Tuesday, January 29, 2013

144 - A Rã e o Boi (La Grenouille et le Boeuf)

Uma das fábulas de La Fontaine conta a história duma rã que, por ambição, queria parecer tão grande como um boi. Esta fábula aplica-se ao Icesave (departamento online do Landsbanki) da Islândia.
Tal como na fábula, a rã (Icesave) engoliu demasiada água (depósitos do estrangeiro, sobretudo do Reino Unido e da Holanda), até que rebentou. De acordo com a directiva europeia que garante compensação a cada depositante em caso de falência bancária, a Islândia devia pagar um total que representa cerca de 20% do seu PIB. Em 2008 a Islândia recusou-se a reembolsar os depositantes. O governo foi demitido e o Presidente convocou uma consulta popular.
Para um pequeno país constituído por um rochedo vulcânico no meio do Atlântico onde se instalaram em tempos uns quantos pescadores vikings (que são agora tantos como a população dum pequeno distrito português), foi preciso coragem e determinação.
A Islândia acaba de ganhar um processo que o Reino Unido e a Holanda lhe puseram junto do tribunal da EFTA (European Free Trade Association) no Luxemburgo. Porque, achou o tribunal entre outras coisas, as leis aceites pela Islândia para ser membro da EFTA não previam uma crise financeira sistémica tão severa como a que afectou o país.
Como a Islândia não é o único caso nesta situação, a decisão do Tribunal levanta a questão da credibilidade das garantias dos depósitos bancários nos países da EFTA, em tempos de crises sistémicas. Quem vai querer voltar a arriscar?
Mas esta rebelião pode também custar caro no futuro. A Islândia é membro da EFTA, mas não é membro da União Europeia. Se algum dia quiser ser membro do clube, o Reino Unido e a Holanda certificar-se-ão de que a conta estará à espera.
“Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages” (que la grenouille), selon  Jean de La Fontaine.
JSR

Friday, January 25, 2013

143 - O Regresso aos Mercados

O país voltou aos mercados, com uma emissão de dívida antes da data prevista no acordo com a Troika (Setembro 2013) e com sucesso (juros de menos de 5% a 5 anos), numa oferta subscrita cinco ou seis vezes e em mais de 90% por investidores estrangeiros. Se existem sucessos na gestão das finanças públicas dum estado sujeito a um programa de ajuda externa, este é um sucesso.
Não resolve tudo, nem sequer o mais importante, mas é mais um passo para inverter a situação dramática em que o país se encontra. Finalmente uma luz ao fim do túnel, embora um túnel ainda longo.
Minimizar este sucesso é prova de má fé. Alguns socialistas menos argutos estão a colocar os interesses de facções partidárias acima dos interesses do país e do próprio partido. Ao colocar o despeito acima da razão, estão a destruir a pouca credibilidade que ainda terão após o naufrágio do último governo. O resto da esquerda, com todo o respeito devido aos cidadãos que representa, sofre de bloqueio ideológico ou intelectual e não tem grande contribuição prática na solução dos problemas presentes.
Por razões diversas, os media dão uma importância inflacionada aos críticos que peroram como analistas e em painéis de opinião. Críticos que espalham a confusão por demagogia ou ignorância. Confusão que mistura factos com as suas causas e as consequências. Uma coisa são as causas da crise em que o país se encontra, outra são as consequências económicas e financeiras, outra ainda são os graves problemas sociais.
As causas da crise são globais, com especificidades europeias e condicionalismos nacionais bem conhecidos. Se as causas globais são irreversíveis, embora possam ser minimizadas se houver vontade política das democracias ocidentais, se as causas europeias vão sendo ultrapassadas com avanços demasiado lentos, a crise nacional tem que ser resolvida como a questão de sobrevivência que realmente é.
Vir clamar que este sucesso no regresso aos mercados não vem mudar nada nos sacrifícios que continuam a ser exigidos aos cidadãos, está exactamente na mesma linha de raciocínio deformado que levou à crise em primeiro lugar. Ou seja, importante era melhorar cada vez mais os salários, o consumo e a protecção social das pessoas, sem preocupação com o facto de que o país não tinha economia suficiente para esse aumento de despesa. Por isso foi preciso tapar os buracos orçamentais, ano após ano, pedindo empréstimos que acabaram por levar à bancarrota.
Na verdade, esta volta aos mercados de capitais segue no rasto da tomada de posição do Banco Central Europeu no suporte incondicional do Euro, mas isso é o mínimo que as instituições europeias podem fazer. Se o projecto europeu não for defendido e não avançar, deixa de haver União Europeia e volta a ser cada país por si. Ainda há muito que fazer a curto prazo, tanto na Europa com a união bancária e fiscal, como no país com a continuação das reformas para reduzir o défice público.
Já foi possível renegociar algumas das condições do acordo com a Troika, como a extensão do prazo de pagamento dos empréstimos. Falta agora renegociar as taxas de juros para este período mais longo. Tudo isto podia ter sido feito antes, mas essa é uma decisão que só um governo pode tomar, na determinação do tempo possível ou mais propício. Importante é que o país consiga uma redução dos juros a um taxa igual ou inferior ao crescimento da economia. Nada disto vai ser fácil e não é possível perder mais tempo com vacilações políticas internas.
JSR

