhos ainda mais directos. O que não é gasto em esbanjamento é investido na compra de participações em empresas estrangeiras, de preferência portuguesas, cada vez menos propriedade de portugueses, públicas e privadas, de todos os ramos. Note-se a progressiva mansidão dos... como lhes chamam agora? Ah, órgãos de comunicação social...
Filipe II de Espanha costumava dizer que tinha herdado, comprado e conquistado Portugal. Agora que o país está a ser comprado e conquistado, parece estranho (e ao mesmo tempo promissor) não haver falta de partidos políticos que o queiram herdar...
Claro que tudo isto é um exagero, como hipérbole e em outros sentidos do termo, a misantropia passageira dum dia em que o ataque de spleen é pior do que em muitos outros. 
JSR