Thursday, January 17, 2013

142 - O Falatório sobre o Relatório (...do FMI)

O recente relatório de assistência técnica, preparado por técnicos do FMI a pedido do governo português, “Portugal: Rethinking the State—Selected Expenditure Reform Options”, começa logo por dizer que as opiniões expressas no documento não reflectem necessariamente as opiniões do governo: “This paper was prepared based on the information available at the time it was completed in January, 2013. The views expressed in this document are those of the staff team and do not necessarily reflect the views of the government of Portugal”.
Este relatório tem sido objecto de tantas demonstrações de hipocrisia e ignorância, tantos aproveitamentos de política interna rasteira, que a única atitude possível é deixar que “os cães ladrem enquanto a caravana passa”. Vale a pena lembrar que este relatório será seguido de outros, particularmente o da OCDE. Nenhuma organização internacional vem a Portugal e prepara relatórios sobre o país, sem que isso faça parte dos acordos de adesão, das responsabilidades regulares em relação aos países membros, ou sem terem sido especificamente convidadas a fazê-lo.
Apesar de todos os sacrifícios já pedidos à população, aumento de impostos e redução das despesas sociais, o país ainda necessita de fazer as reformas necessárias para que as despesas não excedam as receitas, e isto duma forma sustentada. Enquanto o Estado não conseguir esse equilíbrio e tiver que financiar a diferença recorrendo a empréstimos, a economia não consegue descolar e o país continuará a empobrecer. Todas as sugestões sobre essas reformas devem ser bem vindas, compete depois ao governo fazer as necessárias negociações políticas para escolher quais, como e quando implementar. Tudo o resto é falatório de alcoviteiras partidárias.
Já nos anos 80 do século passado quando Portugal fez o seu segundo pedido de assistência, a responsável pela implementação do programa português comentava em Washington, entre surpreendida e irónica, que cada vez que vinha a Lisboa, os jornalistas esperavam uma aparição de Fátima e os políticos a chegada de D. Sebastião.
Provincianismos recorrentes.
JSR

Friday, January 11, 2013

141 - Temos uma Constituição ou um Livro de Horas?

Em Abril de 1974 começou uma comédia de enganos, a revindicação classista dos capitães das forças armadas que acabou na tragédia duma revolução manobrada pelos comunistas, a única força política organizada contra o regime anterior. Todos estes actores, regime anterior, golpes de estado militares e comunistas, já então estavam fora do prazo de validade na evolução política europeia. Uma marca clara de menoridade nacional.
Depois, organizaram-se outros partidos políticos: um socialista, também de matriz marxista, cuja qualidade maior era não ser o dinossáurio comunista; outro democrata, que se dizia social, porque os tempos não estavam para liberais; mais um cristão democrata, contraditoriamente ligado a uma Igreja de obediência divina; e, não esquecer, uma certa quantidade de trotskistas, maoistas e outros grupos extremistas. Tudo isto foi decantando à medida que os partidos e os seus membros atingiam a idade adulta e aprendiam alguma coisa sobre a realidade. Sobraram algumas crianças grandes que continuam com as cabeças nas nuvens e a desempenhar o mesmo papel da sarna na epiderme política.
Foram todas estas cabeças aceleradas que escreveram a primeira Constituição da terceira república e que têm resistido e limitado as revisões posteriores. Imaginaram um país de fantasia socialista, feito da projecção de utopias recorrentes, país que não existia então e não existe ainda. Uma Constituição escrita como um Livro de Horas Canónicas, uma colecção de orações, de desejos, de encantamentos. Para uma sociedade socialista, livre, justa e fraterna. Para direitos adquiridos e inalienáveis dos trabalhadores, para serviços de saúde e educação tendencialmente gratuitos, para reformas garantidas. Com a esperança de que a repetição de preces e de boas intenções, levasse ao auto-convencimento da doutrina da fé e ao milagre da realização.
Na altura, raros foram os que se atreveram a fazer as duas perguntas fundamentais: Quais eram os deveres correspondentes a esses direitos? Com que receitas iam, o Estado e as empresas, pagar todas essas novas despesas?
As respostas foram sendo sucessivamente tão ignorantes (ou hipócritas) como o são ainda hoje. Primeiro pagavam os “ricos”, depois pagava a “Europa”, e finalmente pagavam os empréstimos. Alguém mais tarde haveria de pagar, de preferência durante o governo de outro partido. Pedir emprestado era bom, era investimento, era barato e permitia ganhar eleições. O futuro estava longe e a Deus pertence.
Mas esse dia futuro acabou por chegar. Obviamente não há ricos que cheguem; os países europeus economicamente mais desenvolvidos têm os seus próprios problemas de competição global e não aceitam transferências para os países desgovernados; e finalmente a bancarrota só é evitada, ou adiada, com mais empréstimos, mas desta vez estritamente condicionados por programas de reformas e ajustamentos à economia real do país. Afinal não há milagres.
A realidade, comezinha e desagradável, é que chegou a altura de perguntar como podem e quanto querem, os cidadãos pagadores de impostos, contribuir para que os serviços do estado sejam viáveis? Toda a gente parece estar contra o aumento de impostos. Muita gente, como mostram as manifestações, está contra os cortes na despesa que limitem o custo da função pública, da educação, da saúde, do estado social em geral. A isto chama-se um impasse.
A salvação não virá só do crescimento económico possível. A entrada no mercado internacional dos países em desenvolvimento com mão de obra barata e sem protecções sociais, deslocou indústrias e reduziu o valor do mesmo tipo de trabalho nos países desenvolvidos. Re-industrializar? Os génios das lendas não voltam a entrar nas lamparinas. A nova economia do conhecimento? É preciso investimento, perseverança e tempo. Além disso, as novas tecnologias precisam de cada vez menos gente e cada vez mais bem preparada. Mais e melhores serviços, mais auto-suficiência no consumo? Isso ajudaria ao menos para manter uma balança do comércio externo positiva.
A Constituição Portuguesa está caduca e precisa de ser revista. Não há Livro de Horas, preces aos deuses ou respeito pela doutrina da fé, que resistam ao choque com a realidade. A nova Constituição tem que ser simples, técnica, concisa e garantir um Estado viável. Acabou-se o tempo das ideologias utópicas, da literatura romântica e das encantações atávicas.
JSR

Friday, January 4, 2013

140 - America’s Fiscal Cliff - Uma Guerra Civil Pelo Futuro

Storm Over The U.S. Capitol
Duas concepções da sociedade Americana travam uma das últimas batalhas na sua guerra pelo futuro. Uma guerra civil entre antigos e novos paradigmas económicos e sociais.
Dum lado o partido Republicano, conservadores tradicionais e alguns extremistas, partidários dos valores de livre iniciativa e responsabilidade individual, para quem “redistribution is a dirty word”. Com um eleitorado composto na sua maioria por homens brancos, cristãos de diversas denominações protestantes regulares e de algumas fundamentalistas, das classes mais endinheiradas e também dos habitantes das cidades médias e pequenas da América profunda. Em vias de perder a guerra demográfica, lutam nos seus últimos redutos para manter o que consideram o espírito que fez a grandeza do país e o diferencia das sociedades europeias.
Do outro lado, o partido Democrata, menos conservador mas longe dos valores do centro e esquerda europeus, reivindicativo do direito ao trabalho e de maior solidariedade social. Composto por uma maioria de mulheres, minorias étnicas e outras, de crenças diversas, habitantes das grandes cidades e dos Estados mais progressistas. Em grande aumento demográfico, devido sobretudo à proliferação dos hispânicos como consequência de maior natalidade e emigração incessante dos países ao sul. O tempo só vai acentuar esta diferença.
O mundo suspendeu a respiração enquanto decorreram as negociações entre as duas partes em conflito para evitar um precipício orçamental (fiscal cliff) em 2013. Precipício causado pela possível extensão de leis supostamente temporárias, assim como resultado das medidas necessárias para reduzir o enorme e crescente deficit. Respira de alívio quando uma espécie de acordo é conseguido e o presidente promulga a legislação que aumenta ligeiramente os impostos dos mais ricos, continua os programas de apoio aos mais desfavorecidos e mantêm a miríade de deduções permitida pelo código dos impostos, assim como adia o corte nas despesas militares.
É certo que uma cura de austeridade demasiado drástica nos EU teria consequências mundiais. Demasiada austeridade, aumentando impostos e cortando despesa durante um período de abrandamento económico, leva ao perigo de recessão. O pacote original provocaria uma descida de cerca de 5% do PIB, o pacote que foi promulgado após negociações reduz a descida para cerca de 2%. Os países emergentes, como a China ou a Índia, cujo crescimento económico é altamente dependente das exportações para a Europa e para os Estados Unidos, suportariam dificilmente uma recessão Americana a juntar a uma Europa em crise.
Esta guerra civil tem um fim anunciado, para bem ou para mal. Os Estados Unidos percorrem o caminho de progressiva solidariedade social da Europa, caminho que é melhor ser sem retorno. Porque a alternativa seria o retrocesso à barbárie, a rendição às correntes mais extremistas que sempre percorrem o mundo e que por vezes vencem o progresso e a razão. O grande desafio é conseguir conjugar o dinamismo económico com o peso dos encargos necessários ao funcionamento do Estado.  
Todavia, não deixa de ser  curioso como para os Estados Unidos é considerado um “fiscal cliff”, aquilo que na Europa é considerado indispensável para a recuperação financeira e uma eventual retoma económica. Como dizem os Franceses, recentemente embalados por promessas eleitorais irresponsáveis e agora confrontados pela realidade da austeridade crescente: “Va-t’en savoir”...
JSR

Sunday, December 30, 2012

139 - Os Cartões de Boas Festas

Design by Danusia Janowski
Os cartões de boas festas são barómetros sociais. 
Os cartões que recebemos e os que enviamos, de quem e a quem, muitos ou poucos. Por eles se podem medir a proximidade das famílias, a qualidade dos amigos, o circulo dos conhecimentos, a teia dos interesses comuns, a importância social. Chegam às torrentes enquanto se ocupa lugares de importância e reduzem para o circulo mais próximo quando se deixa esses lugares.
O tempo muda também a forma dos votos e a tecnologia.
A celebração dos solstícios e equinócios é comum a todas as culturas. O equinócio da primavera foi durante muito tempo considerado o princípio do ano solar, pela razão obvia que representa o despertar da natureza após os rigores climáticos do inverno. A definição do calendário gregoriano teve como consequências a contagem dos anos desde a data suposta do nascimento de Jesus Cristo e a celebração do início do ano no solstício de inverno. A globalização da expansão europeia levou a que a datação anual se tornasse na data standard e o Natal cristão numa festa consumista global.
Dessas celebrações fizeram sempre parte os votos ou sacrifícios rituais aos deuses. Mais tarde, o envio de oferendas e depois cartas ou cartões em papel e materiais semelhantes, exprimiam esses mesmos votos aos familiares, amigos, protectores, clientes ou associados. Cartões oficiais ou empresariais, grandes, cheios de "logos" e com verdadeiras obras artísticas de design gráfico. Cartões de políticos, com frases de amizade de circunstância e por vezes com fotos de família, insinuando mútuos apoios para bem da grei. Outros, de particulares, são geralmente mais sóbrios, pessoais e calorosos. Há também as frases ocas do “feel good” com textos lamechas e ilustrações piegas, que todos nós comprámos ocasionalmente e que fez a fortuna das editoras especializadas em fornecer um pensamento “fast food” para cada ocasião.
Antigamente, os cartões enchiam mesas de entrada e recepção, secretárias e prateleiras de estantes. Agora, os cartões chegam maioritariamente por internet, para onde se têm mudado as antigas editoras de cartões com sites especializados. Uns são a digitalização de um cartão original em papel, outros são directamente feitos no computador.
Dos cartões recebidos nesta época, gostaria de distinguir dois, representativos do que foi escrito acima:
Um, recebido por internet do Center for Electronic Governance (UNU-IIST), foi criado por Dagusia Janowski, que trabalha em Londres como “graphics designer”. A sua execução foi descrita da forma seguinte: “The texture in the left top quadrant was obtained after hours of throwing blue paint on the paper with a toothbrush, then scanning the result. Likewise, the textures in the right top and right bottom quadrants were obtained after hours of scratching metal with a screwdriver, then scanning the result.” A arte necessita sempre de inspiração e trabalho, e este resultado é particularmente bem sucedido.
O outro, recebido dum casal de primos, que enviaram pelo correio um cartão feito por eles próprios, bem escrito e ilustrado à mão. São ambos médicos e católicos, que praticam na profissão e na fé o que muitos pregam e poucos fazem. Dedicaram a vida a missões de assistência médica nas regiões mais desfavorecidas do interior e na recuperação de tóxico-dependentes. Desinteressados de aparências e consumismos desnecessários. Depois de tantos anos nas rotas do mundo, é bom ter a família outra vez por perto.
Votos dum bom ano novo.
JSR

Monday, December 17, 2012

138 - Mahomet and the Mountain

The proverb goes: “If the mountain will not come to Mahomet, Mahomet must go to the mountain”.

After so many years of Mahomet going to the mountain...
of meetings (at the United Nations University in Tokyo, the International Institute of software Technology in Macau and others), an instance of which is documented by the photo below, recently received:
Here with Prof. Heitor Gurgulino de Souza, Rector of the UNU, Dr. Dines Bjørner, Director of UNU-IIST, Prof. Gilles Kahn, Chief Scientist, INRIA, Sophia-Antipolis, France, Prof. Kesav V. Nori, Vice-President, TRDDC, Pune, India, Prof. Ivan M. Havel, Director, Centre for Theoretical Study, Prague, CR, Prof. Maurice Tchuente, Vice-Rector, University of Yaoundé, Cameroon, Prof. Zhou LiGao, Vice-Rector, University of Macau, Prof. Ji FuSheng, Deputy Director General, SSTCC, Beijing, China.

...yesterday the mountain came to Mahomet:
Dr. Tomasz Janowski, Dra. Elsa Estevez, Dra. Sara Fernandes and Arq. Nuno Silva Leal kindly drove down from Braga in awful weather (after flying over half the world the day before) to join me for lunch and a meeting at Hotel Albatroz in Cascais. This is to register my appreciation for the efforts, the company and the interesting conversation. Hoping the projects discussed will succeed.
JSR

Tuesday, December 11, 2012

137 - A Survival Guide

Contrary to advertised wisdom, moving to Lisbon (or anywhere else in Portugal) is not for the faint of heart (tourists don’t count, they take superficial impressions as the holy book). Underneath the friendliness of some of its people, there is the roughness of a port city that has seen travellers from the whole world, come and go, ever since before history was written. Some of them have liked it and settled down. Others didn’t and left as fast as they could (or were pushed to...).
After having lived abroad for an extended period, even the Portuguese themselves, as much as the newcomers of other nationalities, complain bitterly about all the problems associated with moving back and settling down. Entire bookshelves are filled with the impressions of famous authors, on this subject.
Like everywhere else, it is safer to adapt (or re-adapt) to the ways of the locals than to fight them. When in Rome, do as the Romans do. Here are a few tips, learned the hard way:
- Waiting for your turn, whether in line or until your number is called, shows civilized behaviour anywhere, but skipping it is a local capital offense. A busy minister (now former minister), who tried to finesse ahead of his turn, was exposed endlessly and shamed with delight by the media.
- If you don’t intend to assemble yourself the furniture (or can beg, or cajole, or bribe your other half into doing that...) then don’t buy stuff at IKEA. It is easier and may be cheaper to buy the finished thing somewhere else.
- The higher up you go in official contacts, business meetings or cosmopolitan professionals, the more punctual your counterpart is and expects you to be. This is a recent improvement, which does not extend to the larger part of the population.
- For a regular appointment, time is just a statement of intention: “see you between three and four” is still very common and typically means the time when they will start thinking about it. Therefore, the one who asked for the meeting should be there first, say at four o’clock, carrying the iPad or a magazine and prepared to wait anything from 15 minutes (local friends) to several hours (prominent doctors or public services) depending on the circumstances.
- For deliveries, be sure you are their first stop in the morning, or you would wait for the tardiness accumulated during the day, well beyond the optimistic time they quoted for expected arrival, or even the reasonable understanding of the word “late”.
- For workmen, take note of the day and time (if any) they promised to come, but in practice go about your life unconstrained. The likelihood of any of them coming at the appointed time is close to nil.
If you are lucky, they will call you on the phone after ringing the bell at your door, either at a much later time or at a random later date. Then, you can go through the totally useless routine of scolding them for not keeping their promised schedule. Otherwise, if you happen to be in town (and are of a revengeful disposition...), say you will be back home in five minutes. Make them wait on your doorstep for whatever time it takes until you eventually arrive.
If you are not lucky, you will not hear from them again, or at least not until you call their supervisor or the administration of their company, to complain.
Portuguese, like people of every other nationality, do not hesitate to gripe about their country and their compatriots’ shortcomings, but will hesitate less than most in pointing out the equivalent failings of any foreign critic. Being famously prone to wander the wide world, they wrote the book about the foibles of others. Examples?
- On the one hand, Americans in France will enjoy the artsy way of life, but get grumpy about things like having the WC separated from the bathroom, the casual acceptance of nudity in ads, TV and movies, or the unblinking reference to politicians’ affairs as private matters.
- On the other hand, French in America will circle their wagons together, should they not be tainted by the local rustic habits: like having a sandwich at the office for lunch, instead of a full course meal at a restaurant with a glass of wine or two; or to be seen anywhere close to a fast food joint serving pre-chewed ersatz meat.
Changing habits is always difficult to or from any culture.
It does not take long to get used to the local ways and harden the soul. In time, foreigners will get it, and the day they return home can sometimes be a dramatic experience.
Portuguese can be friendly, but usually sensitiveness to criticism does not even penetrate skin deep: Yeah, right, it is irritating when foreigners do not understand us, but that is their problem; we have been at the cusp of civilizations when each of their countries, in turn, either broke down in pieces like the Roman empire, rose from barbaric life like the English or joined the family of nations, like the new countries of the Americas or the isolated Asians. After all, most of them have been touched by our past bold wanderings, occasional excesses and all time failings, whether they like it or not.
Lisbon and Portugal as a whole always seem to have had Chronos, the god of time, on their side. The motto is: keep rowing bravely until your sails catch the wind and then you are sure to get to destination (hopefully, without much further effort...). Eventually. So, what is there to be hurried about, today of all days?
JSR

Friday, December 7, 2012

136 - As Metamorfoses de Judite (Conversas Surrealistas)


Na televisão, não se pode fazer zapping à hora dos noticiários sem cair sobre a Judite. Na TVI, um campo de refugiados na guerra civil da televisão pública.
Assim que aparecem os anúncios, muda-se de canal. Foge-se da Popota, dos Fedorentos, do António Sala e dos outros vendedores de banha da cobra - e tropeça-se na Judite que apresenta as notícias.
Enjoa-se das cabeças falantes da RTP, formatadas num universo de notícias sem esperança desde que foram confrontadas com o futuro negro da privatização - e aterramos no nariz da Judite que entrevista um recalcitrante.
Tomamos uma água gasosa, para ajudar a digerir os insuportáveis papagaios sentenciosos a quem a SIC encomendou a queda do governo, antes que a privatização da RTP lhe estrague o negócio - e a máquina do tempo transporta-nos para debaixo da mesa onde a Judite lê as deixas a um oráculo.
Mas atenção, nunca é a mesma Judite.
Há a Judite das notícias, modelo das modistas, das cabeleireiras, das... (como se chamam as criaturas que “produzem” as caras das senhoras?). Judite, the fashion show mature model...
Há a Judite com o penteado de serpentes duma das Fúrias da mitologia greco-romana, que entrevista o primeiro ministro. Agressiva em vez de inquisitiva, a interromper com novas perguntas sem esperar pelas respostas, com um olhar de lado, desconfiado, duvidoso. Judite the bitch...
Há a Judite secretária assistente  de Marcelo, encarregada da agenda e das “dicas”, atenta, respeitosa e agradecida. Judite the groupie...
Há a Judite com ar de colegial oferecida e ambiciosa com Medina Carreira, dando fielmente à manivela da grafonola para ouvir mais uma vez o mesmo fado corrido, na esperança de obter uma boa nota. Judite the post grad...
Há a Judite fugidia, surpreendida e consciente de não ter feito o trabalho de casa, no programa com António Câmara sobre Economia do Conhecimento. Judite the fudge...
A mulher não só tem só o dom da ubiquidade, também é feita de plasticina.
Não sei se estes profissionais da TV frequentaram escolas de jornalismo, comunicação ou qualquer coisa desse tipo. Porque há bons profissionais da comunicação em Portugal, uma mão cheia. Mas também há os chatos, as mosquinhas mortas, as wannabe pop stars, os bandoleiros, os verbos de encher. Basta ver o trabalho dos bons entrevistadores como Barbara Walters, Larry King, Anne Sinclair, Richard Quest e alguns da BBC, para se apreciar as diferenças. A primeira das quais é que a “estrela” deve ser sempre o entrevistado e nunca o entrevistador. 
        Na realidade, tudo isto tem cada vez menos importância. Ver televisão é já uma actividade que denota uma certa idade. As novas gerações mais tecnologicamente avançadas nem sequer têm um aparelho de televisão. Informam-se e divertem-se na internet, onde os mais interessados podem ver as edições on-line dos jornais, mas ignoram soberbamente a programação televisiva e nem conhecem os nomes de quem serve de âncora às audiências em extinção.
JSR

Tuesday, December 4, 2012

135 - É Tempo das Avestruzes Tirarem as Cabeças da Areia

O país precisa de mais dinheiro? Que se taxem os vícios, todos os vícios. O Estado necessita urgentemente de cobrar mais dinheiro de impostos e de gastar menos nos seus serviços? É a altura de legalizar a venda e consumo de drogas estupefacientes, cobrando os impostos respectivos e poupando nos custos duma repressão inútil. Taxar ao nível das outras drogas, como o álcool ou o tabaco, ou mesmo acima se o mercado o permitir. Usando o dinheiro agora gasto no combate ao tráfico de droga, na luta contra outros tipos de crime e no tratamento dos tóxico-dependentes que se quiserem tratar.
Aviões que desaparecem do radar, submarinos, lanchas “voadoras”, “mulas” com sacos de plástico no estômago, entre outros meios sofisticados ou primitivos de transporte. Cultivo e produção já feitos às claras em muitos países. Apreensões cada vez maiores e mais frequentes feitas pelas autoridades. Condenações feitas com cada vez menos convicção para prisões sobrelotadas que são escolas de banditismo.
Enquanto houver clientes haverá fornecedores. Nada nem ninguém, em parte nenhuma do mundo, pode parar o tráfico de estupefacientes.
A proibição serve apenas para enriquecer os traficantes e quem os protege. Quem os protege? Acima de todos os outros, os políticos corruptos que recebem a sua parte directamente das máfias que controlam o tráfico, ou em contribuições para campanhas eleitorais com o mandato de se oporem a qualquer tentativa racional de legalização, papagueando nos media falsos argumentos morais ou de saúde pública. Depois, há os empresários que escondem o dinheiro sujo no meio de negócios legais, os banqueiros que lavam e movimentam o dinheiro, as correntes  religiosas que são contra tudo o que é racional. Toda uma indústria de interesses e comércios ilegais que gangrenam as sociedades.
No fim da linha estão os que votam, elegendo uns representantes com muita lábia e pouco discernimento, porque já estão apanhados na rede de interesses, ou estão resignados, ou são imbecis. Aceitam e propagam as balelas de considerar imorais uns vícios, como os estupefacientes, e aceitáveis outros, como o tabaco e o álcool, quando na realidade estes últimos matam mais frequentemente quem os usa e custam muito mais aos cofres do Estado no tratamento dos males que provocam. Incongruências, mas que entretanto causam infelicidade e desespero em quem as sofre.
Veja-se o que aconteceu com a “lei seca” contra o álcool em várias partes do mundo, embora a mais conhecida seja a dos Estados Unidos de 1920 a 33. Anos e anos de guerra contra as máfias, a corrupção das polícias, de magistrados e políticos, os discursos inflamados nos Parlamentos, as pregações catastróficas nos templos, os palerminhas de uniforme a cantarem nas ruas, tudo em vão. A natureza humana tem mais força do que as hipocrisias. Nessa luta, os estados não cobram os impostos devidos e esgotam-se a investir contra moinhos de vento.
Pode-se reverter a situação? Pode, a “lei seca” foi revogada nos Estados Unidos e em todas as outras sociedades desenvolvidas. Mas quando será isso possível em relação aos estupefacientes? Ninguém sabe, mas certas coisas só se resolvem em situações de emergência.
Porque se é tão difícil fazer ver a razão, fazer ver as vantagens do respeito das liberdades individuais e da liberalização inteligente das leis do colectivo, tanto nas ditaduras como nas democracias, só pode ser porque a manutenção da situação interessa a grupos demasiado poderosos, nacionais e internacionais, que lutam até às últimas extremidades para proteger as suas fontes de (enormes...) rendimentos ilícitos.
Esta é uma situação de emergência em Portugal. Ao diabo com os acordos internacionais de “luta contra a droga”, a “luta” há muito que está perdida. Toda a gente sabe, mas são poucos os que arcam com a responsabilidade de dizer alto, não só que o rei vai nú mas que já está a morrer de pneumonia. É preciso urgentemente encontrar dinheiro para financiar as funções sociais do estado? Taxem todos os vícios. Todos. Legalizem e taxem a produção, o transporte, a venda e o uso das drogas (ainda) ilegais.
JSR

Wednesday, November 28, 2012

134 - De Vez em Quando, a TSF...


Ontem às 22:44
José Soromenho Ramos lembra que a «Grécia se tornou um protetorado europeu» e que, neste momento, a «liberdade dos gregos está extremamente coibida».

Noticiário das 22h00 
 http://www.tsf.pt/paginainicial/Noticiarios.aspx?content_id=2913435
e seguintes
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=2913451&page=1

Eurogrupo teve decisão desesperada em relação à Grécia, diz economista

Publicado ontem às 22:44

José Soromenho Ramos lembra que a «Grécia se tornou um protetorado europeu» e que, neste momento, a «liberdade dos gregos está extremamente coibida».


O economista José Soromenho Ramos entende que o Eurogrupo tomou uma decisão desesperada em relação à Grécia e que é «preciso cuidado com os entusiasmos em Portugal» em relação a este acordo.
Ouvido pela TSF, este antigo conselheiro do FMI e da OCDE lembrou que «uma das consequências do que se está a passar com a Grécia é que a Grécia se tornou um protetorado europeu».
«A liberdade dos gregos está extremamente coibida por acordos e decisões. E não é de forma nenhuma certa que eles consigam cumprir estes acordos que são de tal forma favoráveis com a possibilidade de perdoar uma parte da dívida», explicou.
José Soromenho Ramos explicou ainda que se sabe se Portugal quererá aumentar prazos de pagamento, porque isso coloca o país «numa situação, de certa maneira, de protetorado, como vão estar os gregos durante muitos anos».
«É evidente que Portugal precisa de fazer as reformas necessárias para fazer relançar a economia», acrescentou este consultor da Universidade das Nações Unidas.
Este economista é ainda de opinião que Portugal deve tentar renegociar alguns pontos do acordo com a troika para que se possa aliviar a pressão sobre o país.
«Acho que se deve avaliar caso a caso até que ponto é que o acesso a novos fundos a prazos mais longos aumenta a liberdade de movimentos do país e não o tolhe», disse.
Para José Soromenho Ramos, «não é vantajoso tentar aproveitar qualquer coisa que diminua o peso temporariamente, mas acabe por tornar mais difícil a recuperação eficaz da economia».

Friday, November 23, 2012

133 - Dangerous Delusions

The so-called “Arab Spring” is turning into the winter of everybody’s discontent.
For many years, every time a regime has changed in that part of the world, it was for the worst. The local autocrats didn’t respect human rights or advance democracy, but at least tried to some extent to emulate the western social evolution in relation to secularization of the state, respect for all religions and advancement of women’s rights.
After the recent changes, countries like Iraq and Libya went back to the dark ages of fanatic religious sects and tribal fighting, Tunisia and now Egypt are fighting for survival against extremism, Syria descended into the hell of civil war and may bring Lebanon with it, Algeria, Jordan and Morocco are struggling for reform. The Gulf States are on the razor’s edge, on one side they are police states that bribe their citizens into quietness and on the other they suffer the blackmail of extremists, religious and other, who bleed their treasury in return for sparing them the mass demonstrations that led to revolt elsewhere.
The Muslim Brotherhood of Egypt and their brethren in other Arab countries is unsurprisingly taking over from the former despots and creating new ones, none the better than before. Morsi and his fellow Islamists are bent on creating a regime without any checks and balances, betting on the ignorant religious fervour of the masses to swallow it all. No courts, no participation of Christians (mostly Copts, who are the original Egyptians, those from before the Arab/Islamic invasion), non-participation of seculars or liberals in the writing of a new constitution. Another kind of caliphate in the making and the West is considering financing it.
Financing these regimes, there like elsewhere, is for no use and to no avail. In Afghanistan, the theft of almost one billion dollars led to the collapse of its largest bank. A brother of the President and a brother of his vice president were shareholders in the bank and it is obvious whose pockets were lined with the bounty, but they have not been charged with any wrongdoing. Instead, a few straw men are being tried, just for the sake of throwing sand into the eyes of the naive westerners who are propping up one more utterly corrupt regime.
There are many other examples of stupidity meeting extremism.  
Some pea-brained bigots, of whatever persuasion, in one of the boondoggles frequent in the wastelands of America, made a worthless film about Muhammad, considered a prophet by the followers of Islam. Other pea-brained bigots, Islamists this time, used the film as an excuse to go on rampage against everything American or western, killing in the process several diplomats and other innocents, considered expendable by the organizers of the demonstrations. 
In America’s hinterland, moronic televangelists and assorted preachers can sometimes compete in religious fanaticism, racist and bigot intolerance, with the Islamic sects. The major difference is in scale. Although some of those fanatics can actually kill, as they have already assassinated doctors who performed abortions, they have not reached the scale of massacre, the use of suicide bombers and attacks against women just for attending school, as seen in other parts of the world.
Fanaticism, the product of ignorance, poverty or cultural isolation, is a deadly threat to global human development. Unfortunately, it reaches even the developed countries where some of these communities live, or to where they emigrated or where they took refuge. Fanaticism does not accept or even understand the basic rules of civilized social life: that all people deserve respect, independently of race or sex, religion or lack of it, as well as their right to freedom in their life choices and opinions. Immigrant communities must respect the laws of the countries where they chose freely and sometimes illegally, to live in.
JSR